Projeto Webcoisas Tour – episódio 2: Avião

Se você perdeu o primeiro episódio, não se preocupe que dá pra acompanhar esse sem problema, mas se quiser ver o 1º, só clicar aqui.

Agosto de 2010, em algum lugar no céu

Logo que entrei no avião, a primeira coisa que pensei foi “puta que pariu, isso é bem menor do que eu achei que ia ser, caralho” (é, eu penso com muitos palavrões, eu sei).

Fui andando pelos corredores, pedindo licença, já que fora da minha imaginação sou mó educado e tal, até achar meu lugar. Já sabia onde ele era porque nos papéis da passagem tinha o modelo do avião e tinha pesquisado na internet o mapa de cadeiras dele. Um monte de sites tem esse tipo de informação, tipo esse, esse ou esse. Normalmente isso serve pra quem quer comprar uma passagem e escolher pelo número onde sentar, mas no meu caso era só uma coisa de neurose, curiosidade e similares. Como quem comprou a passagem foi a empresa, eu não sabia se ia sentar na janelinha, no corredor, lá fora na asa, ou sei lá o que.

Quando encontrei minha cadeira, tirei essa foto.

No saquinho tinha uma espuma pro fone de ouvido e em baixo, em outro saco, um travesseiro pequeno e um cobertor que parecia uma toalha. Tinha também uns panfletos de segurança, que podiam vir com um cartão escrito “olha, não é querendo te desanimar ou dizer que o avião vai cair, tá? Mas merda acontece, então, teje avisado, cabra”.

Pelo que eu tinha pesquisado, especialmente em voos internacionais, nas costas do banco que fica na sua frente tem uma telinha só pra você, com um menu pra ver filmes, documentários, ouvir músicas, ver onde o avião está num mapa e outras coisas. Infelizmente esse avião não tinha tal artefato tecnológico. Tinha só umas TVs 14 polegadas no teto dos corredores. Pra ouvir precisava ligar o fone na cadeira e dava pra controlar o volume ou selecionar o idioma do audio do que tivesse passando, tipo tecla SAP, ou ouvir umas músicas.

A televisãozinha além de não dar pra ver direito por causa do tamanho, da posição e da quantidade delas, não passou nada interessante, a coisa mais legal foi um episódio daquele desenho antigo do Pateta (esse aqui). E só tinha programação pras primeiras horas, depois ficou só uma tela mostrando o tempo de voo e onde estávamos em um mapa. Ou seja, se não fosse pelo DS e pelo mp3 cheio de podcasts, passar aquelas 12 horas dentro do avião teria sido foda. Sério. Então, leve alguma coisa que você goste de fazer, porque mesmo que tenha a tal telinha dos filmes, nada garante que ela vai mesmo entreter você.

Aquele meu colega de trabalho sentou umas 4 cadeiras atrás de mim. Do meu lado esquerdo tinha o corredor, já do lado direito tinha uma pessoa, depois outra e depois a janela. Com a minha mania de querer saber a história de todo mundo, acabei conversando com as pessoas do meu lado.

Uma era uma brasileira, filha de japonesa com italiano. Ela disse que estava indo até Frankfurt, de lá ia pra Hamburgo e depois pra Kiev onde ia trabalhar num barco daqueles tipo cruzeiro e não era a primeira vez que ela fazia isso. Ela costumava ir, ficar uns meses, depois voltar pro Brasil, pra casa da mãe, ou pra Itália pra casa do pai. Tinha 27 anos.

Ela contou uma história sobre um espanhol que ela conheceu em um desses cruzeiros. Ele estava lá pra trabalhar, igual ela. Eles ficaram juntos durante o tempo que ele esteve lá e depois ela até acabou indo visitar ele na Espanha. Pra contar bem rápido, ele não queria o que ela queria e tão rápido quanto aquilo se fez, se desfez. Quando ela contou que tinha acontecido fazia 1 ano, meio que entendi porque ela parecia ter um ar de “vamos de novo que vai ser legal, como um dia já foi, vamos lá, ok?”, como se tivesse se empurrando a fazer de novo as viagens dela. Sei lá, acho que o que aconteceu mudou a “rotina” dela de fazer essas viagens deixando o tempo passando enquanto ela tentava descobrir o que ela queria fazer com a vida dela ou talvez até um príncipe encantado aparecer.

Acho que, às vezes, nos deixamos levar e acabamos vendo só o que queremos ver de modo a tentar tornar verdade o que nós queremos que seja verdade. Deve ser uma merda você ir até o país da pessoa, cheio de expectativas, só pra ela te dizer que não quer mais nada. Bom, sei lá, espero que ela tenha se divertido nessa temporada em Kiev.

A outra pessoa que ficou perto de mim, a da janelinha, era uma senhora que ficou minha amiga porque ajudei a pegar e guardar a mala mega pesada dela no compartimento de bagagem de mão, em cima das poltronas. Ela precisava pegar a mala toda hora pra tomar remédio, ou pegar blusa, ou sei lá o que. Mas antes de contar o que conversei com ela permita-me reproduzir o que ela disse ao final da história da menina e do cara da Espanha: “É, minha filha, tem filho da puta em todo lugar”. hahahaha

Era uma senhora do Rio Grande do Sul e estava indo para Letônia. Espalhados pelo avião, estavam a irmã mais velha dela, seu filho mais velho, a mulher dele e o neto pequeno que vomitou no voo (viva \o/!). Ela tinha nascido na Letônia e era a primeira vez que ela voltava desde que tinham fugido com a família, por causa do comunismo, quando ela tinha 12 anos. O objetivo da viagem era tentar visitar a casa onde tinha nascido ou encontrar algum parente.

Ela tinha 72 anos, não aguentava carregar a própria bagagem, não tinha mp3 com podcast, nem videogame portátil, estava fazendo uma viagem de mais de 20 horas, passando por aeroportos e trens por todo o mundo, pra reencontrar seu passado num país distante, sabendo que as chances eram bem pequenas e não tava nem aí pro fato de que a maioria das pessoas achar isso loucura.

É estranho pensar na motivação dela. Ver de novo aqueles lugares ia trazer o que? E mesmo isso dos parentes, ela está longe e sem contato há tantos anos e ela já tem outros parentes e amigos, porque essa necessidade de ter que reencontrá-los? Acho que a lógica nem sempre explica esse tipo de sentimento. Eu mesmo tenho um exemplo.

Uns dias atrás me acharam no Facebook pessoas que estudaram comigo na 7ª série querendo fazer um reencontro da turma. Pelas merdas que eu escrevo aqui e outras coisas que podem ser percebidas, acho que dá pra saber que eu não era exatamente o garotão popular e que eu era muito mais o nerd estranho que parece sempre distante, cheio de idéias e dizendo alguma coisa que soava mais idiota do que realmente era.

Pensei em ir só pra saber a história das pessoas, mas vendo o perfil delas e lembrando de quem eu era, como as coisas eram e quem eu sou hoje e como as coisas estão agora, concluí que se daqui a 10 anos eles quiserem fazer isso eu até vou, mas hoje, não. Acho que as histórias que eu quero ouvir não estão lá ainda. E não que eu seja uma história que eles devam ouvir também, ou algo assim, apesar do monte de merda que eu me meto e faço.

Mas é engraçado porque eu nasci em outra cidade e morei lá até os 10 anos e esses dias procurando um endereço no Google Maps fui parar perto de onde eu morava. Me perdi uns minutos revendo as ruas e essas coisas e tive vontade de ir lá visitar, ver o que mudou, o que sobrou, minha antiga escola e essas coisas. Talvez o sentimento dela seja parecido, mas é claro que numa escala muito maior, já que ela foi embora fugida e não só pra outra cidade, mas pra outro país.

Continuando.

Sobre a “experiência de voar”, teve um pouco de turbulência aqui e ali, até umas em que o piloto pediu pros comissários de bordo sentarem. Não tenho muita experiência pra julgar, mas acho que deve ser normal ter um pouco de turbulência mesmo. Diz a lenda que se não tiver aeromoças chorando, você viverá. Elas não choraram e eu vivi. A lenda permanece. *tambores

Como o voo era longo e foi durante a noite, num determinado momento quase todo mundo tava dormindo, inclusive apagam as luzes. Durante a noite fica um pouco frio e eu vi que a maioria das pessoas acaba usando aquele cobertorzinho que parece uma toalha.

Quando fui até o banheiro, já de manhã, perto do final do voo, tirei essa foto.

Lá em baixo é algum lugar entre Paris e Frankfurt.

Sobre a comida, se você é uma daquelas pessoas chatas, sinto muito, o problema é você e não a comida. Inclusive, você nunca vai gostar de nada enquanto for assim assumidamente chato(a), tá? Mas foi normal, nada muito bizarro, mas bem alemã, tinha carne até na salada e um suco de maçã que eu ainda não sabia, mas ia beber muito nos próximos meses. O que eu achei mais bizarro é que antes da comida o pessoal passa perguntando se você quer uma toalha quente e eu tipo não fazia a menor idéia do que eles estavam tramando. “Como assim toalha quente? Isso é algum código que eu deveria entender? Fudeu, e agora?”, aí peguei a toalha, já que apesar de perguntarem se você quer, essa é uma daquelas perguntas que ninguém espera a resposta. Seguindo o instinto de sobrevivência primata (macaco vê, macaco faz), olhando os outros vi que era pra tipo “limpar as mãos” antes da comida. Simples assim. Acho que nenhum guia de viagem conta isso, né? hehehe

Só como um detalhe extra, a companhia aérea era alemã, então os comissários só falavam inglês ou alemão. Não que você vá precisar se comunicar com muitas palavras com eles, mas é bom saber que normalmente eles falam a língua do país de origem da companhia e inglês.

Saí do Brasil às 6 da tarde de uma sexta-feira. Cheguei na Alemanha no sábado, no que era 6 da manha no Brasil, mas 11 da manhã lá. Seguindo as placas eu e meu colega achamos o lugar onde eles olham o visto e o passaporte. Foi tranquilo, não dê uma de palhaço, mostre o documento que ele pedir e sem problemas. Algumas pessoas falam que em países como a Espanha pode ser mais complicado pra entrar pra quem vem do Brasil, mas na Alemanha, foi tranquilo.

Ainda seguindo as placas achamos a esteira das bagagens e foi bem simples, geralmente tem uma esteira pra cada voo e um painel que identifica de qual voo é aquela esteira, achando a esteira do seu voo é só esperar a sua mala aparecer, conferir se é ela mesmo e pronto. Nessa hora é legal ter na mão aquele papel que você recebe quando despacha as malas. Resumindo, a dica aqui, como diz um amigo meu, é seguir as placas, elas podem fazer você dar mó volta, mas elas nunca mentem. E se tiver dúvida, se comunique, principalmente porque se você não fala inglês vai ter junto com você pessoas que estavam no seu voo e provavelmente elas terão que passar pelos mesmo processos. Meu voo não teve conexão, mas se tivesse, na hora de trocar de avião não é preciso pegar a mala mais uma vez, ela já vai direto para o seu destino final e só lá é que você tem que se preocupar com ela.

E aí nós saímos, encontramos o taxista que deveria nos pegar e acelerando a 145km/h (como dá pra ver na foto), fomos para aquela que seria nossa casa nos próximos 4 meses e meio.

Fim do episódio 2.

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