Uma Voz


– Sabe do que eu sinto mais falta?
– Do que?
– De quando a vida era só você eu e mais nada. Quando não tinha o mundo, sabe? Agora temos que trabalhar, que nos preocupar com um monte de coisas e ficar vendo o futuro. Ficar pensando nas possibilidades das coisas imaginando se estamos vivendo tudo o que deveríamos viver. Eu queria calar essa voz dentro da minha cabeça, entende?
– De uma maneira tão grande e intensa que dizer “sim” não é o suficiente pra descrever o quanto.
– O que nós vamos fazer?
– Eu sei lá. Eu sei é que por mais que a gente pense tanta coisa, que tente tanta coisa, nós dois conseguimos ter o nosso dia juntos e no final eu me sinto com você de um jeito tão bom que eu não me sinto com mais ninguém. É assim pra você também, não é?
– Eu acho que é sim, mas eu me pergunto quando é que a gente ter certeza das coisas sem ter receio do que vai acontecer ou de estar tomando as decisões que não são melhores pra nós. Apesar das nossas brigas ou diferenças, o que nós temos ainda é tão forte e tão especial, a ponto de apesar de tudo o que aconteceu, nós ainda estamos aqui. E se nós estamos sempre aqui depois de tudo, porque essa voz não fica quieta?
– Talvez seja porque ela precisa falar pra podermos aprender a dar valorizar o que nós temos, mas acho que é difícil entender isso na prática e aí o que era pra ajudar acaba atrapalhando. Tipo uma daquelas coisas que deveria fazer um efeito e acaba fazendo o outro?
– É, no final apesar de todas as coisas que fizemos, acabamos voltando aqui juntos e sentindo de novo essa sensação, mesmo que um dia atrás tenhamos tido uma conversa super legal com aquela outra pessoa que no mundo ideal não precisaria existir, mas está lá, daquela maneira que é dela e que não é nossa, e que ajuda a maldita da voz continuar a falar.
– Você acha que nós somos culpados por não entendermos uma voz que vem de nós mesmos ou essa porra não faz o menor sentido?
– O que a gente não entende não vai mesmo fazer sentido pra gente. Antes não tinha essa voz, lembra?
– É, mas nós não podemos voltar no tempo pra onde as coisas eram diferentes e pra falar a verdade eu nem quero e nem acho que você iria querer também. Nós aprendemos uma porção de coisas, somos pessoas diferentes. Tudo por causa desse tempo.
– Seria legal olhar pro futuro, não acha?
– Como assim?
– Não precisava nem ser um salto muito grande, mas um salto longo o suficiente pra saber se vamos nos entender de vez e se vamos entender o que essa voz quer dizer. É uma droga brigar com você e é uma droga toda vez que parece que aquela conversa pode ter sido a última coisa do último dia que passamos juntos. Entende?
– Entendo.
– …
– …
– …
-… Vamos viajar?
– Como assim? Agora?
– É, vamos viajar, vamos pegar um ônibus, vamos até a rodoviária, vamos pra qualquer lugar! Vamos tirar férias do mundo!
– Pirou de vez foi? Hahaha Não dá, nós temos que trabalhar, eu tenho que entregar umas encomendas e pra onde agente iria também?
– Eu não sei, mas o que eu sei é que não importa pra onde agente vá, nem importa essas duvidas, ou medos ou sei lá o que. Se agente tiver junto, eu acredito que nós vamos estar bem.
– A voz na minha cabeça me faz dizer antes de dizer que eu acredito nisso também, que eu não sei como vai ser o futuro, como vai ser daqui 5 anos, mas que hoje isso é mesmo verdade. Uma verdade que me faz muito bem.
– Pra rodoviária, então?
– Não, hahaha. Quem sabe outro dia?

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s

%d bloggers like this: