Caneca turca

Ontem de noite quando eu cheguei, encontrei a caneca nova da Turquia me esperando onde a tinha deixado, do jeito que qualquer caneca normal que não tem vida própria faria. Olhei pra ela de longe e fui me aproximando até ver que eu tinha esquecido um pouco de bebida dentro dela e as formigas tinham descoberto. A imagem que eu vi, no entanto não tinha nada de normal e foi diante dela que aconteceu na minha cabeça o que se segue.

O que será que deu errado? A primeira formiga deve ter entrado na caneca, deve ter visto o que tinha lá dentro, deve ter ficado super empolgada e corrido pra contar pra todas as outras o que ela tinha achado. Talvez ela tenha se sentido especial na hora, talvez tenha sido aquele o momento da vida dela que ela poderia provar pra todo mundo e pra si mesma que ela era uma formiga de valor. Quem sabe nesse dia aquela outra formiga por quem suas antenas balançavam diferente olhou pela primeira de verdade pra ela? Quem sabe pela primeira vez seus pais sentiriam orgulho dela? “Olha Formiga, dessa vez, você realmente se superou, que achado!”.

Eu sei que formigas não tem esse tipo de relação entre si e nem com seus pais, mas sei lá, quem sabe?

A expedição veio, mais ou menos 40 formigas, todas decididas a levar o açúcar que elas sabiam que existia no que estava na caneca. A bebida era refrigerante, já que hoje em dia não tenho saco pra achar legal ficar com dor de cabeça no dia seguinte ou pra achar que sentir meus olhos mais leves por algumas horas vai mesmo resolver algum dos meus problemas. Na maioria das vezes nós precisamos pensar e algo que torna pensar mais difícil não é o que me dá vontade esses dias. Devo estar ficando velho, ou talvez só babaca mesmo. Talvez as duas coisas. Enfim, formigas.

O que será que deu errado pra eles? Dentro da caneca, num anel fraco de resto de refrigerante estavam ali 33 formigas afogadas. Acabei contando quantas eram. Nunca vi nada assim e fiquei impressionado, desculpe.

Depois de contar quantas eram, me passaram pela cabeça muitas possíveis explicações. Será que eles eram condenados de morte da sociedade formiga? Quem sabe uma gangue das 33 formigas malucas? Ou será que eles eram de alguma seita religiosa de formigas que decidiram cometer um suicídio coletivo porque sabiam algum segredo sobre o fim do mundo?

Pensei também se aquelas não eram só formigas que não entendiam seu papel na vida e por isso viviam no limite de tudo pra tentar fazer a vida ser mais, só que daquela vez acabaram provando um pouco demais do açúcar da vida que acabou se mostrando tóxico demais pra eles. Refrigerante não faz bem pra ninguém, não é mesmo?

E se não tivesse sido uma morte intencional e combinada? Como será que elas se sentiram na hora que perceberam que alguma merda estava acontecendo? Como será que se sentiram quando as primeiras formigas começaram a se encolher, se esturricar e ficar imóveis, com um olhar distante em silêncio, quietas até que não dissessem mais nada, nenhuma antena se mexesse e soltassem todas o último suspiro de vida no ar como uma lágrima no meio na chuva? Eu fico pensando.

Fiquei em silêncio olhando aquela caneca e aí começou a me bater um sentimento de culpa. Quer dizer, quanto tempo vive uma formiga? Quanto de vida essas 33 formigas ainda viveriam se eu não tivesse deixado essa caneca aqui com um resto de refrigerante? A minha outra caneca, a que tinha um resto de água permanecia pura e sem culpa. Mas será que a culpa era minha mesmo ou a culpa era do refrigerante tóxico que só faz mal pra qualquer criatura viva a curto, médio ou longo prazo? Ou a culpa era das formigas e dos seus mistérios como sociedade, os quais nunca vamos compreender totalmente por sermos apenas seres humanos vaidosos e arrogantes? Ou ainda, será que a culpa era de uma força maior que sempre que não acreditamos nela, ela nos dá uma imagem que aparentemente não faz sentido, mas que nos faz pensar tanta coisa que nem achávamos que poderíamos pensar.

Era inútil tentar entender. E de alguma forma eu sentia que aquela imagem tinha cumprido seu propósito. Limpei a caneca e a guardei.

Uma caneca, com um restinho de refrigerante e 33 formigas mortas lá dentro. Estranho pra cacete.

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