Knights of Pen and Paper

Alguns anos atrás, jogar RPG significava juntar um monte de amigos que achassem legal fingir que eram outras pessoas vivendo aventuras em mundos imaginários.

Apesar de parecer coisa de maluco, nesses jogos, a partir das descrições, da inteligência, e do bom humor dos envolvidos, uma história única e interativa podia sempre acontecer.

Um dos amigos assumia o papel de Mestre e cabia a ele controlar o mundo e dar a direção principal da história, descrevendo o que acontecia pra levar as decisões dos outros jogadores pra uma aventura, planejada ou não. Os outros jogadores assumiam papéis de guerreiros, magos, andróides, espíritos, anões, ladrões e muitos outros, dependendo do universo do jogo.

Se os heróis tivessem que salvar uma princesa e para isso enfrentassem, digamos, ahn… um dragão, e o mestre dissesse que a terrível besta lagartina ia atacar um deles, a combinação de um valor tirado nos dados pelo mestre e pelo jogador atacado, somado com as características próprias do personagem atacado e do dragão, iriam dizer se o golpe tinha acertado em cheio, de raspão ou errado.

Quando apareceram os jogos de computador e videogame, esse tipo de jogo acabou sendo usado como inspiração. O computador passou a ser o mestre. A parte gráfica, o som e, depois, os vídeos em CG, substituíram as descrições. A experiência passou a ser mais limitada dentro de um roteiro e apenas um jogador passou a controlar todos os heróis, ou apenas um herói, dependendo do jogo. Apesar de muita coisa ter mudado, muita coisa permaneceu, entre elas o nome RPG, já que ainda era um jogo de se interpretar papéis, mesmo que você não pudesse mais fazer qualquer coisa que te desse na cabeça, como é possível nos RPGs de mesa.

Knights of Pen and Paper é um jogo indie de RPG, com batalhas por turnos, em estilo retrô/16 bits/anos 90. Produzido pela Behold Studios, o jogo também adapta os RPGs de mesa para uma forma digital, mas leva essa idéia um pouco mais ao pé da letra. O resultado é um jogo divertido, bem feito e que pode impressionar por tudo que consegue oferecer, apesar da simplicidade.

Knights of o que?

Em Knights of Pen and Paper, você controla um grupo de personagens, que fica sentado em uma mesa, de frente pra um mestre, controlado pelo computador, que literalmente descreve a aventura. A medida que ele conta a história, o ambiente muda, ficando só a mesa, o mestre e os jogadores no mesmo lugar. Inimigos e personagens da história, como, reis, magos, sábios e outros, também aparecem conforme a história se desenrola.

Cada um dos personagens controlados por você tem uma personalidade e vantagem próprias, além de uma profissão que você pode escolher. Os personagens incluem personas como uma vovó, um motoboy, e até um ET. As profissões, são as clássicas de RPGs de mesa medievais como paladino, guerreiro, ladrão, mago, druida e clérigo, mas outras profissões são liberadas a medida que se avança no jogo.

Cada profissão tem habilidades únicas que são evoluídas e destravadas a medida que os personagens ganham pontos de experiência ao vencer batalhas. O sistema de luta é por turnos e mais parecido com jogos de RPGs de videogame, com a inclusão da possibilidade de você poder escolher quantos inimigos quer enfrentar por luta. Coisas que dependam mais de sorte, como a chance de ser atacado durante uma viagem, são decididas na rolada virtual de um dado de 20 lados, ou D20, para os íntimos.

Ainda sobre evoluir os personagens, é possível equipar e comprar itens e acessórios, além de forjar armas e armaduras.

Fora do mapa do jogo, existe uma loja pra comprar coisas para a sala onde se passa a partida de RPG. Uma armadura antiga para enfeitar a sala, por exemplo, além de dar um tom de castelo medieval ao seu singelo cafofo, aumenta o HP dos personagens. Existem ainda tapetes que aumentam a quantidade de experiência ganha por luta, miniaturas e mascotes pra colocar sobre a mesa e até salgadinhos e refrigerantes que tem efeitos que duram só alguns minutos, já que, em qualquer partida de RPG de mesa que se preze, salgadinhos e refrigerantes não costumam durar muito mesmo.

História, referências, gráficos e som

O enredo do jogo segue a idéia de simular uma aventura de RPG de mesa. A história é simples, mas carismática, bem escrita e bem humorada, brincando sempre que possível com a própria realidade do jogo ser um jogo dentro de um jogo. Além da história principal, existem muitas missões paralelas para cada um dos lugares do mapa, que incluem florestas, desertos, templos, cavernas, cidades e outros.

No nome das cidades, em falas de personagens, em momentos da história e de tantas formas que é bem fácil algumas passarem despercebidas, Knights of Pen and Paper faz inúmeras referências a coisas da cultura pop, a coisas do mundo dos RPGs de mesa e até de animes, desenhos dos anos 80 e, claro, outros jogos.

As referências, além de ajudar o jogador a se sentir em casa, se encaixam muito bem com a idéia de um RPG de mesa, como se o mundo e a aventura tivessem mesmo sido criadas por um amigo seu, ou alguém que não está mesmo preocupado em fazer uma super história com mil reviravoltas e críticas à terrível sociedade, blá blá blá, mas sim uma aventura divertida, que brinque com coisas que vão ser engraçadas pras pessoas que estão jogando.

Os gráficos, apesar de emularem o visual dos jogos de RPG da era 16 bits, ou algo assim, tem uma personalidade própria. E o visual, apesar de ser retrô, é um “retrô mais contemporâneo”, podemos dizer.

Os sons e a trilha sonora também acompanham a ideia de lembrar os RPGs dos anos 90. A trilha sonora é competente, consegue parecer uma trilha sonora de jogo antigo e complementa o clima pedido por cada momento do jogo. Depois de jogar, você provavelmente vai poder se lembrar de algumas das músicas, apesar de saber que essa não é uma das trilhas mais inesquecível da sua vida.

Por fim

Acho importante dizer que a Behold Studios, criadora do jogo, é uma empresa brasileira. Mas, veja bem, acho importante comentar, não pra bater palmas no sentido de “ó, meu senhor Lorde Jatobá, que grande esforço foi pra eles fazer um jogo, vivendo aqui nesse país de merda, indaiô indaiô, mizifim, tadim-zim deles, samba e corrupção blá blá blá”.

Knights of Pen and Paper é um sucesso pelo mundo e esse sucesso se deve ao simples fato do jogo ser bom.

É legal notar que ao criar o jogo houve um compromisso de fazer sim um jogo para um mercado mundial, disponibilizando o jogo em vários idiomas (não apenas português e inglês) e tomando certas decisões no enredo e etc que abrem o mundo pra um entendimento de mais gente, como por exemplo na parte da escola (spoilers! tem uma escola no jogo, oh não, a experiência está pra sempre arruinada!….. . . . . . .)…Entretanto, ao mesmo tempo que existe essa preocupação, nos detalhes aqui e ali existe a identidade de um estúdio brasileiro, seja em coisas mais óbvias como numa referência a Hermes e Renato, Charlinho e seu gosto por estudar e por batatas, seja em coisas mais sutis como no senso de humor e talvez até na escolha das referências.

Se você é uma dessas pessoas que acha que não tem ninguém fazendo jogos realmente legais no Brasil, ora, ora, vejam só, é hora de acordar queridão (queridão….?). E esse é só o começo, ou, como diria o Marcelo Rezende, “esse é só um caso”.

Ainda assim, o jogo não é perfeito, mas seus maiores problemas acabam sendo relacionados ao fato do jogo, talvez sem querer, se focar em um público específico. Se você não é fã, ou nunca jogou, os RPGs da era 16 bits, nem faz idéia de quem sejam as tartarugas ninja ou Caverna do Dragão, é possível que o jogo te pareça divertido no começo, mas com o tempo vai acabar sendo repetitivo, simples demais e todas aquelas referências, que acabam sendo uma parte grande do todo, não vão significar nada pra você.

Falando como alguém que gostou do jogo, acredito que algumas coisas poderiam ser mudadas, como o fato de algumas profissões serem melhores que outras, ou o sistema de forja depender da sorte, ou a quantidade de possibilidades que poderiam existir se fosse possível combinar habilidades de mais de uma profissão. Entretanto, o ponto mais importante é ver o quão diferente e maior o jogo poderia ser se a idéia de simular um RPG de mesa fosse incorporada também para permitir que as decisões do jogador criassem aventuras diferentes, fugindo da idéia de um único roteiro. Inclusive é curioso mencionar isso porque a própria Behold Studios tem um jogo (gratuito inclusive) chamado The Story of Choices, que se baseia apenas em criar histórias diferentes, conforme você decide entre duas opções em diversas situações. Quem sabe eles não mudam essas coisas e ainda fazem algo assim numa próxima edição, ou quem sabe um outro jogo?

Se você é fã dos RPGs da era 16 bits e se, além disso, já perdeu umas boas horas na vida jogando dados com os amigos em mundos imaginários, saiba que Knights of Pen and Paper está disponível via Steam e outros meios para PC, Mac e Linux, para Android, via Google Play e iOS, pela AppStore e é altamente recomendado para você.

Links
Behold Studios
Site do Knights of Pen and Paper

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