Projeto Webcoisas Tour – ep. 4: Um idiota, uma permissão internacional para dirigir e a cidade de Marburg

Se você não faz a menor idéia do que é isso, não se preocupe que dá pra acompanhar sem problemas sem ter lido os outros episódios. Mas se você quiser ler os anteriores, é só clicar:

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Agosto de 2010,

Eu não sei porque as pessoas viajam. Quer dizer, nem todas as pessoas viajam e muitas delas inclusive são bastante satisfeitas em conhecerem só o próprio cantinho. Pra alguns, esse “cantinho” pode ser a cidade ou o estado onde nasceram, pra outros, pode ser só a própria casa, talvez o próprio quarto, quem sabe até só o próprio umbigo. Mas, voltando ao que estava falando antes de me perder com essa história de “cantinho”, eu não sei porque as pessoas viajam.

Não sei se é vontade de ir embora, de descobrir mil e uma coisas, de encontrar respostas, de sair da rotina, de ver de verdade coisas das quais só se ouviu falar, de buscar um lugar onde os costumes e as coisas sejam outros, ou se é só de sacanagem mesmo. Seja lá como for, já escrevi aqui antes que sempre quis viajar e ver a maior quantidade de lugares e coisas possíveis, porque pra mim isso é uma forma de ver coisas novas e de encontrar respostas novas. Então, quando me vi morando bem no centro da Alemanha, no meio da Europa, coloquei uma mão no bolso do meu colete, com a outra ajeitei meu cachimbo, com um movimento de pestana ajeitei meu monóculo e disse “ora, ora”.

Olhando no Google Maps, eu via a distância até Berlim, até Amsterdã, até Paris, Nuremberg, Praga, Zurique, Bruxelas e muitas outras cidades. Era meio surreal ver que elas estavam poucas horas de carro de onde eu estava. Dava pra ir, passar o dia e voltar. Das cidades que eu planejava ver, a mais longe era Paris, mais ou menos umas 7 horas.

E eu ainda não disse, mas nós tínhamos um carro alugado que durante a semana servia pra ir até a empresa, mas aos fins de semana podíamos usar pra ir onde quiséssemos, desde que a gasolina fosse paga e que segunda-feira de manhã estivéssemos prontos pra cumprir nossas obrigações.

De segunda a sexta eu estaria comprometido com todas as coisas a serem feitas na empresa, mas a cada fim de semana decidi comigo mesmo que devia sempre, a menos que não tivesse jeito mesmo, conhecer uma cidade ou um lugar novo.

Mas calma lá, falando desse jeito pode parecer que era fácil e que não tinha que se preocupar com detalhes financeiros, a previsão do tempo, o cansaço da semana, as estações do ano, as merdas que a gente pensa quando está do outro lado mundo, tentativas de assalto em postos de gasolina no meio da estrada, abduções alienígenas e sabe-se lá mais o que que aconteceu e que vou contar nos episódios futuros.

Ah, e mais uma coisa, uma que nos leva a primeira de duas histórias que vão nos desviar do tema principal: eu tirei minha carteira de motorista apenas 2 meses antes de viajar, ou seja, sim, nós tínhamos um carro, mas no RPG da vida eu era um motorista Level 1, querendo dirigir por aí em estradas internacionais sem limite de velocidade, com chuva, neve e o que mais aparecesse. Parece divertido, não?

Permissão internacional para dirigir e um idiota de 18 anos

No país conhecido como “Brasil”, ou simplesmente “aqui”, se é nele que você mora, ao completar 18 anos os indivíduos da espécie humana (ah….. coitado dos outros animais……) podem se submeter aos procedimentos para obter um documento que comprova capacidade de dirigir, a chamada carteira de habilitação.

Das pessoas que eu conheço, fui uma exceção por não ter tirado a carteira logo que completei essa idade. Quer dizer, na verdade, eu fui uma “meia exceção”. Explicando em termos breves, singelos e, porque não dizer, abruptamente impactantes, no auge dos meus 18 anos iniciei o processo, fiz todas as aulas e cheguei a ser aprovado na 1ª prova, a teórica. Na prova prática, no entanto, me fodi, não sei se porque eu era um motorista de merda, ou se porque fui mais uma vítima daquela história de existir sempre uma grande possibilidade de você ser reprovado, para ter que remarcar a prova, pagando taxas e etc, tornando o sistema como um todo mais lucrativo pras auto-escolas e mais chato pra você que não tem opção.

Como todo o processo foi bancado por mim e eu era só um “professor” particular de matemática e física (leia-se, “pessoa sem emprego dando uns jeito aí”) fiz a prova e depois que não passei, pagar tudo que tinha que pagar pra remarcar a prova era algo um tanto complexo.

Mas é claro que não era só isso.

Algumas pessoas nascem avessas a solução de problemas burocráticos e rituais sociais que pra outras pessoas são claros e simples. A situação toda me incomodava, não apenas porque era outra “falha na minha vida” já que eu não tinha também passado no vestibular numa faculdade pública, mas a carteira de motorista naquele momento não iria exatamente servir pra alguma coisa e eu só estava lá porque era mais um dos “rituais de passagem de ser um adulto”, porque meus amigos todos estavam fazendo, porque era o que esperavam de mim.

Não estava fazendo aquilo porque eu queria mesmo. E aí, naquelas de “depois eu vejo”, acabei deixando pra depois. E o depois, convenientemente, foi ficando pra mais depois a medida que arranjei uma namorada, que consegui entrar na faculdade, que arranjei um emprego e etc. E foi indo e indo.

Anos passaram e um dia, lá pelo final de 2009, colocando de um jeito bem breve pra não me alongar muito, diante de uma porção de merdas e situações que aconteceram na minha vida (não ri não que seu dia também vai chegar) me vi obrigado a evoluir, deixar de ser tão idiota e resolver um monte de coisas que tinham ficado pra trás. Eu tinha agora 23 anos e não vivia mais o momento do “ritual de passagem de se tornar adulto”, era hora de se aceitar como um adulto e todas as responsabilidades e definições que vinham no pacote. É algo difícil de explicar, mas aposto que você mesmo conhece umas pessoas de 30 anos ou mais que ainda não entenderam isso.

A carteira de motorista era apenas uma dessas coisas todas e de certa forma uma bastante simbólica. Inclusive, só aproveitando a oportunidade, esse site ter voltado ao ar, foi outra dessas coisas que tinham sido deixadas para trás e foram revistas, mas isso, todas as coisas que aconteceram e bla bla bla são outra história, fica pra outro dia. hehehe.

O processo todo pra tirar a carteira levou uns 7 meses, incluindo fazer um óculos novo, um RG novo e ir em um monte de prédios de órgãos do governo que eu nem sabia que existiam para cancelar todas as etapas do processo iniciado quando era aquele idiota de 18 anos. Deu trabalho, mas não há fila que um mp3 com uns podcasts não resolva. E pra você que ficou assustado com o tempo todo que levou, é que eu trabalho longe de onde eu moro, aí só dava pra fazer as aulas e tudo mais aos sábado, se não, teria levado 1 mês, no máximo 2.

Com a carteira em mãos, como já sabia das possibilidades de termos um carro na terra Alemanha, cuidei dos procedimentos pra tirar a permissão internacional.

Foi simples. Precisou de duas fotos 3×4, cópias autenticadas do RG e da carteira de motorista e um comprovante de residência recente. Com tudo em mãos, tem que checar com o DETRAN da sua região (use o Google) o local mais próximo onde é possível tirar essa permissão. Por fim tem que pagar uma taxa cujo valor varia conforme a sua cidade. A minha eu lembro de ter sido algo em torno de 200 reais e uma semana depois retirei a carteira. Dá uma olhada nela aí em baixo.

E assim terminamos a volta, que nos leva de volta a agosto de 2010, de volta a Alemanha, de volta ao primeiro fim de semana.

A cidade de Marburg

Eu sei que lá em cima você me viu falar sobre Paris, Amsterdam, Praga e aí eu venho com essa tal de… Marburg? Ah não! Eu não acredito! Falso profeta, queime no inferno!!!

Não. Calma.

Pra tudo existe uma explicação, ou uma mentira plausível, sim? Pra explicar porque Marburg tenho então que contar a segunda e última história que foge do tema, mas não se preocupa que essa é bem curta.

Na empresa lá na Alemanha, comigo e com meu colega do Brasil, havia um chinês que estava lá pra fazer a mesma coisa que a gente. Acabamos nos tornando amigos e inclusive ele vai aparecer mais nos próximos episódios. Foi ele que sugeriu que fossemos até Marburg, que ficava cerca de 1 hora de onde era nossa casa. Ele já tinha ido até lá e fez mó propaganda, dizendo que o lugar era legal e pesquisando nas internetes vi que a cidade era interessante mesmo, por motivos que mais abaixo serão revelados.

Como era o primeiro fim de semana e quem ia dirigir era meu colega, que apesar de não ser motorista Level 1 no RPG da vida, não gostava muito da idéia de dirigir grandes distâncias. Entramos num consenso de que tudo era bom o bastante para um primeiro fim de semana.

E realmente foi.

Marburg é uma cidade de universidade e é também uma cidade turística com igrejas e um castelo com arquiteturas medievais e góticas, construídas subindo a encosta da montanha. Como muitas cidades na Alemanha, as ruas da cidade velha foram preservadas e essas áreas são centros comerciais com lojas, cafeterias, brechós e outros, onde circulam apenas pedestres. Eu não sabia naquele dia, mas eu ainda ia ver muitas ruazinhas e centros turísticos como esse, muitos mesmo.

Na maioria das cidades, esses centros históricos foram destruídos em bombardeios durante a Segunda Guerra Mundial, mas em Marburg foi diferente. Como se tratava de uma cidade universidade, ela toda foi transformada num imenso hospital e apesar de ser uma guerra, uma época de gente maluca fazendo merda, não é costume jogar bombas em hospitais. Sendo assim, a cidade velha não foi reconstruída, como foi feito na maioria das cidades, ela foi só restaurada.

Talvez por isso dê pra ver o planejamento original de como a cidade foi construída, ou seja, sem uma planejamento ou padrão mesmo que as cidades mais modernas tem. As ruas de pedra são íngremes e algumas são mais largas do que outras, com entradinhas, becos e lugares com cara de passagem secreta, tudo sendo feito simplesmente seguindo o relevo da montanha ou algum interesse especial. Pra você ter uma idéia de como é diferente, o site da cidade diz (e eu acredito) que essas ruazinhas tem mais degraus que todas as casas de Marburg juntas. A cidade é um cenário bastante interessante pra histórias de mistério, fábulas, ou só pra se perder mesmo, se você for meio besta e for entrando nas ruas sem pensar.

E falando das ruas, é bem provável que você já tenha ouvido falar dos irmãos Grimm, aqueles dois irmãos alemães malucos que ficaram famosos como escritores que viajaram reunindo em um livro histórias, fábulas, mitos e lendas que as pessoas de cada região do que hoje é a Alemanha e arredores contavam. Antes, essas histórias eram passadas oralmente de geração em geração, de modo que não se sabe se algo parecido aconteceu e, se aconteceu, quando foi. O trabalho dos irmãos Grimm foi muito importante por levar todas essas histórias não só para os povos da região, mas pra você aí que tá lendo que certamente já ouviu falar de Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve, Cinderela, Rapunzel e muitas outras.

Antes de saírem juntando as histórias os irmãos estudaram em Marburg durante muitos anos e dizem que ao escreverem as histórias e ao fazerem as ilustrações, muitos locais tiveram inspiração em locais reais da cidade, que ficaram na memória deles depois que foram embora. Tem até uma escadaria que tem um texto deles, falando da cidade. Dá uma olhada:

“O local onde fica Marburg e seus arredores é certamente muito bonito. Especialmente quando você está de pé perto do castelo e olha de lá, mas a cidade em si é muito feia. Acho que há mais escadas nas ruas do que nas casas. Tem uma casa que a escada vai até o telhado.”

Marburg é realmente uma cidade muito bonita, onde é possível passar um dia tranquilo, andando, vendo coisas, tirando fotos, tomando um sorvete. Uma dica importante é que se você for de carro, é bom procurar o estacionamento subterrâneo, daqueles que contam o tempo e você paga por quanto ficar. Se você deixar na rua, tem que usar aqueles tickets de tempo e só é possível ficar até 2 horas em uma vaga, ou seja, a cada 2 horas você vai ter que parar seu passeio, correr lá mudar de lugar seu carro se não quiser levar uma multa. Nós inclusive cometemos esse erro, mas deixa pra lá, era a primeira viagem, passa vai hehehe.

Conversado com as pessoas da empresa e com o pessoal dono da casa onde estávamos, ouvi várias histórias de pessoas que se apaixonaram, casaram, etc, e pra quem “aquele dia em que andaram por Marburg, tomaram um sorvete e viram juntos o por do sol, lá do alto” foi importante pra que ficassem juntos. Talvez seja por isso que várias pessoas escolhem casar em Marburg, nesse dia, inclusive, vimos 4 casamentos.

Em outras palavras, se der, dê preferência por fazer esse passeio com aquela pessoa especial e não com, um amigo chinês e um colega de trabalho, por mais bons amigos que vocês sejam, tá? hahahahaha

 

Naquele sábado, cheguei em casa bem cansado, mas com o primeiro passo da minha jornada pessoal de uma viagem por fim de semana concluído.

Era interessante ver que o mundo era um lugar que tinha uma cidade que poderia ser um cenário para um conto de fadas, que um dia foi transformada em um hospital gigantesco, com feridos da maior guerra que se conhece, e aí, anos depois, o mesmo lugar ser um local onde as pessoas podiam ir pra se distrair, passear e talvez até se apaixonar.

— Fim do episódio 4

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