Wii may have a problem?

Toda ferramenta criativa quando recebe novas possibilidades, passa por um período de transição onde os criadores parecem estar perdidos e até mesmo incertos quanto ao que fazer com a novidade. A primeira idéia acaba sendo recriar coisas que já tinham sido feitas, apalpando com cuidado o solo do novo caminho que surge diante deles. Pra quem olha de fora ver esses novos projetos pode dar a impressão de que a novidade revolucionária não é tão revolucionária assim.

Foi assim com o cinema. Durante a década de 1920 surgiu a possibilidade de se colocar som nos filmes, que durante 30 anos tinham sido mudos. A princípio a idéia gerou bastante controvérsia, muitos questionavam a necessidade de som, tinha se feito tanto até ali sem ele, ora ora. Das cabeças dos que aceitaram a novidade a primeira idéia de como utilizar o som foi exatamente reproduzir o que se fazia, por exemplo, no radio, simplesmente filmar um músico tocando, e com a camera parada e sem cenário (o que acabou gerando o gênero musical, depois). Algumas cabeças, no entanto, usaram a novidade para contar histórias de formas muito mais elaboradas, o que seria impossível só com aquelas letrinhas que apareciam pra dizer o que os personagens diziam, como era feito antigamente.

Depois que os primeiros filmes que realmente usaram o som como um elemento novo foram lançados a indústria foi obrigada a se reinventar e aceitar a necessidade de um roteirista e de atores que tinham mais talento, muitos vindo do teatro. Alguns anos depois quando as cores chegaram, não foram logo os primeiros filmes que souberam criar ambientes e cenas que se utilizassem das cores como elemento dentro de uma cena, ou de uma história. Na verdade no começo elas nem eram pensadas assim. Hoje em dia, existem pessoas que cuida única e exclusivamente daa cores do filme, o pessoal da fotografia.

Com os jogos vimos também isso acontecer a medida que as capacidades gráficas foram aumentando. Breath of Fire 3 e Final Fantasy VII, ambos RPGs de turno lançados para Playstation 1 em 1997. Enquanto Breath of Fire 3 vinha em 2d, sequindo por um caminho muito próximo daquilo que vinha sendo feito, usando timidamente as novas possibilidades em termos de hardware, Final Fantasy VII vinha inteiramente em 3D, introduzia as hoje obrigatórias cut-cenes e abraçava a nova tecnologia, usando ela para ir um passo além do que já se tinha feito até então. Como sabemos, depois Final Fantasy VII, os RPGs nunca mais foram os mesmos.Outros exemplos da mesma época são como Super Mario 64 recriou o gênero de plataforma, ou The Legend of Zelda: Ocarina of Time o gênero RPG de ação, ou Metal Gear Solid e os jogos de espionagem, ou ainda o primeiro Resident Evil e o os jogos de terror. Poderíamos citar uma porção de exemplos, mas acho que vocês já entenderam a idéia.


Breath of Fire 3 – RPG, lançado em 1997 para Playstation 1

Final Fantasy VII – RPG, lançado também em 1997 para Playstation 1

O Wii está aí, lançado, com um bom tempo de vida e apesar de já termos vistos coisas boas, ainda não vimos a revolução, ainda não vimos todas as possibilidades que o controle oferece serem realizadas. Devemos reconhecer jogos como Metroid 3, a última edição de Wining Eleven, Mario Galaxy, o próprio Wii Sports, mas a maioria dos jogos lançados para o console vêm daquelas cabeças que só conseguem reproduzir coisas já feitas sem pensar em um jogo levando em conta a nova interface desde a primeira concepção. A impressão que temos é que as idéias nascem da mesma forma que e depois dá-se um jeito de se socar o conceito dentro do formato do Wii.

O console continua sendo o mais vendido, esgotado em todo o mundo, mas a falta de jogos que realmente mostrem o que essa nova interface é capaz de fazer, mostra a necessidade de uma reformulação da própria indústria dos jogos. Essa reformulação já está ocorrendo em alguns aspectos, não só com essa história de jogos casuais, mas buscando novas formas de contar as histórias, tornando os jogos cada vez mais cinematográficos, e fazendo parceirias com a indústria da música e do cinema. A revolução que o controle de movimentos do Wii trouxe veio para ficar, mesmo que essa revolução ainda não tenha se realizado como poderia. É provável que ainda leve mais algum tempo para que possamos ver os resultados disso, da mesma forma que foram precisos muitos anos para que o som e as cores do cinema se tornassem tão importantes como hoje são. Eu só espero que não ter que esperar até a próxima geração enquanto somos obrigados a nos contentar com ports mal feitos e uma inundação de jogos casuais genéricos.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s

%d bloggers like this: