Batman – O Cavaleiro das Trevas

É engraçado como acontece com frequência de algo que as pessoas julgavam mal, ou não davam qualquer crédito acabar se tornando algo gradioso, o centro das atenções, a salvação de uma era. Até mais ou menos a metade dos anos 80, os quadrinhos eram vistos como algo infantil, voltado para um público especifico, um mercado limitado de onde não seria possível extrair mais. Essa imagem começou a mudar quando algumas publicações nessa época passaram a tratar das histórias e dos persongens com mais profundidade, tentando ir além do super-herói bonitão que consegue fazer tudo, das coisas sempre dando certo e dos mundos onde tudo é perfeitamente belo e seguro. Uma das publicações responsáveis por trazer essa nova visão tinha o nome de “The Dark Knight Returns” e contava os últimos dias da vida do Batman. O nome original de “Batman – O cavaleiro das trevas” é “The Dark Knight” e de certa forma esse filme tenta fazer pelos filmes de quadrinhos o que seu “primo de nome” ajudou a fazer pelos quadrinhos e se formos analisar pela bilheteria, parece que ele conseguiu.

Primeiramente, vamos falar dos aspectos técnicos e eles são bons. Christopher Nolan é um diretor talentoso, só precisa ver mais filmes de ação e tomar mais cuidado com a montagem das cenas desse tipo, já que não é legal um personagem atirar para um lado e a câmera no take seguinte mostrar o tiro indo pro outro. Em comparação com “Batman Begins” existe uma evolução visível, tanto na composição da cidade que dessa vez é uma cidade mesmo e não um beco sujo com iluminação de bar noturno, quanto na desenvoltura dos personagens. “O Cavaleiro das Trevas” é nitidamente um filme melhor, inclusive no roteiro, escrito dessa vez pelo diretor e por seu irmão Jonatan Nolan. Dito isso, podemos ir em frente.


– Senhor, porque estamos olhando pro lado com cara de “você peidou, né seu putinho?”
– Eu não sei, eu sou o batman, sou um cara complicado…

Geralmente quando falam demais de uma coisa, ou fazem muita propaganda é importante manter certo ceticismo. Esse filme foi muito comentado, falaram isso, aquilo, atores pra ganhar oscar, cenas de ação isso, história aquilo e tudo mais, mas e agora? No final o filme faz jus aos elogios que recebeu, mas não é perfeito e de alguma forma tem algo estranho com ele.

Existe sim uma postura diferente na maneira de se contar uma história de super herói, existe uma cidade de verdade, existe uma tentativa de crítica por trás do roteiro, existe uma imagem de vilão e de super herói que vai além de uma máscara ou uma roupa colorida, existe uma história em quadrinhos que pode ser apreciada por qualquer pessoa que goste de um filme de ação e aventura. Sò que ao mesmo tempo, ao lado de tudo isso, o filme aceita se vender, aceita fazer o chamado “fan-service”.


Aaron Eckhart, como o promotor Harvey Dent, o Duas Caras
– Ai, cadê a morcega que não aparece, to com uma saudade dela!

É claro que isso não é tão ruim já que um filme deve ser divertido, deve entreter, deve dar o que o público espera. O problema é que ao fazer isso parte da alma do filme se perde, ele passa a ser uma realização comercial e não uma realização artística. Como eu disse existe arte, existe aquele tratamento dado as coisas, mas tudo é devidamente escondido e tímido para que uma pessoa comum assista ao filme, veja tudo explodindo e não perceba nada, não se sinta verdadeiramente questionado, não pegue mensagem nenhuma, termine o filme com a impressão de que é só mais um filme de revista em quadrinhos. Esses problemas de tornar tudo comercial acaba provocando algumas contradições e momentos onde somos lembrados que esse é um filme de super herói e não apenas um filme que conta uma história sobre um cara que quer salvar a sua cidade com as próprias mãos. É um filme bom, realmente acima da média e de qualquer adaptação de super herói já feita para o cinema, mas com grande tendência a ser só isso.

Sobre o tão comentado Coringa de Heath Ledger, se no filme de 1989 tínhamos um Coringa inteligente que era louco, aqui temos algo mais próximo de um maníaco parente do Jack Sparrow. São tipos diferentes, são opções diferentes e se pensarmos dentro do que é esse filme, algo mais aparentemente profundo do que algo profundo de fato, é a escolha certa. Com relação a atuação do ator australiano, é sim uma boa atuação, mas que perde em naturalidade em alguns momentos, falta tom e talvez porque as frases mais fortes dele já terem sido colocadas nos trailers quando elas aparecem no filme seu impacto é menor e pode até parecer deslocado, mas é bem provável que isso tenha sido muito mais uma opção do diretor do que do ator.


Heath Ledger, como Coringa e Gary Oldman como Jim Gordon

A proposta de fazer um filme baseado em quadrinhos mostrar que ele pode dizer mais e ir mais além é cumprida. Esse é um filme bom, que aponta para uma direção nova, que deixa o “Homem de Ferro” e o novo “Hulk” com vergonha, mas que não se importa se tiver que se contradizer ou desfarçar as coisas se a crítica de seu roteiro se tornar pesada demais. Um filme bom para os dias hoje, mas que está mais preocupado em ser um sucesso comercial do que uma realização artística que quer mesmo dizer o que aparenta dizer.

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