John Carter: Entre dois mundos

“John Carter: Entre dois mundos” é o primeiro filme dirigido por Andrew Stanton que não é uma animação. Você pode não lembrar do nome dele, mas ele é um dos grandes da Pixar, e entre roteiros e contribuições diversas ao longo da história do estúdio, foi o diretor de “Procurando Nemo” e “WALL-E”. Esse filme foi produzido pela Disney Pictures e o Sr. Stanton foi chamado justamente para trazer a ele, dentro do que fosse possível, um jeito Pixar de ser. Apenas isso, a menos que você não conheça nenhum filme da Pixar, pode ser o suficiente pra te fazer querer ver o filme, como pra mim foi.

Esse é um filme épico de fantasia, sua história é baseada na série de livros “Barsoon”, de Edgar Rice Burroughs, mais conhecido como o criador de “Tarzan”. Tudo começa em 1868, quando o cara cabeludo do pôster, um ex-soldado muito condecorado, é transportado para Marte. Lá ele descobre um mundo em decadência em meio a uma guerra que poderá causar o fim do próprio planeta. Como a gravidade em Marte é menor do que na Terra, em Marte ele acaba tendo uma espécie de super força, o que permitirá que ele seja, se quiser, uma peça importante nessa guerra. Ao longo do caminho ele vai fazer, amigos, inimigos, conhecer uma bela garota, bichos estranhos carismáticos e viver uma grande aventura.

Essa é uma fantasia clássica, publicada pela primeira vez em 1911, então, se algumas vezes as soluções soarem familiares, isso acontece porque essa foi uma das primeiras histórias a falar desses temas e a mostrar esse tipo de conflitos e personagens, ela é parte de muitas histórias que foram criadas depois, por isso a gente conhece e por isso pode soar familiar. No entanto o roteiro é bem executado o suficiente pra que você apesar de saber como a história vai acabar (é um filme da Disney afinal, sim?), se deixe levar pela história. Ainda sobre o roteiro é válido dizer que a proposta é ser uma aventura, questões políticas da guerra ou o desenvolvimento realista de um romance, não estão, e nesse caso talvez nem precisem mesmo estar, na “lista de prioridades” aqui. Se bem que no caso do romance eu bem que conheço umas pessoas que justificariam ele dizendo que “mulher é foda, não pode ver um estrangeiro, se ele for de outro planeta e tiver super poderes então, já era! hahaha”.

Da mesma forma que grande parte dos filmes da Pixar, o filme tenta ir além do óbvio, deixando subentendidas mensagens mais profundas, pontos mais complexos dos personagens e até detalhes do desenvolvimento do enredo e isso pode muito bem ser um motivo na hora de explicar porque esse filme acabou, pelo menos por enquanto, não atingindo o sucesso que ele merece. Quando mensagens ficam subentendidas e a total compreensão de uma história se baseia na pessoa que está assistindo, pode-se dizer com certeza que nem todo mundo vai embarcar na história da mesma forma, ou mesmo entendê-la.

Em outras palavras, é preciso ser pop pra ser popular e “John Carter” não é. Fazendo uma analogia com música, “John Carter” está mais para algo alternativo, como uma banda boa que você ouve e não entende porque não faz o mesmo sucesso que uma outra, que tem músicas bem mais simples.

Olhando a filmografia de Andrew Stanton, faz bastante sentido que o diretor de “WALL-E” e “Procurando Nemo”, produza algo assim, já que esses filmes também vão muito além do óbvio pra quem quiser perceber. “Procurando Nemo” é muito mais do que uma comédia onde um pai tem que resgatar um filho tendo como companheira alguém que não se lembra de nada e fala baleies, só aquela frase do “continue a nadar” já é o suficiente pra gerar muitas discussões. “WALL-E” então, é um exemplo ainda mais claro dessa forma “alternativa” e não pop de se contar uma história e é por isso que as pessoas que conseguem apreciar essa outra maneira de se contar uma história são tão apaixonadas por esses dois filmes.

Será então que ter chamado Andrew Stanton para dirigir o filme foi um erro, ao invés de outro diretor que entregasse algo mais mastigado, simples, curto e pop?

Eu penso que não.

Uma grande quantidade de filmes que eram idéias boas terminam como obras medíocres justamente por causa dessa busca por simplificar tudo ao máximo, por essa busca desesperada pelo pop, pelo óbvio, pelo facilmente engolível, identificável e confortável.

Esses filmes que tentam fazer algo além e que nem sempre são compreendidos no momento em que são feitos, mas que possuem uma inegável qualidade, são aqueles que vão ser lembrados e descobertos novamente por outras gerações, além de trazerem novas idéias ao cinema.

Acredito que encontrar a história certa pra alcançar um grande sucesso tem também muito a ver com o momento, com os questionamentos da época, com a cultura das pessoas naquele tempo. Será que “Matrix” seria um sucesso se fosse feito no final dos anos 70? Será que “A Origem” faria sucesso nos anos 80? Será que “O Vento Levou” faria sucesso se fosse lançado hoje?

Da mesma forma que filmes como “Speed Racer”, “Scott Pilgrim” e muitos outros, talvez hoje não seja o tempo de algo como “John Carter” atingir grandes multidões, mas mais por causa do que esperam as multidões do que por causa do próprio filme.

Andrew Stanton trás com “John Carter” um filme diferente, que não vai atingir a todo mundo da mesma forma, mas com qualidade e talento empregados de forma inegável e com a mesma assinatura de “Procurando Nemo” e “WALL-E”, mostrando também o que Brad Bird mostrou com o excelente Missão Impossível 4, os diretores da Pixar estão aí e eles podem sim realizar grandes filmes também fora do reino da animação.

Se você gosta de uma boa fantasia ou de uma boa aventura, não perca tempo, ligue pros seus amigos, seu sobrinho, seu papagaio e periquito e vá ver esse filme, a diversão é garantida, mesmo que você não veja tudo que está lá pra ver. Por outro lado, se esse tipo de história não costuma te agradar, esqueça “John Carter”, mas guarde esse nome, pois ele tem potencial para inspirar e fazer apaixonar por cinema o suficiente pra ser lembrado e redescoberto muitas vezes nos anos que virão. Ah, e se estiver pensando em não ver em 3D, como na maioria das vezes, você não vai perder muita coisa.

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