X- Salada

Quando eu era criança um x-salada resolvia todos os meus problemas, tornava o mundo um lugar maravilhoso, fazia qualquer problema ir embora espantado pelo cheiro combinado de carne gordurosa, queijo derretido e tomate. A alface não participava, porque alface não tem cheiro.

Eu fiquei pensando no maldito x-salada porque tinha dormido uma hora e meia naquela noite e o ônibus, que ia me dar pelo menos mais duas horas de sono, não chegava. Costuma me dar uma fome da porra sempre que fico sem dormir e sou forçado a me manter acordado. E é sempre essas coisas, x-salada, aqueles salgadinhos de bar tipo coxinha, bolinho de queijo, batata frita, lasanha ou qualquer outra coisa que seja pesada e/ou altamente gordurosa. Acho que o corpo quando percebe que tá sendo destruído, que não vai rolar um descanso, ele liga um foda-se foda e fala “quer saber? Dane-se essa merda, vamos acabar com o corpo de vez e morrer entupido de gordura e feliz”. Como meu corpo consegue pensar sem seus pensamentos passarem por mim eu não sei, tô só especulando aqui… mas isso não vem ao caso agora.

Lá estava eu, morrendo de sono, querendo uma merda de x-salada pra morrer gordo, esperando um ônibus que não vinha e tinha junto comigo umas pessoas. As pessoas que todo dia estão lá esperando o mesmo ônibus. As pessoas.

Olha, não é por nada não, mas eu odeio pessoas. Não me entenda errado, eu odeio numa boa, tipo assim, não vou matar ninguém nem nada, mas é que pessoas são cheias de… de… “pessoalidades”. Por exemplo, estamos todos aqui esperando essa merda de ônibus e poderíamos ficar todos de boa, vendo a rua, curtindo nossos problemas pessoais nas nossas cabeças, viajando na maionese, mas não, eles estão nesse momento discutindo a respeito de onde é produzido o melhor jabá do Brasil e querem minha opinião, claro, eu sou simpático apesar de estranho:

– Nossa, realmente, é um absurdo o melhor jabá, que é uma carne típica do nordeste, ser produzido no Rio Grande do Sul… É foda.

“É foda”. Eu uso muito “é foda” pra concluir idéias. Geralmente é quando eu espero uma reação da pessoa ao que eu falei, ou quando eu espero uma reação minha mesmo de tipo calar a merda da boca e parar de tentar bancar o doutor simpatia, ou simplesmente quando ouço o que digo e concluo que não devia ter dito nada, que apesar da eloquência empregada, um observador atento veria que eu to falando um monte de merda e eu deveria ficar quietinho. Bem quietinho.

É sempre assim, depois que termino de falar vem lá o silêncio de milissegundos onde ocorre o processamento do que foi dito e inevitavelmente eu digo “é foda”.

É foda.

Ainda nada da merda do ônibus, e como não desenvolvi ainda a habilidade de dormir em pé e nem de desligar a cabeça, vejamos onde estamos enquanto sorrio pras pessoas sem achar a menor graça dos comentários delas sobre alguém da TV. Do meu lado esquerdo tem uma padaria, do meu lado direito não tem porra nenhuma. Nessa hora, a única coisa aberta é padaria, hospital e puteiro. É, e olha que oz puteiroz já devem estar fechando. Nada contra, cada um sobrevive como pode, mas é engraçado observar como “horário comercial” é uma coisa relativa, não?

Eu sorrio com meu próprio pensamento e as pessoas me olham estranho porque naquele exato momento eles falavam da experiência de cada um com calos no calcanhar causados por uma má escolha de calçado. As pessoas adoram falar de algum assunto onde cada um fala a sua experiência, já notou? Bom, de fato não era aquele um assunto do qual se devia sorrir, convenhamos, um sapato desconfortável é um saco mesmo, então eu finjo que na verdade não estava sorrindo, estava só esticando os lábios numa expressão de sono das tantas que eu sei de cor, já que estou sempre com sono.

Eu olho pro céu, acho bonito ver o dia amanhecendo, mas e a porra do ônibus? Ainda nada. Sei que não devo, mas olho na direção da padaria e sem controle começo a imaginar que eles devem fazer x-salada, coxinha, bolinhos de queijo. Me controlo e olho pro outro lado e penso na minha vida.

Fico pensando na realidade cretina e difícil, na vida imbecil, na corrida dentro de uma daquelas rodas onde os ratos ficam, rodando, rodando, correndo com força, mas ficando sempre no mesmo lugar. Me lembro porque não gosto das pessoas e como até mesmo com todos os filtros e barreiras que agente aprende a usar e usa durante todos esses anos, pra só deixar se aproximar da gente pessoas que sejam diferentes perante nossos arrogantes olhos inseguros, inevitavelmente nós erramos e nos decepcionamos, e encontramos mentiras, incertezas, erros e problemas da vida normal.

Merda acontece e tempos difíceis fazem parte do processo. O Herói sempre se salva para cair em perigos ainda maiores.

Lembrei que era por isso que eu dormia tão pouco, que era por isso que estava sempre cansado, porque estava sempre pensando tanto e vendo e sendo de maneiras diferentes. Mudar as coisas, ver e viver tudo de uma forma diferente. Por isso o bom humor no final da reflexão. Havia um objetivo, era só uma porcaria de ônibus, eram só umas pessoas com seus assuntos peculiares que iam com a minha cara sabe-se lá porque, era só mais uma noite sem dormir, ia dar tudo certo e eu sabia que era só uma questão de tempo. Eu sou o Herói da minha história.

Acho que devo parar com esses pensamentos de livro de auto-ajuda genérico e ir pegar logo meu x-salada, vai dar tempo, vai dar tudo certo.

Fui. Entrei na padaria. Um português de bigode, desses que parecem personagem, me pergunta com o olhar o que eu quero.

– Me vê um x-salada, colega. – geralmente eu não falo essas coisas tipo “colega”, mas naquela hora eu falei.

Cinco minutos depois lá vem meu lanche. Cada mordida é uma memória e é também mais um pouco de gordura. Fico comendo, lembrando, viajando e pensando naquele gosto e em todas as vezes que comi aquilo.

Termino satisfeito, solto um arroto com gosto e um peido envergonhado do tipo ninja. O padeiro me parabeniza com o olhar e um sorriso. O motivo, que a princípio suponho ser que ele gosta de gente porca, na verdade é outro que só descubro ao sair da padaria.

Olhei pro ponto, não tinha mais ninguém.

Entendi. Enquanto eu comia feliz minha dose de gordura o ônibus passou, o padeiro viu e não falou nada… Filho da puta.

Eis que aí ele vem até mim e diz:

– Desculpa, você tava comendo com tanto gosto que não pude te interromper.

Parei uns segundos, pensei na situação, sorri pra ele e decidir ir embora.

Pra casa.

– Vou ligar no emprego e dizer que tô doente, sei lá. Vou pra casa, acho que to precisando. – esperei, aqueles milissegundos de processamento, achando que ele fosse dizer alguma coisa, mas ele não disse e aí eu disse, enquanto ia embora, naquela hora familiar de sempre. – É foda.

One Comment on “X- Salada

  1. – Nossa, realmente é um absurdo o melhor jabá, que é uma carne típica do nordeste, ser produzido no Rio Grande do Sul… É foda.

    auahuahauh

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