Conversinha #jogoJusto

– Funciona assim o esquema. Uma pessoa tem uma idéia e essa idéia é muito boa. É uma história, mas não uma história de ler, é uma história que para acompanhar é preciso ser parte dela. As pessoas chamam de jogo. É uma idéia pra um jogo de videogame.
– Tá, e aí?
– A idéia é boa, amigos se juntam e a idéia cresce e se torna um projeto. Não é fácil. Muitos problemas surgem no caminho, mas surgem também muitas soluções. São muitos dias trabalhando até tarde. Tudo dedicado a construir aquela idéia, a construir aquela experiência.
– ok, e depois?
– E depois de tantas e tantas coisas, o jogo é lançado. Aí uma pessoa vai até uma loja e compra o jogo. A empresa fica feliz. Ganha dinheiro, ganha o retorno e a recompensa pelas horas de trabalho e pela experiência de entretenimento oferecida. Ganha também a possibilidade de contar mais histórias, melhores histórias, de realizar as idéias que surgiram quando aquela primeira idéia estava sendo construída.
– Tá, tudo bem.
– A pessoa que comprou o jogo rippa o jogo. Disponibiliza na internet. O jogo tem cópias piratas. A empresa ganha reconhecimento, mas não ganha dinheiro. Seu negócio apesar de ter qualidade deixa de ser sustentável. A empresa fecha. As boas idéias não viram mais jogos e são esquecidas. Outras empresas tem o mesmo problema. A indústria como um todo se torna um negócio não sustentável. Os jogos de videogame deixam de existir.
– ih?
– É isso que você quer?
– Não, porra, é claro que não. Tá maluco? Eu compro o jogo pirata porque o original é muito caro. Que drama, heim?
– Ah vá, não é drama, faz sentido e você sabe que pode muito bem acontecer.
– Eu sei, eu sei, mas cara, você quer que eu me sinta tipo o Hitler dos jogos?
– Não, não quero hehehe
– Eu compro o jogo pirata porque ele custa às vezes 200 reais a menos do que o original. Não to falando que é certo comprar, mas é uma opção tentadora. Você acha que eu ia conseguir comprar todos os jogos que eu joguei até hoje se tivesse que ser tudo original?
– Provavelmente não.
– Pois é. Mas esses jogos são parte importante da minha vida e são parte importante da pessoa que eu sou. Tipo jogos de estratégia, de RPG, de ação, momentos que mudam a gente, tipo aquela porra daquele Nemesis do Resident Evil correndo atrás de mim com rocket launcher, sei lá, são todas experiências que ajudaram a construir meu caráter, minha coragem, minha velocidade de raciocínio e todas essas coisas que eu não teria se tivesse que ter só jogo original.
– Depois quem é o dramático sou eu hahahaha
– hahahahaha mas você entendeu.
– Sim, eu entendo que ter acesso as essas coisas é importante. Tipo é um problema que a gente tem no Brasil não só com videogame, mas com software mesmo. Por exemplo, quantas pessoas você conhece que tem o Microsoft Office original? E me diz quantas empresas não exigem que vc saiba usar o office pra te contratar? Se você não souber, e não tiver condições de fazer um curso sei lá, nem da análise de currículo você passa, entende?
– Então a conclusão é que a pirataria está salvando vidas, formando pessoas e desenvolvendo o país? hahahahaha
– Não porra hahahaha. Mas a pirataria é uma defesa contra preços abusivos, contra a falta de oportunidade, contra impostos que fazem as coisas custarem valores que parecem piada. Tipo, quase qualquer coisa que você imaginar, naquelas listas de qual país tem o mais caro, o Brasil tá sempre no top 5. Sempre. Principalmente se for tecnologia. Igual isso dos jogos, lá fora um jogo lançamento é 60 dólares.
– É, mas 60 dolares hoje é uns 100 reais. Você pagaria 100 reais pra ter ele original, bonito e que não manda a industria para o pinico?
– Assim, primeiro não acho que o mercado do Brasil influencie o mercado mundial a ponto de mandar ele pro pinico, o máximo que vai acontecer é irem embora do Brasil. Mas sim, eu, se tivesse condições pagaria os 100 reais, porque eu entendo o que isso quer dizer, mas não acho que todo mundo faria isso. Conheço gente inclusive que tem um salário legal, que poderia comprar tudo original, mas que compra tudo pirata porque é mais barato. Simples assim.
– Mas aí é foda, né? Tipo assim, se a pessoa gosta de uma coisa ela deveria ter consciência de que comprando pirata ela está destruindo o que ela gosta. Mas e se o cara tem condição de comprar o original, porque ele não compra? Será que as pessoas realmente não se incomodam de fazer o que elas sabem que está errado?
– Meu, acho que os princípios da nobreza e da ética não são assim tão simples no Brasil.
– Brasileiro é tudo trambiqueiro, é isso que você quer dizer?
– Não, mas pensa comigo, se ele conseguiu um emprego que paga bem e tal, ele provavelmente tem educação, ele provavelmente não é uma besta quadrada. Mas a idéia de a pessoa se sentir mal por fazer algo errado tem a ver com o que a maioria das pessoas considera errado.
– Como assim?
– Ué, a gente mesmo já falou aqui que pirataria é aceitável, que é uma opção de acesso as coisas, que é uma ferramenta de não sei o que nessa terra sem justiça e tal. Na cabeça dele e na cabeça do senso comum piratear não é errado. Tipo essas coisas de baixar filme, baixar música. Tá incorporado na cultura das pessoas, se elas tem maneiras de conseguir as coisas de outras formas mais vantajosas, elas vão atrás disso. Isso não é falta de honestidade, de certa forma é inteligência.
– Eu até entendo, mas analisando a situação a longo prazo, é uma decisão burra. Igual isso de que “se eu piratear no Brasil não vai ter impacto nenhum pro resto do mundo”, em primeiro lugar vai sim, porque a industria está deixando de ganhar dinheiro e se todo mundo pensar dessa forma em todos os países acabou. E em segundo lugar isso é algo negativo pro país, não só do ponto e vista econômico, por dificultar que uma industria de jogos se desenvolva aqui (e isso inclui seu sonho de adolescente de ser criador de jogos), mas também por ser uma questão de aceitar conviver com algo que é errado. Em essência, estão roubando as pessoas que fizeram o jogo.
– Não descordo de você, mas diante do preço que a pirataria oferece, não tem muito o que fazer. Tipo isso dos filmes, apesar de estar incorporado na cultura das pessoas o costume de baixar o filme de graça e tal, quando sai o DVD a 12,90, a pessoa compra, mesmo que já tenha o filme baixado, se o jogo original fosse mais barato, as pessoas comprariam. E isso do office mesmo, quanto custa uma licença do office?
– Hoje em dia tem uma que é tipo básica e custa uns 200 reais, vem com Word, Excel e PowerPoint e tem outra que aí é com Access, Outlook e tudo mais que é mais cara.
– Você não acha que se o office custasse 12,90 todo mundo tinha o original?
– Acho, com certeza. Mas eu não sei qual é o valor de “com certeza todos comprariam” pros jogos de videogame. Sei lá, acho que mesmo se fosse 60 reais ainda ia rolar pirataria. Menos, mas ainda ia ter.
– Mas um jogo não é um entretenimento que dura tipo 2 horas, então mesmo se a gente pegar aqueles FPS que tem tipo 8 horas, 6 horas, sei lá e quisesse cobrar na mesma proporção o seu 12,90 virava 40 reais. Isso pra um jogo de 6 horas. Pra um Final Fantasy a coisa iria mais longe. entende?
– Entendo, mas ao mesmo tempo que tem que rolar uma mudança de impostos e não sei o que, tem que rolar uma mudança de consciência das pessoas. Tipo de sacar que um jogo tem um valor agregado maior do que o de um DVD, que o jogo original não vai custar 5 reais, que o Brasil é um país que está crescendo e tudo mais, mas nós ainda não somos aquela economia uau e acho que as pessoas tem que ter a intenção de fazer o certo e buscar fazer o que é certo, tipo o cara que aprende a mexer no office pirata, ai ele arranja o emprego e agora ele deveria comprar o original, entende, ele precisa mais ser um pirara, mas ele continua sendo.
– Eu até concordo, só que no caso dos filmes a pirataria rola por causa do acesso também. É mais fácil baixar o filme do que esperar sair o DVD e comprar, e fora que tem filme que você só vai achar se baixar.
– Bom, eu acho que as pessoas querem fazer o certo, que elas já sabem o que é o certo, mas ninguém gosta de ser tratado como idiota e ver o preço que as coisas custam aqui, quanto custa lá fora, e ver pra onde vai esse dinheiro dos impostos e aí o preço do jogo pirata, faz sim a pessoa se sentir tratada como idiota. Mas eu entendo também que tem os dois lados e que uma mudança depende sim de os jogos ficarem mais baratos, depende sim de eles ficarem mais acessíveis, mas depende também de as pessoas terem consciência do que o jogo pirata representa. E eu diria mais cara, acho que essa consciência de que ser pirata, de que ser uma fraude, de que “parecer ser” vale mais do que “ser realmente” está em todos os setores da sociedade.
– Olha eu até entendo que a pirataria e a escolha da pirataria é de certo modo uma resposta a essa sensação de que somos tratados como idiotas pra muita coisa, mas me explica, qual é a do cara que compra um iClone? Sério, tipo, porque o cara compra algo que ele sabe que é uma cópia e que todo mundo sabe que é um cópia e que não é igual ao original? Tipo, qual o objetivo de colocar uma caixa de papelão na cabeça e achar que é um Transformer?
– hahaahaha um Transformer é foda hahahahah
– É e tem mais cara, tipo, existe toda uma consciência que precisa mudar sobre ser uma regra que “quem faz as coisas certo é trouxa” e isso existe justamente por causa desse sentimento de que estamos sempre sendo feito de trouxa pelos governantes ou sei lá quem. E isso começa desde o nerd que é zoado na sala de aula até o cara que não faz sacanagem na hora do imposto de renda.
– Bom sei lá. Eu acho que o preço do jogo tem que ser justo e tem toda uma parcela dos gamers que tem mó consciência disso, tipo aquele pessoal dos blogs e o cacete que se dedicam a fazer conteúdo de graça e tudo mais. Só que dentro do todo eles ainda são minoria.
– É, pode até ser, mas eles é que são os formadores de opinião. Então, se eles pensam assim e se eles passam isso nos blogs, videologs, twitters ou sei lá o que deles, acho que cedo ou tarde essa mentalidade e essa responsabilidade vai chegar pra outras pessoas. Mas acho que precisa sim de um estímulo inicial, um bum de qualquer coisa pra fazer as pessoas verem que algo está acontecendo.
– Tipo aquele movimento do game justo?
– É “jogo justo”, porra, “jogo justo”, você parece aqueles jornal falando de coisa de tecnologia como se fosse ficção cientifica, tipo jornal Nacional falando “da comunicação por correio eletrônico”, manja? hahahahah
– Enfim, whatever, cara, você entendeu o que eu quis dizer.
– É sim. E voltando ao assunto essa é a hora em que a história para e agente olha pra quem está lendo isso e a pessoa se dá conta que isso foi só uma história, mas que podia muito bem ser uma conversa de verdade e que hoje é sim o dia do Jogo Justo, mas ele não é só um recado pros governantes ou sei lá o que, é um recado também pra você. O que você faz está diretamente ligado ao que os governantes vão fazer. Querer que as coisas mudem envolve nós mudarmos também. É uma questão de cobrança, mas também de atitude.

       

Ah, e se você quer saber mais sobre o que é o dia do JogoJusto é só clicar aqui

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