Um remédio para a saúde

Todo mundo tem fome e em algum momento vai precisar comer. Vender comida é um comércio bom e relativamente estável por isso. Façam-se guerras ou recessões, as pessoas sempre vão precisar comer. Da mesma forma, as pessoas precisam estar saudáveis, porque se elas estiverem doentes elas morrem e a maioria das pessoas não é interessada em morrer. Então, comprar remédios é tão imporante quanto comprar comida.

Diferente do mercado de comida, as pessoas não vão estar sempre doentes. Elas compram um remédio, tomam e se curam. No caso da comida, elas comem, matam a fome, mas tem fome de novo, e aí compram comida outra vez e outra vez e assim até o fim da vida delas. A questão então é arranjar um jeito das pessoas precisarem tomar o remédio outra vez e outra vez e outra vez e outra vez. Precisamos de um remédio para a saúde, precisamos de um jeito de lidar com ela.

A primeira maneira de se fazer isso é estudar químicamente quais efeitos colaterais podem ser inseridos sem que o remédio perca o efeito. Por exemplo, se fossemos vender um remédio para febre, poderíamos colocar nele algo que causassem na pessoa lá pela dose de número 16, problemas estomacais.

Os problemas estomacais dela fariam com que ela comprasse remédios da nossa linha de produtos para o estômago. Neles colocaríamos algum efeito colateral que ao longo prazo causasse problemas nos ossos, aumentando então a nossa linha de remédios para os ossos, que poderiam ter efeitos colaterais que afetassem o fígado e assim por diante numa cadeia sem fim que variaria conforme o biotipo de cada pessoa. Pensando inclusive no biotipo poderíamos combinar efeitos colaterais, por exemplo, nossa pastilha para garganta poderia causar problemas para alguém que tem tendência a ter problemas intestinais ou a alguém que tem tendência a ter problemas no estômago.

Tudo isso seria muito lucrativo, muito interessante, mas esse método tem um problema. Para encontrar todas essas combinações e reações precisaríamos de muita pesquisa, o que custa caro. Teríamos então que encontrar um jeito de fazer a pessoa sempre precisar comprar um remédio sem termos que investir tanto em pesquisa. A solução seria remédios que não curam, mas que apenas fazem uma “manutenção”.

Podemos, por exemplo, desenvolver conquetéis para AIDS, para o câncer, para a depressão, para a gastrite, para a insuficiência renal, para a osteoporose e muitos outros. Poderíamos assim criar um mercado dependente da mesma forma que a indústria da comida. Não venderíamos a cura a ninguém, mas apenas condições melhores de vida. Seria interessante, por exemplo, fazer com que os remédios de alguma forma perdessem o efeito com o tempo e a pessoa tivesse que depois de muitos anos de uso passar a usar o mesmo remédio numa dosagem mais forte. Nossos loucros cresceriam de forma exponencial!

Só não podemos de esquecer de ser cautelosos. De tempos em tempos deveríamos encontrar alguma cura. E já que estaríamos nesse ambiente de testes de reações e doenças, que tal se tentassemos desenvolver nossas próprias doenças? Não precisaríamos gastar milhões em pesquisa para achar uma cura, porque já a teríamos desde o começo, só precisaríamos então guardar em segredo durante uns 30 anos, vendendo um monte de coquetéis, e aí introduziríamos uma nova doença e logo em seguida a cura da grande doença anterior. Seria brilhante, seria altamente lucrativo, acima de qualquer suspeita. Seria perfeito.

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