Porque o Surface da Microsoft merece respeito?

Na semana passada, num evento fechado, seletos membros das mídias de tecnologia e uma galera contratada para reagir na hora certa, conferiram ao vivo a apresentação da Microsoft revelando um novo hardware. Misturando os conceitos do que hoje é um tablet e do que hoje é um PC, para criar algo novo, com um design muito bonito, e rodando Windows 8. Ele se chama Surface e vem para mostrar a direção pra onde a Microsoft quer levar o mundo dos computadores pessoais e dos tablets.

Pra você que não acompanhou as notícias e comentários, nos links lá em baixo tem vídeos, fotos, e toda informação detalhada que você pode querer, mas pra te poupar o trabalho, vamos a uma versão resumida de tudo isso.

Surface tablet/PC?
O novo tablet/PC será vendido em duas versões, uma que vai estar disponível no lançamento do Windows 8, que deve ocorrer no último quadrimestre desse ano e outra 3 meses depois, que vai levar o sufixo Pro no nome (nome completo: “Surface Pro”) e vai ter um hardware mais poderoso.

Os dois modelos contam com as características de um tablet normal (tela sensível ao toque, wi-fi, etc), com a adição de uma base que faz parte do próprio corpo do tablet, e que pode ser “aberta” ou “fechada” a qualquer momento servindo como apoio para deixá-lo em uma superfície, eliminando a necessidade de algum acessório pra poder fazer isso. Uma inovação bastante óbvia, é verdade, mas uma que nenhum tablet até agora tinha.

Ainda no campo de coisas óbvias e legais, e que ninguém tinha feito ainda, a capa protetora é também um teclado com touch pad. Foi inclusive bastante enfatizado na apresentação como esse teclado com touch pad é algo importante para definir o produto como um tablet que é também uma estação de trabalho completa, oferecendo inclusive uma opção da capa com um teclado com botões e não apenas baseada em tecnologia sensível ao toque.

No campo de coisas que outros tablets já possuem, mas que são interessantes de se ter no próprio hardware sem precisar de adaptadores, ainda mais pra esse tablet que quer substituir seu PC, o Surface tem uma porta USB (3.0 no caso do Surface Pro), uma saída HDMI e uma entrada para cartões SD.

A tela é equivalente a uma TV full HD no modelo Pro com 1920×1080 pixels, e uma TV HD no modelo normal com 1280×720 pixels. Ambas as telas têm 10,6 polegadas (aproximadamente 27 centímetros) e com covers e tudo mais incluso o conjunto pesa pouco menos que 1 kg.

Durante a apresentação foi mostrada a versão Pro do aparelho rodando o programa de edição de fotos Adobe Lightroom, usando a saída HDMI como um monitor externo. Foi mostrada também uma caneta que segundo a Microsoft é a experiência mais próxima de se escrever em papel disponível em um tablet hoje e que possivelmente virá junto com o aparelho.

O resultado final, é que o tablet/PC ligado, com o pézinho aberto, o teclado encaixado e todas as cores do menu iniciar do Windows 8 na tela, realmente chamam a atenção para um produto que parece ter sido desenvolvido com cuidado e talento.

Sim, sim, mas… é da Microsoft, não é?
Até hoje, o hardware mais próximo de um PC que a Microsoft produziu foram o xbox original e o xbox 360, mas vale dizer que a empresa possui uma linha de teclados, mouses e webcams que estão entre as melhores do mercado. No mundo dos PCs o acordo da Microsoft com seus parceiros, tais como a Dell, HP, Samsung, Acer e muitos outros, sempre foi o de colocar o software dentro da caixa, cabendo ao parceiro criar a caixa da forma que ele acreditasse ser a melhor, ou a que oferecesse a melhor experiência.

A Microsoft, usando palavras não diretas, disse que pensando um pouco nesse modelo, faz bastante sentido pensar que um dos problemas dele é que se as empresas que carregam seu software não estão fazendo um trabalho tão bom, essa falta de qualidade, de inovação ou sabe-se lá o que mais, tende a ser associada ao software e não ao hardware. Bom, até certo ponto faz sentido, se você já teve a experiência de comprar um computador Windows de diferentes fabricantes sabe que apesar dos problemas que o sistema operacional tem, o hardware de cada fabricante realmente influi na sua experiência final.

Com o Windows 8 a Microsoft quer (e na verdade precisa) renovar sua imagem, diante do crescimento expressivo dos computadores da Apple, além do mercado de tablets com o Android.

Por algum motivo, provavelmente desses bem misteriosos e que envolvem caras mega ricos com seus ternos elegantes em reuniões secretas, a Microsoft viu que se ela quisesse trazer uma experiência nova e que voltasse a associar inovação e qualidade aos seus produtos no mercado dos PCs, ela teria que fazer isso ela mesma, já que seus parceiros de hardware (e me desculpem esses parceiros pelo que vou dizer a seguir) com sua sensacional estratégia de mercado de “esse ano vamos imitar o que a Apple anunciou ano passado só que mais gordo, pesado e em 20 modelos lançados ao longo do ano”.

Criando um hardware próprio, e mostrando esse hardware como plataforma de lançamento do seu novo sistema operacional, a Microsoft busca deixar bem claro, o que o software realmente pode fazer e o que eles esperam dos seus parceiros, ou pelo menos um mínimo de qualidade que eles serão obrigados a atender para competir com a versão da “experiência Windows” oferecida pela Microsoft.

E isso, meus amigos, é bom pra você, é bom pra mim, é bom pra todo mundo.

Mimimis, blá blá blás e um monte de acho isso e aquilo
Como era de se imaginar, pela internet afora muitas pessoas falaram mal, um monte de fan boys revoltados dizendo um monte de desaforos, tanto para defender o produto, quanto para dizer que trata-se da maior porcaria já inventada desde a piteira pra fumar um maço inteiro de cigarro de uma vez.

Se você não viu ainda a apresentação (tem lá nos links), para felicidade geral de uma nação de trolls, um dos aparelhos travou durante a demonstração. No YouTube tem inúmeros vídeos juntando essa parte da apresentação, com aquela famosa apresentação do Windows 98 onde rolou aquele erro da tela azul da morte, inclusive. É engraçado pensar, no entanto, no sucesso que o Windows 98 fez depois, quando foi lançado, o que pra uma pessoa sensata só mostra que se o produto ainda vai ser lançado, erros e problemas numa versão não finalizada dele são perdoáveis.

Tendo isso isso, mesmo assim, devo confessar que me incomodou muito ver algo assim acontecer e dá um certo medo de estar sendo enganado por esse discurso de que a culpa é dos nossos fabricantes de hardware e que esse hardware bonito é muito mais uma conquista de engenharia, do que outra coisa.

No entanto, porém, todavia, contudo, minha opinião está lá no título do post, o Surface merece respeito, simplesmente porque como hardware e como design, ele de fato é um grande feito, que realmente faz coisas que seus concorrentes não fazem, que realmente abre margem para novas possibilidades e caminha na direção delas com uma ousadia que a Microsoft talvez não tenha tido desde quando eles fizeram o acordo do DOS com a IBM, sem nem ter o DOS.

O problema é que não se trata só de hardware, de fazer uma obra de engenharia, um computador precisa ser mais do que isso.

Eu digo isso porque tenho bastante receio com relação ao Windows 8 e de que forma aquele belo menu iniciar com as tiles vai mesmo facilitar o trabalho ou se vai ser só uma coisa bonita que vai atingir jovens, espantar pessoas com mais de 35 anos que não tem intimidade nem com o Windows 7 e que depois de um tempo não vai representar nada, e logo vai voltar a ser simplesmente o Windows de sempre, só que com um “menu diferente”.

Milhões de pessoas (e provavelmente alienígenas) escreveram pra dizer que, especialmente para software, ou para o software principal do computador que acaba sendo o sistema operacional, a base fundamental da concepção tem que ser a experiência do usuário, tem que ser em meios de tornar a vida dele melhor, como resolver problemas de forma nova e inteligente e etc.

Eu vejo como essa nova interface Metro vai deixar as coisas mais boitas, mas não vejo como vai tornar melhor a experiência de trabalhar com uma máquina Windows.

Existe um motivo pra todo usuário de Mac dizer que basta experimentar o Mac uma vez para nunca mais querer voltar e isso não é só uma questão gráfica. Usando o mercado de tablets como outro exemplo, o iPad vende como vende e é reconhecido como é, não apenas porque tem um design bonito, mas sim por toda a experiência de uso que vem junto do produto, como é usar os aplicativos, como é instalar, como é configurar e fazer as coisas que você precisa fazer no seu dia a dia, quanto tempo dura a bateria e tudo mais, se comparado a concorrência.

Essa experiência de uso é o que os computadores com Windows, especialmente durante os últimos anos, vem falhando em oferecer.

Colocando de uma forma simples, me impressiona (e me incomoda muito) ver que encontrar e fazer certas coisas no Windows XP é mais rápido, mais fácil, exige menos passos e funciona muito melhor, do que no Windows 7. Isso sem falar que se for feita uma comparação direta, feature por feature, entre o Mac OS Lion e o Windows 7, ou mesmo o Snow Leopard, nem parece que são sistemas operacionais da mesma época. Ah, e isso sem mencionar o mundo Linux, o que tornaria bastante discutível essa história da Microsoft do hardware e da experiência oferecida.

Como fã de tecnologia, como pessoa que pensa demais e que sabe que o mundo é cheio de problemas e que os computadores podem ajudar a resolver quase todos eles, quanto melhor for a ferramenta, quanto maiores forem as possibilidades, melhor pra todo mundo. É por isso que apesar dos receios e das ressalvas, eu sou otimista quanto ao futuro da Microsoft e por agora o Surface tem meu respeito (não que isso importe muito, eu sei), pelo que mostrou, pelo discurso e pela empresa por trás dele.

Esperemos então para saber o que não foi revelado, qual o preço do aparelho, detalhes mais específicos de hardware, quanto tempo dura sua bateria, se ele trava mesmo ou se na apresentação foi coisa do saci, quando exatamente será o lançamento e, mais do que tudo, tudo, tudo isso, esperemos pra saber se ele vai oferecer uma experiência de uso capaz de criar uma reação do tipo “depois de experimentar o Surface e o Windows 8, não tem mais volta”.

Veremos.

Links
Apresentação completa
Vídeo da tela travando e da apresentação do Windows 98
O site do Surface
Um vídeo de hands-on do surface

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