A Formiga e o Fone de Ouvido

Ele saiu de manhã com tanta pressa que acabou esquecendo o fone de ouvido. Tanta coisa pra esquecer, uma das meias, o desodorante, colocar por engano uma camiseta suja de pasta dente, a carteira, qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, menos o fone de ouvido.

Chegou no ponto de ônibus meio correndo, não tinha tempo de voltar pra pegar o fone. Enquanto esperava, depois de ajeitar a costura da camiseta que pareceu lhe espetar, ficou lá se culpando e reclamando como se fosse uma criancinha ridícula de barba, fazendo caras, vozes, batendo o pé, falando consigo mesmo, achando que só ele estava ouvindo. Estava tão focado em ficar falando pra si mesmo como era idiota, que acabou não percebendo que tinha algo mais acontecendo.

O ônibus chegou e, por algum motivo, naquele dia tinha uma cadeira pra ele se sentar. Sua expressão mudou, porque ele ficou imaginando que esse era o jeito de um ser superior compensar o fato de ele ser não apenas um simples imbecil que esquece fones e faz cenas ridículas em público, mas sim um imbecil que esquece fones e faz cenas ridículas em público, mas que tem uma alma boa e que merecia portanto um “agradinho” já que seu ato de esquecimento idiota iria fazer ele ter um dia mais difícil do que o normal.

Ele sentou. Sentiu-se quase especial. Fechou os olhos e tudo ficou escuro, como se a luz do ônibus nem estivesse acesa. Estava cansado daquele jeito em que o corpo passa a ter grande interesse e poder de concentração na tarefa de dormir, mesmo que seja numa caixa de metal com rodas, lotada e balançando pela cidade.

Antes que alguém julgasse possível, ele não apenas dormia, ele já sonhava.

Sonhava que estava de volta em seu quarto bagunçado. Ficou algum tempo olhando o todo, como se não soubesse que aquele era mesmo o seu quarto, até que se deu conta de que era e já que estava lá de volta, poderia pegar o fone de ouvido que tinha esquecido.

Mas, assim que teve essa idéia, tudo pareceu ficar maior enquanto ele parecia afundar no chão. Foi afundando, afundando e tudo foi crescendo e crescendo até que parou e ele se deu conta que estava do tamanho de uma formiga. Pegar seu fone agora seria bastante complicado. Talvez até impossível.

Mesmo assim, ele estava decidido.

O fone de ouvido estava em cima da mesa, em frente à cama, perto da roupa que ele ia usar naquele dia. A roupa ficava sempre arrumada no dia anterior. Um truque muito útil que dava uns minutos a mais de sono e que ajudava a convencer a si mesmo que era organizado de alguma forma, por mais que todo o resto do seu quarto, da sua casa e da sua vida, dissessem outra coisa.

E agora, lá estava ele do tamanho de uma formiga e, assim que pensou nisso, virou mesmo uma formiga, com antenas e tudo.

Pra pegar o fone seria preciso andar até a mesa, subir e passar pelas roupas. Começou sua caminhada e achou estranho como seu quarto, do ponto de vista de uma formiga, era grande como ele jamais tinha imaginado. Deu passos, passos e mais passos e chegou, já um pouco cansado, no pé da mesa. Parou sem ter certeza se conseguiria escalar por ele, afinal de contas, ele nunca tinha sido uma formiga antes e, às vezes, é bem complicado fazer direito, logo na primeira vez, algo que nunca fizemos.

Mesmo com medo, ele estava decido.

Colocou as patas no pé da mesa e foi tudo mais simples do que parecia, como quase sempre é, quando surgem essas situações. Seu corpo simplesmente sabia o que fazer e ele parecia ter a força certa pra fazer aquilo do jeito certo. Ele pensou que as formigas deveriam achar uma tarefa bastante complicada escovar os dentes, amarrar os sapatos, ou qualquer uma dessas coisas que humanos fazem, do mesmo jeito que ele, quando pensou como humano, achou que seria tão complicado escalar como formiga. Ao entender que ele era uma formiga e que devia pensar como o que ele era, subiu rápido e fácil, quase como se estivesse escovando os dentes ou amarrando os sapatos.

Foi aí que o alarme do celular tocou.

Ele se virou na direção da cama e viu a si mesmo em forma humana se movendo desengonçado, desligando o alarme do celular e se levantando, surgindo grande, como uma montanha, um edifício enorme, se construindo do chão ao topo, em segundos.

Observou a si mesmo tirando o pijama e teve medo quando viu que seu outro eu vinha na direção das roupas, exatamente onde seu eu formiga estava. Temia pela sua vida e pelo seu corpo frágil de formiga. Correu o máximo possível pra uma formiga e conseguiu se enfiar em baixo da calça dobrada.

Tudo estava tão escuro que ele não podia definir mais nada. Ficou assim uns segundos e chegou a achar que estava livre, mas então seu outro eu pegou a calça, expondo sua versão formiga outra vez à luz. Sua versão humana vestia a calça e tinha uma expressão agitada que misturava preocupação, como se estivesse atrasado, mas com algo a mais, algo como aquele meio segundo que antecede o choro de uma criança bem nova. Era como se não quisesse estar ali.

Pensou em gritar pra ele mesmo pra que não esquecesse de pegar os fones, mas não dava. Ele era só uma formiga. Por mais que movesse suas anteninhas com grande energia, não havia conexão e nem resposta.

Quando sua versão humana veio em sua direção de novo foi que ele percebeu que ao se enfiar embaixo da calça tinha ido parar em cima da camiseta que seu eu humano iria usar. Ele tinha que correr de novo o mais rápido possível, mas, dessa vez, não deu tempo.

A distância percorrida passo a passo pelas suas pequenas patas de formiga não eram nada comparados aos movimentos da sua versão humana, que se movia, respirava e deslocava o ar. Nunca imaginou que a sua respiração pudesse ser tão alta ou tão assustadora. Não queria morrer esmagado, não queria esquecer o fone, não queria acabar sendo morto por ele mesmo. Simplesmente queria que as coisas parassem e de repente fossem diferentes, como se fosse um pesadelo do qual pra fugir ele só precisasse acordar. Mas ele não acordava. As coisas eram como eram.

Sua versão humana pegou a camiseta e ele foi levado junto. Preso dentro de uma manga, sentiu a gravidade o puxar inteiro pra baixo, mas sem força suficiente pra vencer suas patas de formiga, agarradas ao tecido, enquanto sua versão humana vestia a camiseta. Agora, sentia o calor do seu corpo humano e se movia com dificuldade no espaço entre o pano e a pele. Não era uma sensação agradável, mas seu desespero foi maior quando viu que seu outro eu estava pronto pra sair e ali, ao lado de onde estava a roupa, ainda estava o fone, sendo esquecido, mais uma vez.

Ficou agitado, perdeu o controle, se movendo no apertado, assustador e quente espaço entre a pele e a camiseta, tentando empurrar a sua versão humana. Mas antes que ele pudesse notar, tudo ficou escuro e mais quente e ele era empurrado de um lado para o outro, como se as paredes se movessem, e de fato se moviam de um jeito que ele não conseguia mais saber o que era pano e o que era pele, onde era em baixo onde era em cima. Se via sendo esmagado por ele mesmo, sua versão humana silenciando uma incomoda sensação que tivera na pele, que talvez na cabeça dele não fosse nada além da costura da camiseta o espetando de forma incomoda, sem ter a menor idéia que aquele era ele mesmo, preso no corpo de uma formiga, tentando impedir que ele cometesse o mesmo erro mais uma vez.

Durou apenas 3 segundos para sua versão humana, mas, pra sua versão formiga, foi um enorme desespero onde o tempo pareceu estar em câmera lenta e fez tudo durar mais do que ele gostaria.

Depois que passou, ele se acalmou. Agarrado a um pedaço de pano, entendeu que se não conseguisse manter a calma, seus movimentos fariam seu outro eu se mexer e se coçar e ele mesmo iria se matar com a pressão que seu outro eu ia colocar sobre ele. Ia acabar morto. Morto por ele mesmo.

Não sentiu que era capaz de ter esse controle e pode imaginar o pouco tempo que ia levar pra que tentasse falar com seu outro eu mais uma vez e fosse então esmagado. Foi nessa hora que se lembrou que não era uma formiga e que aquilo só pode ser um sonho. Tinha que ser um sonho! Quis acordar.

Pediu. Tentou. Se concentrou. Mas não acordou.

Ainda era uma formiga e pensou que talvez nunca tivesse sido outra coisa. Talvez sempre tivesse sido uma formiga e tivesse só sonhado uma vez que era um ser humano.

Enquanto pensava, seu outro eu fazia seu show de criancinha ridícula de barba, e ele ouvindo pela primeira vez notou o quanto era ridículo alguém se comportando assim. Se viu reclamando de si mesmo e das coisas, se culpando, culpando o mundo, os outros, fazendo vozes e caras, naquele mesmo ponto de ônibus, por causa do mesmo fone de ouvido.

Que papel ridículo.

Por um momento desejou que ele fosse mesmo uma formiga e não tivesse nenhuma relação com aquela criatura. Pensou até em picar a criatura, apenas por desprezo. Foi quando o ônibus chegou.

Foi como se a temperatura da pele mudasse, sentiu como se o contato entre ele, sua pele humana e a camiseta, ficassem mais amistosos, mais aconchegantes. Era como se ele, como formiga, fosse bem vindo.

Ao se sentar, sua versão humana ficou mais quente e depois imóvel. Ele percebeu, na verdade se lembrou, que deveria estar dormindo e então, compelido pelo calor de quem dorme, sentiu que precisava sair daquele espaço entre o pano e a pele, na manga de sua blusa.

Sentiu que era seguro caminhar por sobre a pele, já que seu outro eu dormia e não iria tentar esmagá-lo. Andando, aos poucos, pata após pata, saindo daquele calor, andando pra fora da manga da blusa para o seu antebraço. Parou bem onde era possível olhar pro seu rosto dormindo.

Nesse momento, ele acordou.

Acordou e viu uma formiga em seu antebraço, que parecia olhar pra ele.

Sentiu uma descarga de adrenalina. Os dois se olharam por um tempo e por um instante bem curto e bem intenso, ele não soube se era o homem, a formiga ou os dois.

Aí, ainda sem saber qual dos dois ele era, ouviu um som familiar. Um apito. Repetido. Repetindo. De novo. De novo. De novo.

Era o alarme do celular.

Tudo ficou escuro e sua roupa virou seu pijama, a cadeira virou sua cama e ele se deu conta que estava novamente em casa, agora sim, acordando de verdade.

A primeira coisa que fez foi procurar uma formiga, lá na mesa, perto da roupa.

Não encontrou.

Pensou sobre o sonho doido que tinha acabado de ter, o que ele poderia significar e, esquecendo de tudo isso e sem se importar se tinha mesmo ali alguma mensagem, conseguiu sorrir.

Independente do que o sonho pudesse querer dizer, ou se ele tivesse mesmo entendido ou não, naquela hora não importava. A única coisa que importava é que, naquele dia, ele não ia esquecer, de jeito nenhum, seu fone de ouvido.

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