Band of Brothers + The Pacific

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Nós podemos ouvir a respeito de alguma coisa. Um evento. Um causo. Uma história. Uma guerra. Ouvindo, nós podemos tentar imaginar o que aconteceu de verdade, como era estar lá, como seria ter vivido aquilo que não vivemos. Se considerarmos que aquilo que nós vivemos é o que nos forma como pessoas, aquilo que nos ensina sobre o mundo e tudo mais, apenas ouvir por cima sobre esses eventos é muito pequeno e não nós dá do jeito certo uma imagem do que realmente aconteceu. Por outro lado, se você tira o evento de uma linha de texto, se você trás alguém que esteve lá e pede pra que essa pessoa apenas conte o que ela viveu, a dimensão do que quer que tenha ocorrido se transforma de forma extraordinária.

A maioria de nós que está vivo hoje não viveu a Segunda Guerra Mundial. Uma grande parte de nós só ouviu sobre a guerra em livros de história e em aulas que nem sempre contaram com os melhores professores ou com nossos melhores dias e vontades de simplesmente saber o que aconteceu. Existem também um monte de documentários, museus (se você puder viajar pra fora do Brasil), especiais de televisão, séries, filmes e jogos de video game e revistas em quadrinhos. É verdade que muitas dessas obras e desses registros conseguem trazer essa experiência do que aconteceu, de como aconteceu, de como eram os dias e como era estar lá. Gosto especialmente de como é possível encontrar histórias de cada país, de cada lado da guerra, de um soldado, de um general, de um judeu, de uma adolescente num abrigo e tantas e tantas outras histórias.

As séries Band of Brothers e The Pacific contam histórias seguindo relatos de soldados. Pessoas reais que estavam lá. Mais do que serem espetáculos visuais, essas duas séries mostram a guerra de uma maneira muito crua, muito verdadeira e por se tratarem de histórias reais a progressão dos eventos não é óbvia e a ilusão do herói de ação que recebe o chamado ao dever é destruída para construir pessoas que voltam pra sempre marcadas por dias, noites, tiros, mortes e sons. Uma visão em primeiro plano do que a humanidade é capaz, tanto para o bem, quanto para o mal.

Tendo dito isso, é importante dizer que como séries de TV, como entretenimento, como execução de uma obra Band of Brothers é muitíssimo melhor que The Pacific. Muitíssimo. Anos luz melhor. Mas isso não significa que The Pacific é ruim, é bom também, o problema é que Band of Brothers é muito acima da média, é facilmente uma das melhores séries que eu já vi.

The Pacific conta a história da guerra no Oceano Pacífico (como deve dar pra deduzir hehehe) e é mais focada no combate dos soldados dos EUA contra o Japão, avançando de pequena ilha em pequena ilha até chegar ao território nipônico. Como disse, a série é boa, tem uma produção legal em termos de visual, de fotografia e outras questões técnicas. Tem cenas de batalhas que são melhores do que qualquer coisa que eu tenha visto no cinema, apesar de ser difícil entender o objetivo dos soldados, porque estão indo do ponto A ao ponto B e onde é o ponto A e o ponto B.

A série me deu várias vezes a impressão de ter sido filmada por um fotógrafo, alguém bom em capturar um momento se ele fosse estático, balanceando enquadramento, luz e cor, mas não o movimento da guerra em si, dando noção dimensão, de progressão, de avanço, de combate, de espaço. É tudo muito bonito, mas pra mim não trouxe impacto. Em especial, sem dar spoilers, o episódio que mostra a batalha Iwo Jima é uma sucessão de fotografias muito bonitas.

Um dos problemas da série é também parte do elenco. Enquanto que em Band of Brothers você não vai ver em nenhum momento, em nenhum lugar, um ator ruim e inclusive vai ver por toda a série aqui e ali vários atores que hoje se tornaram famosos fazendo seu primeiro grande trabalho ali, em The Pacific existe um núcleo que começa a ser melhor explorado a partir da metade da série e que funciona muito bem, por outro lado o núcleo dos primeiros episódios me desagradou ao ponto de ter sido um dos fatores que mais pesou que eu quase desistisse da série lá pelo terceiro episódio.

Quando esses dois caras aparecerem, saiba que o pior ficou para trás!

Outro fator que pesou bastante pra eu quase ter desistido é que ao contrário de Band of Brothers onde a história é contada de forma mais crua e realista, vez ou outra o tom da série vira Hollywood, com cenas e peças de roteiro que não deveriam estar lá se o objetivo deles eram fazer algo diferente do que já foi tantas vezes feito quando qualquer filme resolve retratar a guerra. Esse temperinho Hollywood permeia a série toda aqui e ali, mas como disse, a partir da metade da série, ela melhora muito e mesmo com esse tempero tentando aqui e ali dar ares de fantasia pra coisa toda, a história, por ser biográfica, é muito mais poderosa e acaba vencendo.

Band of Brothers conta a história da guerra do lado europeu. Sinto vontade de não falar tanto a respeito dos detalhes simplesmente porque gostei tanto e achei tudo tão bem feito, que não quero estragar a experiência de quem for ver. Do treinamento dos soldados a o último dia deles, existe uma progressão bem clara das coisas, dos personagens e das histórias. Certos episódios vão te ensinar sobre batalhas que talvez você nunca tenha ouvido falar e que vão ficar na sua memória.

Essa série não é apenas muito foda visualmente, ela tem ritmo, tem força, tem tensão, tem história. Recomendo grandemente inclusive que você evite a tendência do mundo moderno de querer ver todos os episódios de uma só vez. Vai com calma. Veja um por dia. Vai valer a pena. Vai ter coisa o bastante para digerir. Recomendo inclusive pra você que não gosta de histórias de guerra.

Por fim, fico apenas pensando em como seria legal outras histórias tratadas dessa forma. Talvez o lado russo da história. Talvez o lado alemão da história. Talvez uma série dessa para cada país. É difícil imaginarmos hoje o que significou naquela época o mundo estar em guerra.

Vivemos numa época onde pessoas idiotas e de caráter podre estão no poder. Vivemos numa época em que somos uma geração que tem dentro de si a vontade de ver algo acontecer. Talvez esse seja de verdade um momento importante para olhar pra essas histórias, pra olhar para o que já aconteceu e nos lembrarmos do que é mesmo importante e o que não devemos mesmo tolerar.

– Corre assistir a série, galera!

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