Jogos que morrem

Tenho alguns problemas com jogos free to play. Muitos na verdade, sendo a maioria deles ligados ao pouco esforço em criar algo que seja um jogo mesmo, no sentido de ser um desafio real, que transmita alguma coisa, mais do que simplesmente um apertar de botões dentro de uma mecânica impossível de ser vencida a não ser que você gaste seu dinheiro ou tenha muita sorte.

Não gosto também de todos os problemas psicológicos que esse tipo de jogo incentiva e de como tudo isso é as vezes escondido em ícones coloridos e brilhantes. Odeio mais ainda as mecânicas de fazer as pessoas esperarem como idiotas pra poder fazer o próximo clique inútil, pra depois esperar mais horas. Como comentei aqui há um tempo atrás, isso tudo é diferente quando falamos de jogos free to play de RPG online (ou MMORPGs, pra *vc* que gosta de siglas).

Indo direto ao ponto, comparado com as experiências de RPG que estão disponíveis por aí, o que esses jogos costumam oferecer é consideravelmente limitado. A mecânica em si, o jogo em si, acaba sendo algo simples e se dependesse apenas disso pra alcançar o sucesso, muito provavelmente não iria dar certo. O que faz as pessoas jogarem e o que faz esses jogos serem especiais acredito que sejam outras coisas.

Primeiro vem o preço. Esses jogos são de graça. É bem verdade que existem 1 milhão de sites com emuladores que também são de graça. É bem verdade também que mesmo os jogos pagos (incluindo lançamentos) tem sempre em algum lugar da internet um jeito de conseguir jogar de graça. Entretanto, encontrar esses sites de emuladores e realizar esses “esquemas” não é algo que qualquer pessoa consegue fazer, sem se perder por sites de conteúdo bizarro, terrível, virulento e nojentinho (…nojentinho?).

Eu sou um desses idiotas que acredita que as pessoas no fundo são boas e que elas querem fazer o bem. Acredito de verdade que as pessoas fazem o mal por ignorância, por erros de interpretação das coisas. Se existisse mesmo aquela arma do ponto de vista do Mochileiro das Galáxias, aquela que a pessoa que toma o tiro passa a sentir como se sente a pessoa que deu o tiro, quase todos os conflitos do mundo acabariam na hora (vídeo aí em baixo).

Digo isso porque acredito que as pessoas que compram jogo pirata, ou que fazem esses “esquemas”, baixam emuladores e tudo mais, no fundo de suas belas cabeças, prefeririam não ter que ir por esse caminho. Acredito de verdade que essas pessoas seriam mais felizes se pudessem fazer tudo dentro das leis, inclusive acho que seria assim até pra essas pessoas que ao lerem isso se perguntarem “mas pra que pagar, se eu posso ter de graça, seu bobão da internet ‘nojentinho’?”. Acredite, se você tivesse dinheiro o suficiente pra poder pagar e seguir com a sua vida sem maiores preocupações, você realmente seria mais feliz. Ainda mais se entendesse o quanto é complicado produzir um jogo e o quanto se perde quando todo aquele trabalho não consegue dar retorno, não porque o jogo não é bom, mas porque as pessoas resolveram roubá-lo. “É, gostei tanto do seu jogo que te levei a morar embaixo da ponte! Sou seu maior fã, meu mendigo favorito!”

Sendo assim, acredito que exista dentro das pessoas duas coisas que fazem elas darem uma chance a esses jogos RPGs online gratuitos: 1 – Preguiça, já que dá trabalho achar sites, lugares e esquemas que não vão te foder e 2 – A vontade subconsciente de não fazer algo errado, de não ser uma fraude, de fazer parte de alguma coisa de forma autêntica.

E aí o jogo é baixado, é de graça, tem no meu idioma, é rapidinho, porque não? Então, antes mesmo da pessoa ser exposta a mecânica do jogo, ela escolhe o personagem dela, ela configura o personagem dela, ela se cria dentro do jogo. É uma experiência diferente, não é só a mecânica, é a pessoa, é você, é o personagem que você fez. Vamos ver ele agora na prática, vamos entender esse jogo, olha como ele é bonito, como as coisas brilham, explodem, e pulam e você subiu de nível, e você ganhou coisas e você não tem mais tempo de jogar hoje, mas é uma época social, de redes sociais e você vai comentar que jogou um jogo novo, que era de graça, que você fez seu personagem, e as coisas pulam explodem e voam, e você evolui, avança e ainda dá pra jogar online com outras pessoas! (27 curtidas!) Amigos vão ler seus comentários, conhecidos vão ouvir falar e é aí que o verdadeiro valor desses jogos aparece.

O aspecto social.

Você não é um jogador, você é um grupo, vocês são um grupo.

E em grupo, saiba, qualquer coisa que exploda, brilhe, suba de nível, seja customizável e cheio de aventuras, é sempre mais legal (isso vale também pra cinema, já viu um filme no cinema com a galera e achou bom e depois viu sozinho em casa e achou uma merda? Pois é). A interação com outras pessoas, desconhecidas ou não, faz com que as pessoas se descubram, se permitindo ser quem quiserem ser, aprendendo a se importar ou não com os outros vão pensar.

A sua aparência? Sua altura? Seu peso? Esqueça tudo isso, nesse mundo, você é o “você” no jogo, você é o “você que você fez” no jogo, com orelha de gato, cabelo vermelho e um machado maior que você!

Sua personalidade, seu nervosismo de falar com as pessoas, vai tudo pro lixo. Aqui você é um herói, nós somos heróis, somos um grupo de aventureiros, somos muitos, somos melhor.

Não é sem motivo que jogos assim entrem na vida das pessoas como uma segunda vida. Todo esse aspecto social ainda é potencializado com os eventos que as produtoras colocam dentro dos jogos comemorando datas do mundo real e do mundo imaginário. Nesse fim de semana tem experiência extra, no outro mais chance de pegar aquela arma, ou itens de customização que normalmente são pagos estarão com desconto, e tantas outras coisas que alguns desses jogos tem mais de um evento por semana no ano. Os mundos são constantemente atualizados, o jogo se renova, não para, coisas novas, novas customizações, novas missões, novas oportunidades de evoluir com seu grupo de amigos, novos objetivos que você pode cumprir e se sentir realizado, objetivos projetados para serem assim, plenamente realizáveis (ao contrário de muitos objetivos da vida que simplesmente estão lá e que muitas vezes são literalmente o oposto. Um alô pra você que trabalha e estuda ao mesmo tempo).

Eu não acho que isso seja negativo. Muito pelo contrário. Jogos transformam as pessoas. Esses jogos inclusive transformam não só no aspecto psicológico, quando a pessoa passa a ser capaz de realizar objetivos, de evoluir e conquistar coisas, como também no aspecto social. Meninos que aprendem a falar com meninas, meninas que aprendem a falar com meninos, meninos que se descobrem gays, meninas que se descobrem lésbicas, amizades que nascem do jogo e duram por uma vida toda, namoros, casamentos, brigas, festas, alegrias, tristezas, dança, comida, bebida, espadas, magias e muito xp.

E esses jogos duram anos. E com os anos as pessoas crescem, envelhecem e mudam. Mudam internamente, mudam externamente, mudam suas rotinas, suas vidas, sua disponibilidade de tempo e suas prioridades. O jogo nem sempre é visitado com a mesma frequência. Até mesmo os amigos feitos não tem mais tanta presença. Bate um sentimento talvez de nostalgia, de noites longas de muita risada e aventuras num mundo onde todos somos melhores e ficou no passado.

E o jogo continua. Jogadores novos entram, jogadores antigos jogam menos.

E o tempo passa mais, e jogadores antigos jogam ainda menos e jogadores novos talvez escolham agora ir pra outros jogos, pra um certo jogo novo que está fazendo sucesso e que tem nome de risada (quem pegou, pegou), que tem essa mecânica nova, esse elemento novo, esse gráfico mais bonito, ou sei lá o que. Como é uma questão social, cada jogador novo leva mais jogadores, mais amigos, mais indicações nas redes sociais e o jogo antigo vai ficando com um público menor, menos frequente, até de repente, indo a favor da lógica e contra a emoção de todos os que viveram tantas coisas por causa daquele jogo, ele morre.

A produtora do jogo decide fechar o jogo. Acabou. O modelo de negócios e o dinheiro (a coisa mais importante do universo…. é…. é… sim…) falam mais alto. É preciso por pontos finais, é preciso terminar um livro pra começar outra história. O final acontece.

O mundo é feito de muitas pessoas diferentes, com gostos diferentes, todo mundo no seu jeitinho especial. Como o mundo é uma aldeia gigante, os jogos são lançados e localizados pelo mundo todo e nem sempre fazem o mesmo sucesso em todos os países, isso cria algumas vezes situações muito complicadas onde um jogo morre em todas partes do mundo, menos em uma.

E aí? O que fazer? O que será que passa na cabeça dos desenvolvedores do jogo? Deixar apenas esse um? Por quanto tempo? Até quando a comunidade vai sustentar o jogo? Até quando vale a pena continuar com essa história e não começar outra, com novas mecânicas e tudo mais?

Mesmo em casos onde não existe apenas uma última região onde o jogo ainda vive, é curioso ver o que um fim de um jogo provoca nas pessoas. Todas aquelas experiências vividas vem a tona na memória ao saber que aquele jogo, que durante muitos anos da sua vida, durante muitas noites da sua vida, num tempo em que você nem sabia direito quem você era, vai acabar. Esse mesmo jogo que te deu amigos, que te deu mais do que você consegue entender, esse mesmo jogo que você já nem jogava tanto, que você nem tinha mesmo tempo pra estar lá, mas que gostava de saber que estava lá, como um monumento de algo bom no mundo, um farol, uma memória boa materializada num nome, numa comunidade, num ícone que permanece no desktop por anos sem ser desinstalado, em um mundo, esse jogo, o seu jogo, acabou.

De certa forma é uma experiência psicológica parecida com a de perder um pai, uma mãe, alguém que esteve com você ao longo dos anos, que te ensinou coisas e que foi um ambiente seguro, um lugar pra ir, um porto seguro pra vir de vez em quando, amarrar seu barco e esquecer de todo o resto.

Como diria o cara da minha história do X-salada: é foda.

Particularmente eu gosto muito mais de jogos de consoles e por lá a experiência é diferente. Lá os jogos não morrem. Eles não dependem de um servidor localizado no outro lado do mundo pra continuar te dando as mesmas experiências. Eles te ensinam, te desafiam, te colocam em situações que te mostram coisas pra você sobre você mesmo. Eles exigem coração, coragem e habilidade. Todas essas são coisas que os RPGS online que estávamos falando também fazem, mas os jogos de console são outra coisa, eles são uma experiência pessoal local.

Engraçado como é comum que se pense que esses jogos online não tem fim, ao contrário de jogos de console que você pode “zerar o jogo”.

“Zerar o jogo” não é o final, o jogo ainda está ali, você pode jogar de novo, pode jogar mais, é só ligar e pronto. Já pra esses jogos online que duram anos, com muitos e muitos eventos, com muitas e muitas histórias, quando eles tem fim, é o fim. O servidor não responde mais, não dá mais pra entrar no mundo. O que havia, acabou.

Por mais que existam jogos online também nos consoles, por mais que exista o multiplayer, por mais que exista uma comunidade e etc, o jogar junto de um jogo free do play online de RPG acaba sendo único por causa das pessoas que estão lá. Engraçado inclusive como jogos diferentes formam comunidades diferentes, com tipos de pessoas diferentes, de alguma forma, o mundo que as pessoas escolhem pra ser seu “segundo mundo”, pode dizer mesmo muito sobre elas.

Jogos conseguem criar memórias dessas que duram além das coisas que as criaram, dessas que vão além do tempo, dessas que ficam em quem esteve lá. Existe um valor especial pra esses jogos, já que todas as coisas que tem final definitivo, já que tudo aquilo que morre e que envolve a passagem de tempo e a relação com outras pessoas, é que cria as memórias mais fortes, seja o multiplayer com seus amigos no seu sofá quando você era criança, ou com seu pai, ou com seu irmão, ou com todos aqueles amigos da internet. É clichê, mas é verdadeiro, alguns jogos morrem, mas o que eles nos deram, com a gente vivo continua.

E pra concluir, sem motivo nenhum, um gif de um hamister comendo um mini cachorro quente.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s

%d bloggers like this: