Super 8

Ficar mais velho permite que você faça um monte de coisas, entre elas lembrar de quando era criança e pensar sobre como muito daquela inocência passou, sobre como hoje você é mais maduro e consegue se importar muito menos com todas aquelas coisas que pareciam tão complicadas.

Ficar mais velho significa também ter um olhar mais realista das coisas, baseado em como suas expectativas e sonhos se transformam frente a realidade e as experiências que você vai ter.

Um monte de psicólogos pode vir e dizer que grande parte das verdades que vão guiar a sua vida vão vir diretamente dos seus pais, ou das pessoas que criaram você. Até certo ponto eu concordo, mas acho que as verdades mais importantes, aquelas que você não vai mesmo esquecer, são aquelas que virão do que você mesmo vai viver.

Super 8, do Sr. JJ Abrams, fala sobre isso, sobre ser criança, sobre ser inocente e sobre viver coisas que mudam aquilo que você acredita e é, “fazendo você ser alguém mais velho”. Ao mesmo tempo, é um filme de ação, que se passa no final dos anos 70, sobre um mistério, uma criatura, um acidente com um trem militar que faz uma cidadezinha no meio do nada ser inundada de soldados e veículos do exército enquanto eventos estranhos do tipo roubos de motores de carro, cachorros fugindo de casa como loucos, quedas de energia inexplicáveis, pessoas desaparecendo, ocorrem. No meio de tudo isso está um grupo de amigos entre 13 e 15 anos que resolveram fazer um filme usando uma câmera super 8.

E aí você pode querer dizer:

Mas, cara da internet, você disse o que o filme fala, não disse se o filme é bom.
Sim, é verdade.
O filme é espetacular?
Bom, depende da sua definição de espetacular.

O filme não tem a pretensão de ser um “mega filme catástrofe monstro”, mas apesar de se focar muito mais nos personagens, na relação entre eles, como eles se desenvolvem e se descobrem, o filme também não tem a pretensão de ser um drama existencialista. É feito pra fazer as pessoas lembrarem de como era ter aquela idade, ao mesmo tempo em que todo o caos acontece.

As cenas de ação podem não ser revolucionárias, mas são bem dirigidas. Inclusive, sem dizer muito pra não estragar sua surpresa, é interessante como dá pra reconhecer a mão que dirigiu a cena da queda do avião no primeiro episódio de Lost, na cena do acidente do trem, logo no começo do filme.

O roteiro é inteligente e, por não querer ser pesado demais, o aprofundamento está nos detalhes, ele não é jogado na sua cara com longos discursos e cenas edificantes de trilha sonora alternativa. Se for uma pessoa mais “detalhista” vai encontrar um monte de pequenas coisas, sobre como esse e aquele personagem tem isso em comum, a mãe de um, o pai do outro, o ambiente onde onde esse ou aquele personagem cresceu e como tudo isso dá mais força a motivação que cada personagem tem pra fazer o que faz.

Por outro lado, se você não quiser reparar nesses detalhes, a história faz sentido, te carrega e tem sempre coisas explodindo pra manter qualquer um acordado.

Outro mérito do filme é o elenco. Um filme que se apóia tanto no desenvolvimento dos personagens e nos seus conflitos precisa de atores carismáticos e de talento. O desafio é ainda maior já que os personagens principais têm entre 13 e 15 anos. Tanto os atores mais novos, quanto os adultos fazem bem seu papel.

Os atores mais novos e seus personagens são interessantes o bastante pra que antes das coisas começarem a explodir, aparecer um bicho maluco e tudo mais, apenas o conflito deles com a vida, com os pais e entre si, somado a história deles tentando fazer um filme, já tinha prendido minha atenção, dava até pra esquecer que o filme era mais do que isso. Mas é claro que coisas explodindo, bichos estranhos e mistério sempre dão um adicional legal a qualquer história de desenvolvimento de pessoas, sim? Inclusive, parando pra pensar no que acabai de dizer, de certa forma esse é um resumo de Lost, não? hehehe

Se ouve dizer muito hoje em dia que a industria do cinema não tem novas idéias e vive de reviver fórmulas, remakes e sequências. Super 8, apesar de ser uma idéia original, foi criticado porque de certo modo cai também nesses moldes, sendo chamado de coisas do tipo “revival de filmes do Spielberg”, sendo ele inclusive um dos produtores. Se você viu filmes dos anos 80 o suficiente, do tipo Conte Comigo, ou mesmo o ET do Spielberg, ou até aquelas coisas menos sérias onde “uma galerinha do barulho se metia em altas confusões”, você vai de fato reconhecer muito dessa vibe em Super 8. Ao mesmo tempo, não consigo ver o filme como uma execução de uma fórmula, me parece mais o Sr. JJ Abrams lembrando da própria infância, já que ele em 79, que é quando se passa o filme, tinha a mesma idade que os personagens da história tem. Ele, inclusive, em várias entrevistas já contou sobre quando tinha essa idade e como com os amigos usando uma câmera super 8 fez um monte de filmes que acabaram sendo o primeiro contato dele com o mundo de se fazer filmes. Podemos então dizer que pode ser só uma feliz/infeliz coincidência.

Para alguns Super 8 vai ser uma mensagem que irá além do mistério, das coisas explodindo, das crianças correndo e salvando o dia. No entanto, é fato que pra atingir mais pessoas o filme acaba sendo menos forte do que poderia ser, considerando a história imaginada e os personagens criados. Super 8 não vai ser o melhor filme da sua vida, mas na pior das hipóteses, coisas vão explodir, mistérios vão ser revelados e se você não se divertir nem um pouquinho, provavelmente, ou você não teve infância, ou você é muito chato.

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