Sobre iphones e coisas

Foi ontem, hoje é 13 de setembro, sim, quarta-feira 13, uhhh que medo!

Foi ontem o evento anual onde o mundo fica sabendo sobre os novos iphones. Devo dizer, apenas para efeito de honestidade (ora essa!), que sou um dos apoiadores da maçã, tendo feito minha união a causa numa época em que muitas ideias poderosas, inéditas e que faziam a diferença brotavam por lá, tanto no mundo dos celulares, quanto dos computadores e notebooks.

Não era só pela marca, não era só porque era bonito, não era só porque o Windows é uma merda, bastava usar uma vez para ver as coisas sendo mais fáceis, melhores, dava pra fazer mais e ser mais eficiente. Perceptivelmente. Sem dúvida, sem marketing, de verdade. E como costuma acontecer com casos assim, depois da primeira fase de estranhamentos, o sucesso cresce e atinge a todo mundo e em algum momento indefinido no caminho as coisas começam a mudar.

Se fosse pra escrever uma teoria da conspiração, daria pra dizer que a mudança começou a acontecer bem quando o sr. Steve Jobs morreu. E antes que lhe passe pela cabeça, não sou dessas pessoas que achava que ele era uma espécie de deus ou qualquer coisa assim. Reconheço contudo que a habilidade dele de “tocar a orquestra” realmente fazia diferença e a qualidade geral dos produtos e a direção para onde eles apontam parece ter mesmo mudado desde que ele morreu.

No evento de ontem fiquei particularmente incomodado com o começo da apresentação e com um certo tom de deslumbre que acabou se tornando uma caricatura do que são os eventos da Apple hoje. Eis um resumo:

It’s amazing bla bla bla bla…never before in the whole world, bla bla bla bla… it’s amazing, so beautiful, so number one, so wow, so it’s amazing. Really incredible, bla bla bla bla product, it’s amazing. Video com narração e fundo suave. Montagens com famílias fictícias do primeiro mundo tendo rotinas impossíveis de saúde e bem estar. It’s amazing. 100% reciclável. Preço. It’s amazing. Compra ae, falou ae.

A linguagem toda começou a me parecer com uma daquelas religiões semi-alienatórias. A repetição de palavras, a maneira de dizer as coisas dando respostas para que nosso cérebro réptil não pense, coisas como “esse produto é lindo!” e é porque eu disse que é e disse assim, bem simples, bem duro, bem direto, não pense tá aqui a resposta, eis o que pensar! Apesar disso, é só um pedaço de vidro colorido e que talvez seja bonito mesmo só quando você ver ao vivo e que se um dia você tiver vai precisar de uma capinha pra esconder toda essa beleza porque custa caro, sim? Logo, menas, queridas. Menas.

Eu sinto também uma certa saturação do nível de tecnologia que foi alcançado. Acho bastante impressionante as possibilidades de fotografias, com mil filtros, analises de imagens e aí vem o novo modelo desse ano que faz mais ainda e ainda! Poxa, será que não mais legal investir em desenvolver outras coisas do conjunto? Tipo bateria? Tipo alguns softwares que ao longo dos anos foram ficando uma merda? Tipo um fone que dure mais de 1 ano?

Esse ano inclusive, com esse novo iphone X (que é “dez” e não “xis”, saiba) dá pra monitorar expressões faciais do seu rosto de tal forma e com tal processamento que é possível animar em tempo real um personagem virtual. Não muitos anos atrás isso era tecnologia de filme. Inclusive, falando em muitos anos atrás, quando a Microsoft pulou o Windows 9 e foi direto para o 10, achamos estranho, torcemos o nariz, mas tudo bem, eles inclusive tem uma contagem maluca com o xbox também (zero, 360 e one), aí agora a Apple fez também, o que nos faz pensar que deve ter uma teoria da conspiração pesadíssima a respeito do número 9, que é o 6 de ponta cabeça, que como sabemos é o que você obtém se pegar apenas o primeiro caráter do número da besta 666. É. Isso. Faz muito sentido. É. Faz. 

Por outro lado, pensando em conspirações mais reais, considerando as revelações a respeito de como somos todos monitorados e espionados, pense que a próxima geração de celulares vai realmente ler seu humor pela sua expressão facial e essa informação num daqueles esquemas de “vamos só vender os dados sem associar isso a você” vai ser vendida pra meio mundo e – de repente numa manhã de setembro – temos um fator a mais na hora de lhe vender anúncios direcionados ou apenas de lhe monitorar melhor pela tele-tela, sr Winston.

A apresentação também me fez pensar no impacto que ter acesso as coisas pode ter. Não só porque aqui no Brasil o Iphone X (“dez”, não “xis”, não esquece – falando comigo mesmo) vai provavelmente custar 10 mil reais fazendo aquela conversão de pegar o preço em dólar e multiplicar por dez, mas também porque tudo é muito caro. É meio óbvio que limitar o acesso as coisas, limita acesso as ferramentas e limitar acesso as ferramentas, impede as pessoas de aprenderem, de serem criativas, se fazerem mais, de serem algo novo, de se libertarem de um ciclo que já estão presas. Não quero nem entrar nessa discussão hoje. Hoje só quero dizer que é foda ver coisas como o apple watch que tem todo um lado de consumismo, de produto, de imagem, de branding, de você ser mais especial porque tem essa coisa bonita, mas que tem também um lado de saúde, um lado de ser um objetinho esperto que te torna alguém mais ativo, que monitora suas alterações do corpo e que pode mesmo te fazer viver melhor, com mais energia, mais saúde e etc.

Por fim, acho curioso que quando tem anuncio de produtos novos da Apple, as redes sociais fervilham e como chega na conversa ao vivo dos lugares da nossa rotina pelo menos um pedaço do que foi mostrado. Acho muito curioso ver a quantidade de pessoas que se propõe a gastar tempo só pra falar mal, só pra falar que o Android delas é melhor, só pra fazer uma discussão que na verdade é escárnio e que muitas vezes é bem salpicada de “quem desdenha quer comprar”. Não é sobre tecnologia, é sobre imagem. É sobre afirmação. Sobre auto afirmação.

Queria que as coisas fossem mais simples, mais baratas, com menos modelos e que resolvessem problemas de verdade. Curioso pensar que as coisas que mais chamam atenção nas novidades anunciadas são quase sempre ferramentas pra mostrar você, sua vida, o que você tem e em como esse pedaço de vidro colorido é ainda mais bonito, com tela bem definida. A ironia final é que no fim, o pedaço de vidro colorido nos engana, mas também enganamos ele. Sinto que ele nos torna mesmo mais felizes.

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