Pedaços de Histórias: Por causa de uma pergunta


Eu só perguntei quanto tempo ia levar pra as pessoas esquecerem dele. Não gostaram muito, fizeram cara feia e saíram de perto. Tudo bem vai, não foi uma pergunta muito inteligente de se fazer, especialmente porque era o velório dele. É foda, foi uma daquelas coisas que passam pela nossa cabeça e que ninguém diz, mas tem que vezes escapa. Esse cara morreu e viveu essa vida, entende? Não sei porque, mas aprendemos com o tempo que esse tipo de pergunta é coisa de criança. Eu gosto de como as crianças são boas pra fazerem perguntas.

Não conheci ele muito bem, ele trabalhava comigo, mas fazia pouco tempo que eu tinha chegado, então apesar de ver a tal tristeza da morte, esse é pra mim um daqueles velórios mais de reflexão do que de pesar. Tá cheio aqui, não imaginei que ele conhecesse tanta gente. É, tá certo que ele não era um jovenzinho, ouvi falar que tinha até uns bisnetos, uma família grande. Pra eles a coisa toda deve ser até mais triste considerando o outro caixão que está ao lado do dele. O da mulher dele.

O que aconteceu? Foi assim, ele trabalhou muito a vida toda, educou os filhos, comprou presentes e fez toda aquela merda de pai de família que tentam ensinar pra gente. Esse cara costumava se importar tanto em cuidar dos outros que as coisas que ele mesmo gostava ou queria não eram prioridade.

Ele sempre quis viajar pra Brasília. Porque a capital? É que ele era patriótico, lembrava de Getúlio Vargas, dos militares, da TV Tupi e outras coisas que agente só conhece de imagens em preto e branco. Ela dizia que a capital era um símbolo, um lugar com um significado, além de ser uma cidade bonita.

Ele nunca foi. Primeiro porque tinha que trabalhar, depois que pagar isso, depois comprar aquilo, consertar o carro, uma geladeira nova, a cirurgia e tantas outras coisas. “Apesar da minha idade, quero conhecer Brasília antes de completar 80 anos” eu cheguei a ouvir ele dizer.

Ninguém duvidava que ele conseguia dirigir até Brasília ou até a Terra do Nunca se quisesse. Ele era um exemplo dessas pessoas de idade mais vivas e mais inteligentes que pessoas de meia idade depressivas e que não são capazes de nada que não seja reclamar, dormir e choramingar na internet. Agora com os filhos crescidos e os 80 anos chegando, era a hora de ir.

A mulher dele que compartilhava do amor dele pela capital estava tão empolgada quanto ele na manhã do segundo dia daquele feriado, quando eles saíram.

Fico imaginando várias merdas sobre dirigir, quando penso que por mais que você faça tudo certo, a sua segurança sempre vai depender dos outros fazerem as coisas certas. Além disso, nós pessoas da espécie humana não fomos feitos pra andar naquela velocidade, qualquer acaso do destino que aconteça, só podemos fechar os olhos. Ou não. Sei lá.

Um carro que vinha na outra mão tinha um motorista que achou que as leis de trânsito eram só um conto mágico criado pra atrasar a vida dele.

Freios. Um grito. Um acaso do destino.

Os dois carros colidiram.

Ele morreu primeiro, os ferimentos foram maiores nele, porque na última hora ele virou o carro pra proteger sua mulher, como qualquer homem de verdade que ama de verdade sua garota faz. Ainda mais no caso dele que era tão disposto a se sacrificar pelos outros que amava, como eu já disse.

Ela acordou, viu os filhos lá no hospital com aquela exata expressão no olhar que ela precisava pra saber o que tinha acontecido com seu marido. Fechou os olhos e não acordou nunca mais. Os médicos disseram que isso era normal, especialmente em casais que estão juntos há muito tempo porque se amam e não porque estão presos num erro que não tem coragem de resolver.

Isso me faz pensar um monte de coisas. Não é todo dia que o mundo perde uma pessoa que não era apenas mais um membro idiota do gado, alguém que realmente fez alguma coisa com o tempo de vida que recebeu. Uma história de verdade, escrita com palavras com significado até o último segundo.

Também me faz pensar, ver alguém que viveu aquela coisa toda que ensinam pra gente sobre como viver a vida e que quase sempre não acreditamos nem nos vemos se encaixando nela. Por causa dos exemplos que agente encontra por aí, de repente, nos vemos acreditando que não existe essa coisa de amor verdadeiro, feliz e duradouro, que não é possível envelhecer sem parar de viver, que não vamos nunca achar uma coisa que gostamos de fazer de um jeito que nós faríamos até poucos dias antes de morrermos. A maioria das pessoas no fundo acredita que é tudo mentira, uma ilusão.

Cada um tem seu jeito de ser feliz, mas sei lá, às vezes, tenho a impressão que gente de verdade hoje em dia é só uma lenda. E essas duas pessoas eram de verdade. Acho que a vida é irônica, mas é bem humorada.

Continuam me olhando com aquela cara feia de merda, não devia ter perguntado porra nenhuma. Fazer uma pergunta pra alguém que não entende de onde ela vem é uma merda mesmo. Cambada de imbecil. Pra mim chega, eu vou embora.

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