Além de escrever opiniões idiotas, contos, mentiras, desabafos dignos de vergonha alheia por aqui e de postar desenhos e rabiscos por ali, eu também cuido do site everyday1music. Lá, eu posto uma música por dia e todo dia 10 de cada mês eu posto por lá (e também aqui) uma lista com as músicas do último mês.

Segue abaixo a lista deste mês. Pra escutar, é só clicar.

| 01.abr – ♫ Naguetta – Salve a quebrada
| 02.abr – ♫ The Growlers – City Club
| 03.abr – ♫ Peach Pit – Being So Normal
| 04.abr – ♬ Dope Lemon – Uptown Folks  3ª mais ouvida 
| 05.abr – ♫ The Jungle Giants – Creepy Cool
| 06.abr – ♬ The Strypes – Hard To Say No  4ª mais ouvida 
| 07.abr – ♫ Ruby Cube – Lobsters & Cherries
| 08.abr – ♫ MOXINE – About Us  5ª mais ouvida 
| 09.abr – ♪♪ Pillowfight – Lonely City  2ª mais ouvida 
| 11.abr – ♬ Motorama – Alps
| 12.abr – ♬ VANT – Peace and Love
| 13.abr – ♫ The Academic – Sometimes
| 14.abr – ♫ Drgn King – St. Toms
| 15.abr – ♫ Pascal Pinon – Somewhere
| 16.abr – ♫ Johnny Marr – The Tracers
| 17.abr – ♫ Woodpigeon – Now You Like Me How
| 18.abr – ♫ Garbage – Empty
| 19.abr – ♫ Jarvis Cocker – I Never Said I Was Deep
| 20.abr – ♫ Hollis Brown – Wait For Me Virginia
| 21.abr – ♬ My Chemical Romance – Desolation row
| 22.abr – ♫ The Traveling Wilburys – Not Alone Any More
| 23.abr – ♫ tUnE-yArDs – Water Fountain
| 24.abr – ♫ The Mary Onettes – Your Place
| 25.abr – ♫ OutKast – Ms. Jackson
| 26.abr – ♪ Wild Nothing – Only Heather
| 27.abr – ♫ Joe 90 – Blurred
| 28.abr – ♫ The Revivalists – Amber  A mais ouvida 
| 29.abr – ♬ Silver Sun – There Goes Summer
| 30.abr – ♫ The Spinners – Rubberband Man

“Mentiras explicativas” é quando venho aqui pra contar mentiras que importam, explicam e revelam os mistérios do, abre aspas, universo, fecha aspas. Hoje, por exemplo…

Pra que serve o café?

Motivo 1 – O curto
Pra tirar o sono, temos sono, não podemos ter, não podemos, não pode, não é permitido, e, e, e zzzz zzzz zzz…

Motivo 2 – A história
Por volta do ano 1400 DC, o mundo era um lugar muito louco. Muito. Os barcos evoluindo, as armas evoluindo, a descoberta da importância de se tomar banho e — é claro — a descoberta de que é mais vantajoso vender coisas pra quem não fala sua língua do que simplesmente ir lá e matá-los.

Foi neste tempo, bem ali no pedaço do pálido ponto azul conhecido hoje como Yemen, que algo importante aconteceu. A seleção natural deu cor vermelha para as pequenas frutas de um conjunto de árvores não muito altas que crescia tímida e desimportante ao pé de uma montanha.

Por aqueles lados viva um certo pastor ovelhas e na noite anterior ao ocorrido uma certa ovelha de seu rebanho estava mais uma vez acordada. Ela era também vítima da tal seleção natural, tendo nascido diferente de suas demais irmãs e irmãos ovelhas.

Acontecia que durante a noite ela tinha problemas pra dormir. Ficava olhando o céu, as estrelas, sentindo o vento que vinha sabe-se lá de onde, passar por sua lã, lhe tocar como se fosse algo, como se fosse alguém, mas era apenas o próprio ar.

A ovelha achava isso muito curioso, o próprio ar vir, se movendo acelerado até se tornar algo que a podia tocar. Pensava quais outras forças invisíveis a podiam tocar. Achava confuso, mas aconchegante saber que o mundo tinha uma porção de mistérios que iam muito além de sua rotina de ovelha.

Gostava dos ventos, especialmente nas noites quentes que antecediam dias de frio. Nessas noites, o céu ficava limpo, sem nuvens para segurar o calor no dia seguinte. Dava pra ver o céu brilhar em mil luzes e mil cores, ali, no lugar entre o deserto e o não deserto, onde pouca coisa viva vivia e onde o vento vinha e acalmava o calor que sua própria lã lhe dava.

Seu gosto pela noite havia lhe cobrado um preço ao longo dos anos. Aquelas noites, aquelas boas e inesquecíveis noites, olhando as estrelas e o horizonte, pensando e imaginando o que mais poderia existir no mundo, além do rebanho, além do pastor, além da linha amarela do deserto e da linha verde da floresta, lhe forçaram os olhos. Hoje, já não enxergava tão bem. Da mesma forma, hoje, na manhã seguinte, já não conseguia ficar acordada com a mesma energia que tinha antes. O sono lhe abraçava durante todo o dia, vinha, e ela andava mais lenta e mais devagar que as outras ovelhas, que lhe julgavam e criticavam por saberem bem de seus hábitos noturnos.

“Tem que dormir, irmããããããã”

“É pro seu beeeeem, irmãããããã”

Ela não ligava. As noites valiam a dificuldade de ser como os outros no dia seguinte. Andar como os outros, ser como os outros, balir, comer, beber e esperar pela tosa. Ela não tentava convencer o resto do rebanho que a noite era algo bom, que era divertido ver o mundo que só acontecia depois que o sol se punha, que, além das estrelas e do vento, havia um silêncio que permitia que ela ouvisse seus próprios pensamentos e lhe fizesse pensar e ter ideias que ela nunca conseguiria ter se não estivesse lá.

O pastor era experiente e observador. Um dia depois do outro, foi notando que aquela certa ovelha parecia sempre estar mais lenta que as outras. Especialmente logo pela manhã. Notou também que isso não era um real problema, já que tudo que era esperado de uma ovelha, aquela certa ovelha fazia.

Os fios brancos na barba lhe traziam memórias que lhe serviam como apoio. O pastor sabia que nenhum animal era igual ao outro e que sempre haviam personalidades e variações de jeitos e humores. Ele se lembrava de um coelho que gostava de lhe dar sustos, o esperando escondido, quando via que ele se aproximava. Lembrava também de ouvir falar de um papagaio que não comia sementes de girassol e de um leão que dormia sempre de barriga pra cima. O pasto algumas vezes pensava que, de alguma forma, talvez os animais fossem só um outro tipo de pessoas.

No dia em questão, o pastor em questão, com o rebanho em questão, com a ovelha em questão, saíram para pastar — e sim— o fizeram ali perto de onde ficava o pé da montanha e o conjunto de árvores com frutas vermelhas.

O pastor nunca tinha se aproximado tanto do pé da montanha e daquelas árvores, mas naquele dia o vento estava mais forte e por bater no pé da montanha, se acumulava e criava um corredor mais fresco e indo por ele foi que o rebanho acabou mais perto daquelas árvores do que jamais estivera. Foi aí que o mesmo vento derrubou um galho de uma das árvores, deixando no chão um punhado das tais frutas vermelhas.

As ovelhas pastando em volta, olharam para as frutas vermelhas e não as reconheceram como algo que podia comer. Porém, aquela certa ovelha, a que ficava nas noites acordada, que durante o dia estava sempre cansada, por não enxergar tão bem, ao ver as frutas vermelhas, imaginou serem uvas. Aí, as lambeu e comeu.

O pastor estava distraído e levou um tempo até que percebesse o que ocorria. Quando se deu conta, foi até lá sem correr, pra não assustar as outras ovelhas. Viu que aquela certa ovelha já tinha comido uma boa quantidade das frutas. Ele sabia que aquela era a ovelha lenta e caso fosse preciso buscar algum remédio, levou algumas das frutas para mostrar a quem pudesse ajudá-lo, talvez alguém conhecesse aquela fruta.

No caminho de volta e pelo resto do dia ficou observando como a ovelha se comportava. Pensou no melhor, lembrou que as frutas venenosas eram famosas, que desde muito tempo as pessoas ensinavam umas para as outras o que fazia mal e aquela fruta ele não conhecia. Com certo alívio pode ver que ovelha estava bem e parecia inclusive mais animada e acelerada do que o normal.

Cortou a fruta ao meio e viu que ela era quase que toda apenas semente. Tinha um cheiro bom, uma espécie de amargo encorpado, misturado com madeira escura e algo mais que ele não soube definir.

No dia seguinte, a ovelha estava novamente lenta e o pastor deixou que fosse assim, ainda observando pra ter certeza se ela estava bem. No dia depois desse, ao ver que ela ainda estava lenta, deixou que ela comesse duas ou três daquelas frutas vermelhas e viu algum tempo depois como a ovelha parecia outra vez animada.

Na manhã seguinte, tendo levado algumas frutas pra casa, tentou comê-las para que ele ficasse também mais cheio de vida em seu dia. A fruta era amarga e a semente muito dura. Decidiu então tostar as sementes, como faziam com algumas castanhas, mas elas continuaram duras. Foi aí que decidiu tentar fazer um chá e esse chá escuro, num tom marrom, um com espuma clara, mudou sua vida e depois o mundo.

Ainda hoje, se confunde o segredo da energia do café com o real resultado de sua descoberta. O feito não foi apenas dar mais energia para as pessoas normais irem pro mundo com mais disposição. O feito que mudou tudo foi permitir às pessoas que, como a ovelha, ficavam até altas horas da noite, sem dormir, olhando pro mundo e pensando nas coisas, estarem ativas e presentes na sociedade nas manhãs seguintes de suas descobertas, teorias e raciocínios.

O café serve para ajudar as ideias que mudam o mundo a sair e circular por aí.

Não que eu queira me colocar como especialista de alguma coisa, mas não é muito difícil ver que vivemos numa época em que tudo que acontece é registrado como nunca foi em toda história (conhecida) desta humanidade. De tudo que é registrado, registramos também produções artísticas e no meio delas acabamos guardando para posteridade o que uma geração achava engraçado.

Nesse contexto, tirinhas, esses quadrinhos curtos que podem ser lidos em menos de 1 minuto são sempre um registro muito bom desse tipo de coisa. Os quadrinhos de Sarah Andersen fazem parte desse tipo de coisa, eles carregam um humor dos tempos de hoje, misturando os medos, anseios e incômodos dessa geração “jovem” dos dias e hoje.

Os quadrinhos dela falam sobre internet, sobre feminismo, sobre as decepções e dificuldades com o mundo adulto, sobre ser retraído num momento em que a internet uniu tantos retraídos e introvertidos que criou um mundo de piadas internas. Os quadrinhos falam sobre o choque de gerações, milenials contra babyboomers, além de medos e receios simples que muita gente tem.

Não acho que os quadrinhos dela sejam pra todo mundo, mas para as pessoas que acharem graça no que ela faz, acredito mesmo que a identificação vai ser bem grande. E apesar de ter muita piada que é do universo feminino, mesmo eu não sendo mulher dá pra entender (dentro do possível, claro), gostar e ter uma visão de como as coisas podem ser.

Aqui na terra Brasil saíram até agora duas coletâneas com os trabalhos dela. O primeiro chama “Ninguém vira adulto de verdade” e o segundo chama “Uma bolota molenga e feliz”. Lá em baixo tem os links, se você se interessar por comprar para si ou quem sabe assim dar de presente pra alguém.

A autora publica também tirinhas no seu twitter oficial em inglês e como eu acho que a melhor forma de divulgar trabalho dela e ver se você é o ou não o público, segue abaixo algumas tirinhas.

E aí se interessou? Segue o link pro twitter dela, onde ela posta novos quadrinhos 2 vezes por semana, aqui e pros livros lá na amazon, clicando nas imagens abaixo.



Os desenhos abaixo são da pessoa (falhei em descobrir se é um homem, mulher ou árvore) Choi Keun Hoon, lá da Coréia do Sul.

Pra ver mais desenhos desta criatura clique aqui.

O podcast indicado dessa vez é uma espécie de documentário investigativo. O que ele documenta e investiga é o desaparecimento para o mundo de Richard Simmons.

Dependendo da sua idade é possível que você não tenha a menor ideia de quem é esse cara, inclusive apenas pelo nome talvez você não lembre de ninguém, mas com certeza você já deve ter visto ele por aí fazendo pequenas aparições em filmes, sempre que tinha algum contexto o personagem fazer exercícios vendo um certo programa de TV com pessoas fazendo ginástica. Seja como for, saber quem ele é não vai afetar sua experiência de ouvir o o podcast.

O podcast tem 6 episódios de mais ou menos meia hora. Cada episódio constrói a história dele e especula quais seriam os motivos para ele um dia simplesmente parar de fazer as coisas que fazia e sumir pro mundo.

Acho bem legal como esse podcast é mais um desse exemplos de como essa mídia é versátil e pode ser usada pra vários tipos de histórias e coisas, combinando entrevistas, fluxos de pensamentos, criando uma narrativa que oferece uma experiência que é diferente de ler um livro ou ver um documentário na forma de filme.

Com relação ao conteúdo, é uma história interessante ver o recorte na personalidade e os motivos e inspirações dele pra fazer o que fez. acho que vale dizer que não concordo totalmente com algumas das posições que o “host” do podcast coloca, especialmente quando ele acha que existe uma espécie de responsabilidade perene quando alguém acaba sendo um pilar de motivação na vida de alguém.

Se você gosta de documentários que exploram os detalhes e mistérios de pessoas que fazem coisas que a maior parte das pessoas não faz e que conseguem tocar muitos com seu trabalho e ainda ganhar uns bons milhões de dólares no meio do caminho, possivelmente o podcast vai te interessar.

Segue abaixo o link para a página do podcast, mas se você preferir o podcast está também em seu aplicativo favorito.

Podcast: Missing Richard Simmons (em inglês)
| Link para os seis episódios

“Pessoas” é quando eu escrevo e posto por aqui um conto sobre uma pessoa que existe, ou que não existe, ou que eu não sei.

Pessoas: 18 — Ela que foi embora mais cedo

Ela dirige de volta pra casa. Os olhos estão quentes e a respiração pesada. É madrugada na cidade grande. Os vidros do carro estão abertos o suficiente pra que entre um vento gelado trazendo uma memória, um sentimento, algo que a coloque num outro dia. Ela tem vontade de chorar, mas não chora. Apenas dirige pela cidade quase vazia, indo embora cedo de uma festa que ainda ia durar até o dia amanhecer.

Ela pensa nas palavras das pessoas, nos comentários, no que vão dizer sobre como ela foi embora cedo, como ela já não faz mais parte da família, sobre como ela isso e aquilo.

Ela não se importa ao mesmo tempo em que se importa. Não é uma questão de ser bem vinda, é um desejo de poder ser ela mesma sem que isso magoe os outros.

A festa era o casamento de uma prima. A relação das duas não encaixa na classificação simples de quando as pessoas contam as coisas, não é só dizer que são próximas ou não. O tempo modifica as relações, altera os pesos e as importâncias. É mais complexo do que o que as pessoas estão dispostas a contar quando se colocam pra falar sobre suas relações com os outros.

Ela está feliz pela prima, fica contente que ela possa celebrar as conquistas e alegrias dela. Aqueles anos de infância e começo de adolescência criaram um laço de afeto que perdura mesmo hoje quando ela não sabia nem ao certo qual era mesmo o nome do noivo da prima até ler o convite. Não há um sentimento falso ou ruim, mas durante todo o tempo em que esteve lá, ela só queria ir embora.

O vento gelado faz ela se acalmar por alguns segundos, até sua memória associar algo que ela vê nas ruas que passam com algo que estava na festa e o fluxo de pensamentos voltar e levar ela de volta pra lá.

Havia algo bom em reencontrar pessoas que há muito tempo não via. Muitas pessoas da família. Alguns amigos em comum. Existe uma certa chama de intenção, de desejo de querer saber como estão aquelas pessoas que — da mesma forma que a prima — durante um tempo foram tão presentes e tão importantes em sua vida.

Ela cumprimenta, fala e sorri. Faz o que tem que ser feito. Finge sorrisos e risadas ensaiadas. Ela acredita que ninguém perceba e a verdade é que a maioria das pessoas realmente não percebe. O reencontro depois de tanto tempo não refaz as ligações e basta trocar duas ou três frases pra entender porque as pessoas se afastam, seguindo seus próprios caminhos. A ligação tentada é genuína, mas não é possível forçar uma identificação, ou uma ligação, ou esse algo que ela sente que a alma humana pede a medida que o tempo passava e ela envelhece.

Fazia tempo que não reencontrava todas aquelas pessoas e, ali, agora, do alto dos seus trinta anos, solteira e preocupada com contas e outras idiotices, o evento lhe trazia um sentimento ruim. Ela tinha visto cada uma daquelas pessoas crescerem nos últimos trinta anos. Tinha visto desde quando as pessoas eram promessas e possibilidades até se tornarem o que hoje eram. Pensava nos espertos, nos engraçados, nos de pouca vergonha, nos tímidos e como isso serviu e não serviu pra nada na história de cada um.

Era meio pesado ver a realidade das histórias depois dos anos. Ver as rugas nos rostos, os quilos a mais, saber dos divórcios, dos namoros, dos problemas, das escolhas. Não era tudo ruim e ela não era cega pra isso. Haviam coisas boas, haviam aqueles que tinham ido e feito e realizado e sido. Mas lhe chamava muito mais a atenção as coisas ruins, os que não foram, os que ficaram pelo caminho, os que como ela ainda não tinham se achado, sendo eles mais velhos ou mais novos. Havia luz, mas era inegável que os não eram maiores que os sim. A vida é foda, as coisas são foda, o mesmo papo besta repetitivo e derrotista de sempre. O país, o azar, a economia, as heranças hereditárias e psicológicas, o marco zero de onde cada um teve que partir pra estar onde estava, carregando o que teve que carregar pra chegar onde conseguiu chegar.

No farol vermelho ela olha pro dedo, pro anel de pedra azul, que escolheu combinando com o vestido. Ela lembra da aliança, do seu dedo sem ela e lembra de como doeu ver o ritual religioso mais uma vez. Ela não tem religião, mas não julga os que tem, seu conflito é outro. A conversa do pai, da mãe, do legado, do pai que entrega a filha, do marido que busca e promete cuidar. Pensou em seus pais, em seus valores, em como talvez, mesmo que achasse um príncipe encantado, que uma cerimônia como aquela não era algo pra ela. Alívio e culpa lhe pintavam o coração. Uma camada sombria de pensamentos lhe fazia desacreditar nas promessas, nas juras de amor, na necessidade de perante tanta gente, diante de uma festa tão grande e tão cheia de símbolos e promessas, jurar que se amavam e que ficariam juntos. Na doença e da saúde, na alegria e na tristeza.

Um ar talvez de maturidade, ela argumentava consigo mesma, era o que a fazia ver pela primeira vez o valor dessas duas frases. Ter de fato alguém do lado que fosse mesmo uma companhia, uma escolha, um compromisso, alguém que iria estar na doença e na saúde, na alegria e na tristeza, essa era mesmo uma necessidade da alma humana, uma necessidade que ela mesma tinha e, justamente por ter, achava tola e incomoda qualquer outra relação e conexão forçada que tivesse como objetivo entreter e distrair os verdadeiros anseios da alma, pra ver o tempo passar logo.

Quando chegou em ser apartamento, viu em seu celular uma mensagem de seu pai, dizendo que todos estavam perguntando por ela. Ela responde em uma mensagem, que teve até ser enviada cinco versões. A primeira dizia a verdade, a segunda, dizia a verdade de forma mais simples, a terceira misturava a verdade com o que era socialmente aceitável, a quarta era socialmente aceitável com pontas de verdade ocultas e indiretas, a quinta, a enviada, dava uma desculpa aceitável, que a livrava dos julgamentos, causava compaixão e lhe permitia simplesmente ir embora, porque ir embora era o que ela precisava. Ironicamente, a frase tinha em parte uma verdade.

“Alguma coisa me deu dor de barriga :P”

Além de escrever opiniões idiotas, contos, mentiras, desabafos dignos de vergonha alheia por aqui e de postar desenhos e rabiscos por ali, eu também cuido do site everyday1music. Lá, eu posto uma música por dia e todo dia 10 de cada mês eu posto por lá (e também aqui) uma lista com as músicas do último mês.

Segue abaixo a lista deste mês. Pra escutar, é só clicar na canção da sua escolha.

\01 – ♫ The Bohicas – I Do It For Your Love
\02 – ♫ Supergrass – Grace
\03 – ♫ Toro y Moi – Still Sound
\04 – ♫ Sløtface – Magazine  2ª mais ouvida 
\05 – ♫ Oh Wonder – Dazzle
\06 – ♫ Peach Pit – Drop The Guillotine  3ª mais ouvida 
\07 – ♫ Feldberg – Dreamin’
\08 – ♫ MOXINE – Electric Kiss
\09 – ♬ Hercules & Love Affair – Blind
\11 – ♫ Peter McConnell – Mog Chothra (Broken Age OST)
\12 – ♫ Said The Whale – This City’s A Mess
\13 – ♫ The Jungle Giants – Feel The Way I Do
\14 – ♫ Weezer – Say It Ain’t So
\15 – ♫ Klaxons – It’s Not Over Yet  4ª mais ouvida 
\16 – ♬ The Night Marchers – Closed For Inventory
\17 – ♬ FIDLAR – No Waves
\18 – ♫ Drgn King – Undertow
\19 – ♫ The Beatles – Help!
\20 – ♫ The Cure – Boys Don’t Cry
\21 – ♬ blink–182 – Down
\22 – ♫ Motorama – Northern Seaside  A mais ouvida 
\23 – ♫ Red Hot Chili Peppers – Breaking The Girl
\24 – ♫ Staind – Its Been A While
\25 – ♫ Chevelle – The Red
\26 – ♫ Leon Else feat. Oliver – The City Don’t Care
\27 – ♫ Eels – The Deconstruction
\28 – ♫ Dingo Bells – Dinossauros
\29 – ♫ Blossoms – At Most A Kiss
\30 – ♬ Drenge – We Can Do What We Want  5ª mais ouvida 
\31 – ♫ VANT – Parking lot

“Mentiras explicativas” é quando venho aqui pra contar mentiras que importam, explicam e revelam os mistérios “dos universo”. Hoje, por exemplo…

Porque quanto mais velha a pessoa menos ela precisa dormir?

Motivo 1 – O curto
Porque aprendem a dormir melhor com a prática dos anos.

Motivo 2 – A história
Nascer é um processo bastante complicado e cheio de possíveis repercussões e desdobramentos que vão muito além da vida do indivíduo que nasce ou daqueles ali em volta dele, batendo palma e comendo bolo. Qualquer vida tem o potencial de canalizar ideias, de sair por aí falando coisas, convencendo os outros de absurdos e despropósitos, que podem colocar em risco o projeto planeta Terra como um todo.

Por esse motivo, criou-se o mecanismo do espalhamento da centelha de vida. Funciona assim, cada vida que nasce não nasce só como um ser humano cabeçudo. Sinto se isso lhe ofende, mas é um fato matemático que, analisadas, de forma isenta de paixão, as proporções de um bebê deixam claro que ele é cabeçudo. Prosseguindo, cada vida que nasce, nasce também espelhada pelo mundo em vários pontos, em diversas formas.

Cada vida inserida no Sistema Planeta Terra é dividida de forma igual e depositada em todos que estiverem nascendo naquele mesmo momento, com uma precisão que tende ao infinito. Assim sendo, a mesma centelha de vida habitará criaturas da floresta, peixes no fundo do mar, aves, bodes selvagens, plantas, insetos, bactérias e seres humanos.

Cada criatura é única em sua forma de ser e nas experiências que vai ter entre o dia que nasce e o dia em que morre. A morte é um fator importante porque ela é um elemento variável em cada uma das criaturas. Descontando as mortes por acidentes e os acasos, é um fato que certas criaturas vivem mais tempo do que outras e isso trás uma série de efeitos colaterais de alta importância. Ter a mesma vida espalhada por todo planeta e em diversas criaturas que vão morrendo aqui e ali afetam o processo como um todo.

Por exemplo, é por isso que crianças são dotadas de uma alegria e uma energia que se perde com os anos. Elas são de fato mais cheias de vida. São também conectadas de uma forma diferente com o mundo, muitas vezes dotadas de uma capacidade de espontaneidade, sabedoria e paz de espírito, que a maioria dos seres humanos nunca mais vai ser capaz de alcançar na vida.

Existem pontos de flutuação no sistema. Algumas vezes pode acontecer de um número muito pouco de nascimentos acontecer em um dado instante, isso faz com que uma determinada vida seja espalhada menos em cada uma das formas de vida que a recebem. Você talvez já teve a oportunidade de cruzar com pessoas que tem essa vida extra por aí, certas criaturas dotadas de uma jovialidade e uma energia pra fazer, diferente de todo o resto. Peço que coloque de lado seu egocentrismo humano e veja que isso vale para gatos, orquídeas e até aquele passarinho que canta mais alto quando amanhece o dia. Nesses casos, para evitar que uma criatura com poderes divinos nasça, o mundo foi projetado para ter uma quantidade imensa de criaturas minúsculas que vivem muito pouco. Por isso temos por aí tantas bactérias, algas unicelulares e insetos.

Quando tiver tempo, repare nesses insetos que vivem uma semana e veja como se movem depressa, como saltam e andam e voam.

Voltando ao exemplo do bebe, já que o egocentrismo é boa estratégia para prender a atenção e extender a conversa. Bebes, especialmente recém nascidos, dormem muito e precisam dormir o tanto que dormem porque dormir está relacionado a processar tudo o que as outras partes daquela vida enviam para aquela vida que dorme. Enquanto ele dorme, ele literalmente está aprendendo sobre o mundo.

Os velhos, por outro lado, são o oposto. As partes da vida dele já morreram quase todas. Algumas vezes até todas. Você já deve ter conhecido por aí algum velho completamente desconectado com o mundo. Por isso eles dormem menos, porque não precisam, porque o aprender sobre o mundo e a vida passa a estar mais focado nas próprias experiências dele, nas coisas que ele carregou e viveu até chegar onde está.

Algumas vezes, num desses casos ritmados no improviso das regras, um mesmo velho, ou velha — por favor, não se ofenda — consegue ter sua vida ainda espalhada pelo mundo em formas de vida que vivem mais que um ser humano. Encontrar uma dessas pessoas é sempre uma experiência fascinante, ver os olhos iluminados, a lucidez, a sabedoria, alguém que é, como dizem “apesar da idade”, assim “tão cheio de vida”.

Às vezes, fico pensando nas árvores de quase mil anos de idade e o que elas teriam pra dizer se pudessem falar.

A experiência de assistir Jogador Número 1 no cinema foi divertida pelo espetáculo visual. As mais de duas horas do filme fluíram bem, com a história sendo levada num ritmo divertido, leve, de aventura. Mas, saindo do cinema, eu não estava contente. Eu conhecia o livro, inclusive nem sou desses que acha que é o melhor livro do mundo, sabia dos problemas e qualidades que ele tinha. Acho que o que me incomodou foi ver como todo um mundo, uma ideia, uma historia, se tornou outra coisa, com outra mensagem, com outros valores. E o que me incomoda mais é ver que a mensagem do filme, que no final é a que vai ser mais conhecida, é bem imbecil.

Por algum motivo tenho ouvido as pessoas se referenciar ao filme como tendo a ver com a cultura do “verdadeiro fã”, do filme ser uma “orgia de referências”, de ser uma “punhetação pra esses nerd aí do videogame e das coisa”. Nem nego que algo assim exista no filme, mas mesmo dentro dele isso fica em segundo plano. O problema é que o filme não faz um bom trabalho em construir o mundo onde a história se passa, ele não mostra como o mundo está todo fodido, nem discute as implicações disso. O filme não explica direito como a própria tecnologia da realidade virtual funciona, entregando inclusive cenas ridículas das pessoas usando os óculos e correndo pelas ruas como idiotas, ou usando termos que não foram apresentados dentro do filme, ou mostrando as leis da física afetando o jogo apenas quando convém.

Tudo isso me dá uma impressão de que a coisa toda foi feita sem coração, sem entender a verdadeira história que estava ali e a verdadeira história não é sobre “ser foda pra caralho porque eu sei umas parada de jogos e filmes e a vida desse cara aqui que é meu ídolo”, a história é sobre alguém que fez algo importante pro mundo e que sabe que precisa deixar pra pessoa certa a tarefa de cuidar do que ele construiu, porque as consequências podem ser muito grandes pra própria criação e pro próprio mundo.

No livro existe uma busca por entender as coisas que o criador do tal mundo virtual OASIS gostava não no sentido de se tornar uma enciclopédia dos anos 80, mas de ter as referências, de ter os valores e carregar isso. No livro a maneira que os desafios acontecem e que os personagens se desenvolvem é diferente, a idade deles é diferente, o que eles tem em jogo é diferente, a porta de acesso pro mundo é diferente. No livro existe falha, existe briga, existe um arco de desenvolvimento e não um herói que desde o começo está destinado a vencer, com amigos que estão ali pra ele usar de escada.

Outra coisa que me incomodou em como o mundo foi construído que é diferente do livro é como a vida das pessoas é diferente, como o dia a dia é diferente, porque o mundo está mesmo fodido, porque as grandes corporações tomaram conta de tudo. A empresa do mal super vilã estúpida de filme infantil do filme no livro tem outra cara, algo muito mais pesado e distópico, com paralelos que podem se aplicar a empresas como o Google, a Microsoft, a Apple, a Amazon e que papel e aspirações essas empresas podem vir a ter no futuro.

Acho que as chances de ver uma outra adaptação desse livro é muito pequena. Ele fala de um futuro não muito distante e de um futuro que muito possivelmente pode nos ser bastante familiar, então a janela de tempo pra contar essa história, antes dos óculos de realidade virtual invadirem nossas vidas é bem pequena. Existia no livro um potencial de contar uma história que seria uma aventura, que teria a diversão e as referências todas, mas que teria também um valor, uma mensagem, um vislumbre de como as coisas podem ser, com um paralelo de porque a cultura pop é importante.

Me repetindo sem me importar, a cultura pop é importante porque se eu faço referências a certos jogos, músicas e filmes, se faço piadas com isso aquilo, se demonstro que gosto disso ou daquilo, isso fala sobre a minha personalidade. Mais do que isso, algumas experiências da cultura pop podem mesmo ajudar a criar uma personalidade, a formar uma visão de mundo e essa é uma mensagem muito mais relevante. No filme, existem mil personagens, mil coisas, não porque é pra que algum idiota pause as cenas segundo a segundo e aponte o quando ele é uma enciclopédia, mas porque aquele é um mundo virtual onde as pessoas podem ser quem quiserem e algumas pessoas gostam tanto de certos personagens e coisas do mundo pop que escolheriam ser aquele personagem, e isso é muito mais relevante do que discutir por exemplo que “o Gigante de ferro é usado de forma incoerente com o personagem Gigante de ferro”, porque afinal ele não é o gigante de ferro, é só a carcaça, é só a aparência, é só a imagem.

É foda ver que o filme tem muita gente talentosa envolvida, as cenas de ação e o CG é mesmo muito bem feito, muita gente colocou o coração pra produzir tudo aquilo. Mas um filme é um conjunto e a parte principal é a história e a história desse filme é vazia e boba, quando poderia ser muito mais.

Resumindo, se você gosta de um bom espetáculo visual, você vai se divertir com o filme. Se você gosta de uma história e tem imaginação o suficiente, vá atrás do livro, ele tem defeitos, tem problemas, mas vale muito mais a pena investir seu tempo nele do que neste filme.

E agora, vai lá em cima e repara o comprimento da perna do personagem no poster. Reparou? Pois é. Pois é. Pois pé.

|| link pra comprar o livro, clicando nas imagens:

Os desenhos abaixo são de Rebeca Puebla, lá da Espanha.

Pra ver mais desenhos dela, você pode segui-la lá no instagram.