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Existe uma explicação psico-filosófica-histórico-sei-lá que diz que os seres humanos costumam chamar de “deus” a sensação mais sublime e de maior valor que conseguem perceber ou viver. Por isso todos os povos tem algum tipo de religião e por isso normalmente essa religião reflete a cultura e costumes daquele povo. Na religião de um povo guerreiro, morrer em guerra é o caminho pra se chegar até deus. Na religião de um povo pobre, ser pobre é o caminho pra se chegar até deus. E assim por diante.

E é aí que entra Isak Gerson, o fundador da Igreja Missionária do Kopimismo, que prega o seguinte:

– Todo conhecimento deve ser de todos
– A busca por conhecimento é sagrada
– A circulação de conhecimento é sagrada
– O ato de copiar é sagrado

Esses são valores muito comuns para uma certa parcela de pessoas no mundo de hoje e acaba fazendo sentido algo assim existir, se considerarmos que aquela explicação psico-blablabla-etc está certa. Inclusive, quase não tem como condenar, afinal de contas, como já dizia o ET Bilu, a humanidade deve mesmo buscar conhecimento e como nos prova a História, a vida já é difícil, mas se você for imbecil ela costuma ser bem mais difícil.

A controvérsia começa quando o discurso deles incluí levar isso pra todas as áreas, incluindo as que tem direito autoral e patentes.

Eles deixam bem claro a importância da comunicação e como a internet deve ser usada, defendendo a cópia, o download e o upload de tudo para todos. Existem inclusive historias de ligação entre membros da religião com sites como o Pirate Bay.

Particularmente acredito que a informação, que o conhecimento, realmente são o segredo para que a humanidade possa evoluir e sobreviver a ela mesma e a sabe-se lá o que que vai vir no futuro. Ets, meteoros, nazistas de outra dimensão, super gripes, o que quer que aconteça, só vai ser possível superar com conhecimento.

Por outro lado, acho que esse tipo de valores não condiz com como pensa a maioria das pessoas no mundo hoje. Indo mais fundo, essa é uma questão que vai além do que a sua tia Maria acredita, lá na casa dela, essa é uma questão que envolve o sistema econômico mundial atual como um todo.

Sério, agora pega uma cadeira que eu vou longe

Como primeiro ponto (são dois), questões que envolvem direito autoral são sempre complicadas, já que tanto o entretenimento quanto as inovações tecnológicas, no tipo de sociedade que nós vivemos, estão ligadas a um sistema econômico e esse sistema econômico diz que uma idéia só é boa se ela puder retornar dinheiro.

A tecnologia não evolui, novos produtos não são imaginados, novos medicamentos não são desenvolvidos, novos filmes e jogos de videogames não são criados, se não houver a possibilidade de lucrar com isso.

Compartilhar tudo completamente inviabiliza o lucro. Se ninguém for pagar pelo filme, se ninguém for pagar pela música, pelos jogos e etc, numa sociedade baseada em dinheiro, como é que vai ser possível produzir tudo isso? Colocando inclusive a questão do lucro de lado, mesmo que não exista lucro, ainda assim existe um custo para produzir tudo isso.

E antes que você coloque sua roupa de guerrilheiro e saia por aí super revoltado, é importante notar que o método do dinheiro, da compra, da propriedade, é atualmente a maneira que melhor funciona e que atende as noções comportamentais da grande maioria das pessoas e isso não foi imposto por alguém que decidiu que seria assim. Tudo isso vem de uma evolução do consciente coletivo ao longo da História.

Dando um exemplo, não acho que o consciente coletivo de hoje em dia esteja muito interessado em ter a busca de conhecimento como algo sagrado. A maioria das pessoas estuda num período de suas vidas e depois nunca mais, e isso inclui desde aquele pessoal bonito que tem Doutorado e não sabe ligar um projetor até aquele velho que acha que sabe tudo porque ele já aprendeu tudo, um dia, 30 anos atrás.

Como segundo ponto, é preciso entender que do ponto de vista científico o direito autoral é muito importante.

Imagine se você fosse dono de uma empresa de sapatos e descobrisse depois de 10 anos de investimento e pesquisa que se você colocar uma palmilha verde com listras azuis no sapato, a pessoa que o usar terá… ahn… digamos, a capacidade de flutuar.

Sem direitos autorais nada garante que seus concorrentes não farão a mesma coisa e, se eles fizerem, todo o investimento que você teve durante 10 anos terá sido um custo que só você teve, já que seus concorrentes puderam se aproveitar do que você descobriu sem ter que se preocupar com esse custo. Aí, você, apesar de ter ajudado a humanidade com seu tênis que flutua, perdeu dinheiro e talvez até tenha que fechar as portas. A consequência é que num mundo assim, nenhuma empresa ia querer criar coisas novas com medo de acabar fechando.

Imaginando agora que existam direitos autorais, seu tênis flutuador é patenteado, de modo que ninguém poderá copiar sua idéia durante um determinado intervalo de tempo, digamos, uns 20 anos. Durante esses 20 anos, apenas você poderá vender tênis flutuantes cujo principio de funcionamento são palmilhas verdes com listras azuis. Dessa forma, a consequência é que num mundo assim as empresas tendem a querer criar coisas novas que dão lucro e indiretamente fazem a humanidade evoluir.

A grande questão se torna então entender que isso vale não só pro próximo tênis que vão inventar, mas também para o próximo remédio, para o próximo processo químico e até para o próximo código fonte.

Por isso, vir defendendo a liberação total e geral do conhecimento sem entender como as coisas funcionam pode ser um problema muito sério.

Pra concluir, acho bastante interessante notar como termos uma sociedade que funciona baseada em dinheiro acaba sendo o maior problema na hora de imaginarmos um mundo num ritmo de evolução mental e tecnológica mais acelerado. Num mundo baseado em dinheiro o direito autoral, o direito de ser dono de um conhecimento, não pode ser ignorado e essa impossibilidade ao mesmo tempo em que torna o sistema possível também o faz lento e muitas vezes injusto.

Mesmo assim, acho positiva a divulgação desse tipo de filosofia de conhecimento e compartilhamento de informação, mas acho muito importante entender que o mundo é uma coisa muito grande, cheia de pessoas, de detalhes e que mudanças para novos hábitos, mesmo que sejam os mais corretos, não acontecem magicamente.

Para termos uma sociedade que não precise de dinheiro, que tenha uma noção de responsabilidade para com o bem estar geral maior do que com o bem estar individual e etc, ainda é necessário que muitos valores fundamentais da cultura humana global evoluam.

Até lá, uma religião como essa pode ser curiosa e interessante, mas dificilmente conseguirá ser mais do que isso, especialmente se ela mesma não for capaz de entender que a mudança que ela prega é parte de um processo que não ocorre com uma simples decisão, como se fosse um botão de liga e desliga. Infelizmente.

 Links
O ET Bilu mandando buscar o conhecimento
O site oficial da Igreja Missionária do Kopimismo

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