Projeto Webcoisas Tour – ep. 3: Coisas, Água e Internet

Se você perdeu os 2 primeiros episódios, não se preocupe, dá pra acompanhar esse sem problemas, mas se existir em você a vontade de ver os anteriores, é só clicar: Episódio 1, Episódio 2.

Agosto de 2010, uma casa, Wetzlar, Alemanha

É engraçado como quando a gente passa por certos lugares, ou é apresentado a eles a primeira vez, não faz idéia de quantas vezes vai ver aquilo de novo, de como aquilo vai fazer parte da nossa vida e as histórias que vamos eventualmente viver tendo aqueles lugares como cenário. E é mais engraçado como a gente não precisa ser muito esperto pra saber disso, mas mesmo assim, sempre que conhece um lugar novo acaba esquecendo disso.

A primeira vez que vi uma foto da casa onde eu fiquei, achei bem menor e bem menos legal do que ela de fato era. Sei lá, talvez, da mesma forma que pessoas, casas sejam mais ou menos fotogênicas. Vai saber.

Colocando em valores, pra você que pretende um dia habitar a Alemanha, o aluguel era de 520 euros por mês, pra 2 pessoas, e esse valor já incluía água, luz e aquecimento. Quem alugou a casa foi o pessoal da empresa lá da Alemanha, mas existem uma porção de sites de aluguel de casas e apartamentos, como, por exemplo, esse, onde dá pra ver fotos e fazer a negociação inteira. Inclusive dependendo de quanto tempo você for ficar e pra onde você for viajar, pode compensar mais alugar uma casa ou apartamento do que ficar em um hotel.

A casa tinha, sala, 2 quartos, cozinha, banheiro, lavanderia, móveis, eletrodomésticos e esse valor ainda incluía trocar toalhas e roupa de cama a cada 2 semanas. A única coisa que não tinha, era *atenção para algo bem terrível* uma certa coisa conhecida como “a internet”.

Dramas idiotas a parte, quando chegamos na casa, os donos dela estavam lá para nos recepcionar, era um casal, uma francesa e um alemão. Eles nos esperavam com caras de curiosidade e ora, ora, vejam só, caipirinhas. É, pois é, mas antes que você pense que a mensagem foi “bem vindo a Alemanha, fique bêbado porque aqui todos somos alcoólatras”, ela foi muito mais, “nos interessamos por seu país, pelos seus costumes e queremos ser amistosos”. E eles foram mesmo, mais de uma vez ao longo de todo o tempo em que eu estive lá, como vou falar mais deles num episódio futuro.

Existe uma lenda antiga que, de forma bem simples, diz que “dormir no avião é uma merda”. A ciência nos mostra que algumas lendas são bastante verdadeiras, especialmente as que incluem classe econômica em suas profecias. Sendo assim, por mais que você, como eu, esteja acostumado a dormir em cadeiras de ônibus por aí, quando mais longa for a viagem, mais você vai precisar dormir depois, nem que seja por umas 2 horas. Depois que os donos da casa foram embora, prometendo voltar lá pelas 4 da tarde pra nos pegar pra fazer compras de comidas e mantimentos, tivemos que dormir.

Próximo da casa tinha um shopping, que para os padrões do Brasil, especialmente se você mora em São Paulo, não é dos maiores, mas como acabei descobrindo depois, era o maior de Hessen, o estado em que estávamos.

A primeira impressão que eu tive era que ele estava fechado, porque estava vazio e silencioso. É, essas são duas coisas difíceis de se acostumar, ainda mais quando a gente vem de uma das maiores e mais populosas cidades do mundo, que é São Paulo.

Nossa missão no tal shopping tinha os seguintes objetivos *música do 007 pra tocar*:
a) Comprar coisas para encher a geladeira e a dispensa
b) Comprar adaptadores de tomada, já que o plug alemão não aceita todos os tipos de tomada do Brasil.
c) Comprar uma fonte pra carregar o Nintendo DS, porque a rede na Alemanha é 220V – 50Hz, diferente da do Brasil, que em São Paulo, é 110V – 60Hz. A maioria dos aparelhos hoje em dia é bivolt, tipo fonte de notebook, carregador de celular e etc, mas a fonte do DS não era (tsc, tsc, que feio Nintendo, que feio).

Dentro do shopping tinha um mercado e fazer compras lá não era tão diferente, já que apesar do Brasil ser o Brasil e a Alemanha ser a Alemanha, é tudo um grande mundo globalizado capitalista com as mesmas marcas, os mesmos produtos e algumas pequenas diferenças de variedades e preços. Por exemplo, tinha, sem brincadeira, uns 30 tipos de salsicha.

Sobre “a internet, o casal nos alugando a casa disse que tinham um amigo que sabia sobre “a internet” e que voltariam com ele na segunda-feira, porque eles mesmos não sabiam muito sobre como obter “a internet”. Eles nos deixaram ir até a casa deles (que tinha “a internet”) pra avisarmos pras pessoas da terra Brasil que estávamos vivos, que a viagem tinha sido ok, que o mundo era um lugar com vários tipos de salsicha e que estávamos incomunicáveis por uns dias, até termos na casa “a internet”.

No Brasil, onde eu moro hoje, dependendo da época do ano, a hora em que anoitece e amanhece varia, mas a diferença é pequena, talvez no máximo 2 horas. Na Alemanha não. Nesse dia, pela primeira vez, vi anoitecer só depois das dez da noite e foi muito estranho. Pra minha cabeça, aquela iluminação queria dizer que era 5 e pouco da tarde e não 9 e pouco da noite.

E vamos fazer uma pequena pausa agora, porque é hora de uma…

                                                                                                                                                              .

– Históriazinha de Viagenzinha! –
– no dia de hoje: Água
Na terra chamada Alemanha, as pessoas em geral bebem água com gás e nunca tinha ouvido falar disso. Vamos, então, fazer uma pequena brincadeira babaca e sem graça, tá?
Considerando que estivesse comprando água e que não falasse alemão, qual dessas garrafas de água tem gás (clicando dá pra ver maior)?

Nenhuma (a    
As três (b    
A do meio e a da direita (c    
A da esquerda (d    
Não sou sua mamãe, se vira, porra (e    
Moralzinha da Históriazinha: Na Alemanha as pessoas em geral bebem água com gás. Ao comprar água, observe se no rótulo está escrito “kohlensäure”, ou se a água apresenta bolinhas suspeitas. E não fique triste, eles vendem também água sem gás, mas é menos comum e conforme a marca ela tem um gosto diferente. Testando várias escolhi e recomendo uma chamada Volvic.
Ah e a resposta certá é…. B!
 – Fim da Históriazinha –
                                                                                                                     .

Continuando.

Quando finalmente conversamos com o amigo dos donos da casa que entendia sobre “a internet”, ele disse que a solução mais simples era um daqueles modems 3G USB (lá eles chamam de “internet stick”) e contratar um plano pré-pagos. Ele usava um que era algo como 1,99 euros e dava direito a 300Mb de fluxo de dados, depois disso, tinha que pagar de novo. Eis a cara que eu fiz quando ouvi isso:

: \

300Mb era muito pouco, então, o Sr Amigo dos Donos da Casa o mito de um plano de 20 euros que dava internet ilimitada por 1 mês. Ele nunca tinha se metido a conhecer porque achava um exagero, provavelmente porque ele não gostava de visitar o Youtube, ouvir música online e não tine uns sites pra atualizar.

Os internet sticks custavam 20 euros e o chip SIM deles vinha de graça. Compramos também mais 2 chips SIM, um que foi pro meu celular devidamente desbloqueado trazido do Brasil e outro que foi pro celular do meu colega. O celular dele do Brasil não dava pra desbloquear e aí ele acabou tendo que comprar um aparelho lá, mas foi barato, também 20 euros. Ah, e só como curiosidade o nome usado para celular na Alemanha é “Handy”, talvez vindo de “Handy phone” (telefone de mão), sei lá.

No Brasil, quando você compra um celular, você já sai da loja ligando pra sua mãe e falando pra ela que você é lindo, que tem celular e como inserido nos contextos das comunicação do novo século você se tornou. Na Alemanha, tinha que esperar um tempo de processamento do pedido do cadastro do chip e podia levar 1, 2, ou até 3 dias. Se em 3 não ativasse, era pra avisarmos pros donos da casa que eles iam tentar ajudar.

Passaram-se os 3 dias, os celulares funcionaram, mas os internet sticks não.

: (

Tentei falar com o pessoal da casa, mas eles não sabiam como ajudar e o amigo deles só estaria de volta no fim de semana, aí, tirei essa foto de mim mesmo (ok, na verdade não):

Usando meu cabeção, eu sabia que pra um modem desses funcionar só precisava de um chip SIM habilitado e com crédito, e o chip do celular se encaixava nesses requisitos. Então, peguei o chip do celular, coloquei no modem e *tcharam*, “a internet”!

Agora eu podia navegar, sim, legal, mas pra isso os créditos que estavam no SIM eram comidos. No site da empresa alemã da qual nós compramos os SIM e todo o resto (o nome era Tchibo), usando o Google Translator, consegui descobrir que os chips dos internet sticks não tinham sido registrados por algum motivo, mas era possível registrar eles online. Fiz isso e, já que o registro tinha sido feito via internet, algo em torno de 6 horas depois os dois chips já estavam funcionando. Sim, sem essa de 3 dias de espera.

Só restava agora um problema, o tal plano ilimitado. Nós agora podíamos conectar usando os SIM dos internet sticks, mas eles estavam apenas consumindo o crédito que tinha sido colocado neles.

Indo mais uma vez no site da Tchibo com o Google Translator, descobri que pra ativar os planos era preciso que o chip tivesse a quantidade de crédito necessária pra comprar o plano desejado (20 euros no nosso caso) e aí era só enviar uma SMS com uma mensagem específica pra um número específico.

Na primeira vez que você pluga o internet stick no computador ele instala um software pra gerenciar seus créditos, conectar e ainda enviar SMS. Usando esse programa eu consegui mandar a SMS e aí finalmente o plano da internet ilimitada estava lá.

Resumindo, caso você queria obter internet na Alemanha:
 – Compre o chip e, se possível, faça o registro via web, aí não precisa esperar aqueles 3 dias.
 – Com o chip ativado, coloque crédito necessário pra comprar o plano que te interessa
 – Mande a SMS e aguarde a SMS de resposta dizendo que o plano foi contratado.
 – Pronto, você tem 30 dias de internet ilimitada… Mas cuidado, porque tem uma pequena armadilha.

Eu explico, estava lá eu navegando, atualizando os sites acreditando que eu era uma pessoa especial, mas então, de repente, a velocidade da conexão se tornou muito, muito, muito lenta. Foi como voltar para aqueles tempos onde para conectar na internet tinha que ouvir um som parecido com dois gatos robóticos lutando (algo assim).

Eu liguei para a hotline da Tchibo algumas vezes até conseguir um atendente que falasse inglês. Ele me explicou que a internet era mesmo ilimitada, mas a velocidade total só era liberada até que 5Gb de fluxo de dados fossem completados, aí eles reduziam mesmo. Ele falou também que era podia ativar pra mim outros 5Gb com velocidade normal se eu decidisse pagar mais 20 euros (usando crédito contido no cartão SIM). Se eu aceitasse eu tinha que esperar algo entre 20 minutos e 6 horas pro meu pedido ser processado e funcionar.

Eu fiz isso muitas vezes no tempo em que estive lá. De verdade, muitas vezes.

Me lembro que foi numa sexta-feira, no final da primeira semana, com a geladeira e a dispensa cheias e eu já me acostumando a ver o pôr do Sol as nove da noite, que “a internet” finalmente estava lá ilimitada, e, sem que eu notasse naquele momento, aquele lugar estranho, pouco a pouco, ia se tornando minha casa.

Fim do Episódio 3

a vista da janela do que era meu quarto, depois de uma chuva

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