Ouvindo outras árvores

Se você não fosse como eles – e apenas escutasse a conversa – provavelmente acharia curioso como o tom de voz, a construção de frases e até a dicção era diferente da que se esperaria para crianças daquela idade. Isso sem falar dos assuntos que falavam.

Os adultos, que dividiam a mesa com os pequenos donos aquelas vozes tinham também um leve ar de outra coisa. Se via neles um entusiasmo e um fogo, uma certa força pontuada nos fim dos sons das coisas que diziam. Falavam forte, falavam vivo, falavam bem. Os olhos observavam o mundo, se movendo, brilhando e acendendo, buscando ali no logo ali fora um sentido, um motivo, um humor, uma curiosidade. Não eram olhos imóveis esperando a luz entrar.

Da nossa mesa ouvíamos. Espiávamos com os ouvidos a outra mesa, uma outra família. Uma mesma árvore, cheia de frutos abaixo dela.

Como normalmente se faz quando as pessoas se juntam e comem e ficam, as pessoas falam e no que falam mostram como acham muita coisa. Expressam ideias. Expressam opiniões, explicam conceitos para os mais novos, seja contando mentiras católicas entupidas de culpa e uma falsa noção de onisciência, seja numa abordagem mais consciente de que a pequena pessoa que não entende apenas não entende, ela não é imbecil ou culpada dos seus pecados, sacrifícios e dores. A criança pergunta, um dos adultos responde, outro complementa, a resposta é seguida de uma história e a história termina num riso que se espalha por toda a mesa.

Notei, com meus ouvidos tão sensíveis e tão cheios de si que havia na conversa, havia na paciência, no transcorrer dos pratos e bebidas da refeição da mesa ao lado uma verdade que como trama segurava tecida em si aquela cena. Certas árvores fazem melhor seu trabalho. Aquelas crianças serem como eram, falarem como falavam podia ser visto igual nos adultos em volta. Uma sequência, uma herança, uma corrente bem clara que faz com que nem todos na vida estejam preparados da mesma forma pra essa tal vida porque caíram como frutos dessa árvore e não daquela.

Nem todos partem do marco zero.

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