Em junho de 2013 um aumento da passagem de ônibus em São Paulo acabou gerando um efeito dominó que causou uma série de protestos e discuções políticas a respeito de quem o Brasil era, de como seu povo se sentia e como queria ser e sentir.

O documentário abaixo registra, na medida do possível, o que aconteceu durante aqueles dias. Lembrei desse documentário por causa da greve dos caminhoneiros.

Acho curioso ver como as coisas não se resolveram, como os políticios continuam despreparados e desrespeitosos e como as pessoas continuam carregando uma insatisfação grande com tudo que não consegue ter unidade o suficiente pra virar de verdade uma idelogia.

The Fall é um desses jogos indies feitos com talento, que consegue equilibrar a falta de recurso com estilo pra criar um tipo de jogo que não é tão comum de ser feito hoje em dia, ao mesmo tempo em que atualiza conceitos e faz algo próprio no processo.

Desenvolvido pelo estúdio Over The Moon, esse é um jogo de ação e exploração 2D, com gráficos em 3D que mistura conceitos de metroidvania, com puzzle, um pitada daqueles adventure point-click, embalado num sci-fi suspense, escuro quase terror, que lembra alien.

Não é um jogo um jogo longo e grande parte da diversão dele está na narrativa. A maneira que a história começa e vai se desenrolando e como os personagens que surgem vão interagindo com você. Os personagens são dublados e os diálogos bem escritos, com ritmo legal, conseguindo conduzir a história sem ser enfadonho ou ficar com explicações e direcionamentos duros.

A direção de arte também é bem legal, brincando naquele estilo dos filmes da série Alien, com tecnologias ultra futurísticas que ao mesmo tempo tem interfaces com terminais de texto.

Esse jogo é a primeira parte de uma trilogia. A segunda parte já está disponível e a última deve sair no começo do ano que vem.

Até onde eu vi a segunda parte não fez “os críticos” muito felizes, mas sei lá também, as pessoas constumam ser muito chatas com tudo, ainda mais hoje em dia que tem um jogo bom sendo lançado no steam a cada 30 segundos. Pretendo jogar a parte 2, assim que tiver uma boa promoção XD.

The Fall está disponível para Windows, Mac OS X, Linux, Wii U, Nintendo Switch, PlayStation 4 e Xbox One.

O podcast indicado de hoje é uma série de episódios do podcast Freakonomics Radio.

É uma série onde eles entrevistam e analisam CEOs de grandes empresas, tipo Microsoft, Pepsi, Facebook e outros. Vale a pena tanto as entrevistas em si quanto os programas que tentam traçar paralelos entre as pessoas e suas histórias.

Pra ouvir é só buscar o freakonomics no seu aplicativo de podcast favorito, mas se você preferir ouvir direto no navegador, tem um link direto já pros essa série, clicando aqui, ou na imagem abaixo.

“Pessoas” é quando eu escrevo e posto por aqui um conto sobre uma pessoa que não existe.

Pessoas: 20 — Ela que colocou fogo

Ela só se deu conta do que tinha feito depois de deixar de sentir o palito de fósforo em seus dedos e passar a sentir o calor dos papéis queimando. Uma pilha de memórias acesas, sendo desfeitas numa noite fria, no pequeno quintal da casa de seus pais.

A irmã pequena olha pra ela sem entender muito bem o que acontece, mas ajuda a irmã mais velha conforme ela pede, passando os cadernos e papéis que ela joga na pequena fogueira que continua queimando. Existe algo hipnótico no fogo, existe um aconchego vindo do calor. Existe um ar de fantasia por ela ser capaz de ainda ler algumas palavras dos papéis que queimam, reconhecendo a própria letra e o trecho que aos poucos se consome no calor.

Ela está queimando seus diários. É um ritual. É um ritual que ela inventou pra ela própria. Um ritual de passagem. Ela quer deixar pra trás aqueles anos e aquelas pessoas. Mais do que os anos e as pessoas, ela quer deixar pra trás ela mesma e as reflexões e inseguranças que tinha registrado naqueles cadernos agora queimando.

Aqueles cadernos pesavam em quem ela era. Como se existisse uma ligação com aquele personagem que ia além do mero relato das coisas que aconteceram. Ter ali escrito os pensamentos e as histórias criava uma camada de vaidade, de reverência, uma solidez artificial. A forma escrita fazia com que ela desse mais importância para aquilo tudo do que aquilo tudo merecia. As conquistas eram maiores e as depressões também, simplesmente porque estavam escritas.

Não ajudava também ela ter o hábito de voltar para ler as coisas que tinha escrito de tempos em tempos. Sentia algumas vezes uma certa satisfação por se ver com problemas e coisas, por ver que a sua história ali escrita descrevia um personagem do qual as pessoas deveriam ter pena e apresso. Ora, olha só como ela sofre. Ora, olha só como ela só tinha a melhor das intenções. Ora, olha só como ela é cheia de sonhos e como o mundo é ruim pra ela. Era uma idiotice auto alimentada. Uma masturbação involuntária. Um masoquismo afirmativo, velado, feito escondido, secreto no caderno que só ela iria ler depois e depois.

Aqueles diários não eram cheios de mentiras. Quando ela escrevia, registrava o que tinha acontecido. A ideia era contar para alguém que não fosse lhe julgar tudo que passava em sua cabeça. Ela não mudava as coisas. Ela não omitia. Ainda assim todo o relato era contaminado por algo mais profundo, mais fundamental. A sua visão das coisas lhe limitava a percepção. Sua imaturidade daqueles anos lhe deixou como herança relatos de histórias que não aconteceram com a importância ou a intensidade que aquelas palavras tinham. O personagem que ela era naquelas histórias não era saudável, nem era real.

Agora, no parapeito do salto para a vida adulta, olhava pra trás, pros diários da sua adolescência, entendendo o quanto eram pequenas e desimportantes aqueles medos e aquelas coisas. Ela não sabia o que deveria vir depois, ela só sabia que aquilo tudo estava errado, que as coisas não eram daquele jeito e que ela precisava ser livre de ser o personagem que ela tinha criado naqueles cadernos.

A irmã dela entrega o último caderno e ele queima como os outros queimaram. Não queima diferente por ser o último. Não brilha mais forte por ser o mais antigo de todos. Queima igual, se desfaz igual, apesar dela esperar um vento diferente que crie uma forma diferente no fogo, algo que faça daquele momento algo especial, memorável, heróico, algo como um momento de virada numa história, a história dela mesma, que ela continua a escrever mesmo que não escreva mais em nenhum caderno.

— Essas fotos que você fala, porque elas são importantes?
— Não sei se são importantes.
— Você fala de um jeito que faz parecer como se elas fossem.
— Não são as fotos em si, é o que elas registram mesmo.
— Que seria o que?
— Algo que existia e que não existe mais.
— Isso é o que todas as fotos fazem.
— Ha-Ha, que piadista. Ha. Não é isso, é como se fosse uma sequência de coisas que aconteceram e ali naquelas fotos existe um momento em que as coisas ainda não tinham desmoronado e nem que pareciam que iriam desmoronar. Como se em algum momento, ali, naquele dia, naquela hora, o futuro não tivesse escrito ainda, pelo menos não o futuro que aconteceu depois.
— Ainda assim, qualquer foto tem isso. Você pode tirar uma foto de você agora, com todas as suas certezas do momento presente e todas as expectativas e projetos pretensiosos ou não sobre o que você quer para o seu futuro. Você pode tentar construir a sequência de eventos, a medida que o futuro ficar mais longe, menos capaz você vai ser de dizer com certeza tudo que vai acontecer.
— Mais ou menos, eu posso escrever, transformar em história.
— Vai ser só uma história, não vai ser vida real. Nenhuma história consegue ser vida real.
— Mesmo assim, o ponto não é prever o futuro, não me incomodar pelo que aconteceu, é o sentimento de que existia um momento em que as encruzilhadas eram outras. Existiu um momento em que as escolhas eram outras.
— Isso é um daqueles sentimentos do tipo “os melhores anos da minha vida ficaram pra trás”?
— Não, não tem a ver com isso. Eu acho até que hoje eu vivo uma vida mais feliz, menos babaca, que eu como pessoa aprendi coisas e tudo mais.
— Então…?
— Então, sei lá. É complicado. Havia algo mais simples. Um caminho de sonhos mais simples, uma felicidade mais inocente e suficiente. Hoje as coisas endureceram, as coisas aconteceram e tudo tem um vel de caos. Eu queria ser capaz de cortar aquele sentimento, extrair ele daquela foto, daquela memória e inserir ele aqui, no presente, ter aqui e agora aqueles dias de sol, de amor, de descoberta, sem ter que ter depois o que veio depois e sem perder hoje as coisas de hoje.
— Recriar memórias não dá certo. Tentar reviver o que já foi não só fica falso como não funciona igual. As coisas, qualquer coisa, só acontece uma vez. Dá pra ser melhor. Dá pra ser pior. Dá pra ser quase igual. Igual não dá. Por exemplo, sei lá, já tentou levar a namorada atual num legal que a anterior gostava, ou mesmo num lugar que você gostava de ir sozinho ou com amigos? Quase sempre não dá certo e quando dá te dá também um gosto ruim na boca, por causa da mentira, da emulação, da tentativa de fazer as coisas serem outra coisa, como se a coisa nova não fosse o bastante.
— E se a coisa nova não for mesmo o bastante? E se tudo ficar uma merda mesmo?
— Aí você virou sem ver um desses cínicos de merda.
— Hehehe, é pode ser.
— Mil opções na vida, mil coisas pra tentar fazer, mil pessoas pra conhecer, livros pra ler, comidas pra provar, lugares pra visitar, histórias pra ouvir, jogos de video game pra jogar. As possibilidades não acabam porque você se tornou incapaz de vê-las.

Os modelos 3D abaixo são de Victor Hugo Queiroz, daqui mesmo do Brasil.

Acho muito legal a personalidade que os modelos dele conseguem ter, combinando um certo peso de realismo com um traço, cores e sombra cartoon.

Você pode ver mais trabalhos dele lá no site dele, clicando aqui.

Bishock Infinite é um desses jogos que é uma experiência. O mundo criado te faz ir pra uma outra realidade de uma forma mais forte do que a maioria dos jogos consegue fazer. Junto com isso tem a aventura e o jogo em si. Os sons dos tiros, o impacto, o peso, a festa visual das cores e poderes, as músicas e as peças de propaganda antigas, a história baseada em “e se”, usando e extrapolando temas reais, conceitos científicos reais e ideologias reais. É um jogo que sinto ser possível recomendar para qualquer um, mas que com certeza não vai ser aproveitado por qualquer um da mesma forma.

Se o nome do jogo lhe soa familiar é porque você deve ter ouvido falar do jogo Bioshock, aquele da cidade no fundo do mar e pro qual tudo que foi dito no parágrafo acima também vale. Inclusive, esse jogo é uma espécie de continuação daquele, apesar de não carregar um número, já que essa é uma continuação diferente.

Da mesma forma que o Bioshock o jogo propõe uma cidade isolada do resto do mundo e construída ao redor de um líder com uma ideologia forte, surgido numa época do passado e imaginando como seria se naquela época a cidade fosse mesmo construída. No caso do Bioshock original a cidade é no fundo do mar e o jogo se passa em 1959. No caso do Bioshock Infinite a cidade voa nos ceús e o ano é 1912.

Como comentei lá no parágrafo de introdução esse jogo acaba não sendo aproveitado por todo mundo da mesma forma porque nem todo mundo tem uma bagagem histórica pra conhecer esses períodos e reconhecer as ideologias que ambos os jogos usam e extrapolam, tanto no aspecto visual quanto no discurso dos vilões e heróis da história. Existe discussão sobre racismo, sobre eugenia, sobre meritocracia, sobre capitalismo selvagem, comunismo, fascismo, nacionalismo, xenofobia e outros.

Bioshock Infinite por ser no céu e e não no fundo do mar, tem uma base de cor bem diferente do primeiro Bioshock e legal ver como os climas de tensão e suspense consegue ser criados usando outros elementos. Não é obrigatório ter jogado um jogo pra jogar o outro, inclusive aí no meio existe um Bioshock 2, que também é um bom jogo, mas que se acaba sendo uma espécie de “expansão” do primeiro jogo.

E falando em expansão as expansões do Bioshock Infinite são em si um outro jogo com uma história própria que inclusive mistura as duas cidades de uma maneira muito legal. Nem toda expansão consegue ser mesmo relevante, mas essa, assim como a de Last of Us, só pra citar uma, é uma aventura extra que vale a pena ser jogada, especialmente se você ao jogar gostar da personagem Elisabeth.

Falar dessa personagem é bastante necessário já que ela está com você grande parte do jogo e ao contrário de alguns jogos que colocam um companheiro ao lado do jogador durante toda a aventura, sem que aquele personagem pareça mesmo um indivíduo real, ficando claro que ele é uma inteligência artificial limitada cof cof Skyrim cof cof Lydia e outros cof cof. A Elisabeth não só é esperta na maneira que te ajuda e te acompanha ao longo da aventura, como ela em si tem uma personalidade que é construída através da sua interação com ele. Expressões faciais, variações de humor, a maneira que ela interage com as coisas do ambiente, ficando empolgada com certas coisas, desgostando de outras, faz com que a companhia dela seja algo que acrescenta uma camada extra a toda a experiência do jogo.

Se você nunca jogou nenhum dos bioshocks existe um pacote que já vem todos, inclusive com gráficos atualizados e que volta e meia está em promoção. São jogos que oferecem uma experiência diferente, uma história diferente, junto com a diversão de um jogo de tiro e exploração por um mundo interessante e imersivo que vai te dar saudade depois que você terminar a aventura.

Como um extra, se tiver a curiosidade, indico um texto do site Polygon sobre os últimos anos do estúdio que criou esses jogos e como o projeto do Infinite foi complicado. Como acontece com esses jogos que tem uma pegada especial existe um nome por trás da criação do conceito e da direção do projeto e no caso dos Bioshocks esse nome é Ken Levine. Para ler o texto (que é longo, mas vale muito a pena) clique aqui.

A indicação de hoje é um episódio de um podcast que discute segurança digital. Esse episódio em especial fala sobre campanha política e as ferramentas/truques/sacanagens/1984 que já estão sendo usadas hoje aqui no Brasil para convencer você e todos que você conhece a apoiar um candidato ou ideia.

É muito interessante ver como a coisa toda é muito grande, muito elaborada e muito poderosa.

Segue abaixo o link para download do episódio, mas se você preferir ele está também no seu aplicativo de podcast favorito.

Podcast: Segurança Legal (em português)
| Episódio: 153 – Eleições, tecnologia e fake news

“Pessoas” é quando eu escrevo e posto por aqui um conto sobre uma pessoa que não existe.

Pessoas: 19 — Ele que tinha certeza que merecia mais

A sala de reunião é oval e sem janelas. O teto é bem alto e inteiro de uma cor branca leitosa que ilumina a sala toda. Não dá pra ver onde estão as lâmpadas ou se há lâmpadas. As paredes são lisas, de metal fosco, e, à meia altura, há quadros exageradamente grandes, retangulares, com molduras de vidro, pintados inteiros com cores sólidas. No centro de cada quadro, mensagens de ordem estão escritas em letras pequenas, duras e em contraste com a cor sólida do fundo.

Um deles diz “Venha, faça e viva”, em vermelho, com um fundo cinza esverdeado. Outro diz “Se você não é capaz de pensar na solução, o problema é você”, com letras azuis claro em um fundo azul escuro.

No centro da sala e ocupando grande parte dela há uma mesa grande, de madeira escura, em um formato triangular. Não dá pra ver os pés da mesa e ela não é de madeira de verdade, apenas tem a aparência de madeira de verdade. Em volta da mesa há cadeiras de tecido escuro e encosto curvo de vidro. São quarenta e nove cadeiras.

Ele sabe que são quarenta e nove porque cada cadeira tem um número e todas as cadeiras são iguais, exceto a cadeira número 1, que é vermelha, maior e não tem encosto de vidro. A cadeira 1 fica numa das pontas da mesa triangular, nela senta a líder que fala dos números e balanços dos últimos meses e do que é esperado para os futuros próximos e distantes.

Ele se incomoda com aquela sala de reuniões. O teto. A mesa. O encosto curvo de vidro. As paredes. As mensagens de ordem. De onde está sentado ele pode ler um quadro de fundo verde, escrito em preto “O sonho é real para os que vivem acordados”. A frase o deprime, algumas vezes a realidade simplesmente lhe incomoda.

As cinquenta cadeiras estão ocupadas. Quarenta e nove pessoas estão em silêncio, olhando para a cadeira número 1. A reunião é enfadonha e ele tem dificuldade para se manter acordado. É assim até que a líder anuncia algo novo. Algo que o acorda. Ela anuncia a chegada de uma nova pessoa ao reino.

Ele percebe uma mudança no ar, mas não tem certeza se a mudança é real ou se é só sua percepção distorcendo tudo, como volta e meia ela costuma fazer. Não seria a primeira vez. Para ele, o silêncio de agora é diferente do silêncio de antes, é como se antes as pessoas estivessem presentes, mas pensando em outras coisas e seus pensamentos fossem capazes de gerar som. Agora não pensam em nada, apenas ouvem mais atentas que antes, por isso o silêncio é mais real.

Ele imagina que um dos quadros com mensagens de ordem poderia ter escrito “Silêncio é quando você não diz e não pensa em nada.”.

Ele se foca novamente no anúncio da nova pessoa, tentando conter expressões faciais que deixem transpassar suas preocupações e dúvidas. Ele sente gotas de suor se formarem. Ele as sente no alto das costas, na nuca e na testa.

A nova pessoa vem de outro reino, um que a sabedoria popular diz ser melhor que o dele. É o que contam as vozes. É o que ele e os outros sentem vivendo em seu próprio reino.

Porque alguém trocaria um reino melhor pelo reino dele?

A dona da cadeira número 1 para de falar. Chama a nova pessoa. A nova pessoa entra na sala e fica em pé, ao lado da cadeira número 1. Aplausos e sorrisos. Ele também aplaude e sorri. Seu sorriso é tão verdadeiro quanto a madeira da mesa triangular.

A líder explica que no outro reino a nova pessoa ocupava um cargo e prestígio, confortos e acessos, mas que agora neste novo reino terá que começar do zero e que espera contar com a ajuda de todos para que a nova pessoa possa aprender e crescer. Ele fica confuso. Ele fica irritado. Ele segue tentando esconder o que realmente pensa e sente, mas sua tentativa de esconder seu sentimento real é tão transparente e frágil quanto os encostos de vidro das quarenta e nova cadeiras.

Ele observa os olhos da líder na cadeira número 1. Ele imagina que ela está avaliando todos, lendo a todos, buscando exatamente o olhar dele, pra descobrir que ele está mentindo em sem aplauso e seu sorriso.

Ele tem certeza que, quando ela pergunta se alguém tem alguma dúvida, o faz porque sabe que ele tem dúvidas e que ele quer falar. Ele tem certeza que ela quer ouvir a opinião dele. Ele tem certeza que ela não perguntou diretamente porque não quis colocá-lo numa posição difícil. Ele tem certeza que ela acha que ele é especial.

Uma mulher duas cadeira ao lado dele. Uma mulher que ele não conhece realmente, apenas de vista, fica em pé e grita. Seus olhos abrem grandes, sua boca solta palavras de raiva e gotas de saliva voam e caem na mesa falsa de madeira. Ele ouve os gritos dela dizendo que não tem espaço pra mais nenhuma pessoa, que não se tem mais cadeiras.

Ele apenas ouve assustado enquanto a mulher continua gritando que não entende porque alguém aceitaria vir de outro reino melhor para aquele reino tão cheio de problemas. Ela não entende como alguém pode querer começar de novo o caminho, depois de ter estado lá em cima, de ter tido o que muitos durante uma vida toda não poderão ter.

Ele sente identificação, mas sente também inveja. Queria ele ser a voz dizendo aquilo. Queria ele aquele protagonismo. Queria ele ser o protagonista da história da reunião que anunciou uma nova pessoa. Mas ele não foi.

A mulher ainda gritando é levada embora e a nova pessoa se sente agora no lugar que era dela. Ele sente o ar pesado e o tempo mais lento que o normal ao se dar conta que aquele foi só mais um dia normal e ele continua especial e salvo, em seu reino que não gosta, sentado em silêncio como se deve, encostado em seu pedaço curvo de vidro.

Além de escrever opiniões idiotas, contos, mentiras, desabafos dignos de vergonha alheia por aqui e de postar desenhos e rabiscos por ali, eu também cuido do site everyday1music. Lá, eu posto uma música por dia e todo dia 10 de cada mês eu posto por lá (e também aqui) uma lista com as músicas do último mês.

Segue abaixo a lista deste mês. Pra escutar, é só clicar.

| 01.abr – ♫ Naguetta – Salve a quebrada
| 02.abr – ♫ The Growlers – City Club
| 03.abr – ♫ Peach Pit – Being So Normal
| 04.abr – ♬ Dope Lemon – Uptown Folks  3ª mais ouvida 
| 05.abr – ♫ The Jungle Giants – Creepy Cool
| 06.abr – ♬ The Strypes – Hard To Say No  4ª mais ouvida 
| 07.abr – ♫ Ruby Cube – Lobsters & Cherries
| 08.abr – ♫ MOXINE – About Us  5ª mais ouvida 
| 09.abr – ♪♪ Pillowfight – Lonely City  2ª mais ouvida 
| 11.abr – ♬ Motorama – Alps
| 12.abr – ♬ VANT – Peace and Love
| 13.abr – ♫ The Academic – Sometimes
| 14.abr – ♫ Drgn King – St. Toms
| 15.abr – ♫ Pascal Pinon – Somewhere
| 16.abr – ♫ Johnny Marr – The Tracers
| 17.abr – ♫ Woodpigeon – Now You Like Me How
| 18.abr – ♫ Garbage – Empty
| 19.abr – ♫ Jarvis Cocker – I Never Said I Was Deep
| 20.abr – ♫ Hollis Brown – Wait For Me Virginia
| 21.abr – ♬ My Chemical Romance – Desolation row
| 22.abr – ♫ The Traveling Wilburys – Not Alone Any More
| 23.abr – ♫ tUnE-yArDs – Water Fountain
| 24.abr – ♫ The Mary Onettes – Your Place
| 25.abr – ♫ OutKast – Ms. Jackson
| 26.abr – ♪ Wild Nothing – Only Heather
| 27.abr – ♫ Joe 90 – Blurred
| 28.abr – ♫ The Revivalists – Amber  A mais ouvida 
| 29.abr – ♬ Silver Sun – There Goes Summer
| 30.abr – ♫ The Spinners – Rubberband Man

“Mentiras explicativas” é quando venho aqui pra contar mentiras que importam, explicam e revelam os mistérios do, abre aspas, universo, fecha aspas. Hoje, por exemplo…

Pra que serve o café?

Motivo 1 – O curto
Pra tirar o sono, temos sono, não podemos ter, não podemos, não pode, não é permitido, e, e, e zzzz zzzz zzz…

Motivo 2 – A história
Por volta do ano 1400 DC, o mundo era um lugar muito louco. Muito. Os barcos evoluindo, as armas evoluindo, a descoberta da importância de se tomar banho e — é claro — a descoberta de que é mais vantajoso vender coisas pra quem não fala sua língua do que simplesmente ir lá e matá-los.

Foi neste tempo, bem ali no pedaço do pálido ponto azul conhecido hoje como Yemen, que algo importante aconteceu. A seleção natural deu cor vermelha para as pequenas frutas de um conjunto de árvores não muito altas que crescia tímida e desimportante ao pé de uma montanha.

Por aqueles lados viva um certo pastor ovelhas e na noite anterior ao ocorrido uma certa ovelha de seu rebanho estava mais uma vez acordada. Ela era também vítima da tal seleção natural, tendo nascido diferente de suas demais irmãs e irmãos ovelhas.

Acontecia que durante a noite ela tinha problemas pra dormir. Ficava olhando o céu, as estrelas, sentindo o vento que vinha sabe-se lá de onde, passar por sua lã, lhe tocar como se fosse algo, como se fosse alguém, mas era apenas o próprio ar.

A ovelha achava isso muito curioso, o próprio ar vir, se movendo acelerado até se tornar algo que a podia tocar. Pensava quais outras forças invisíveis a podiam tocar. Achava confuso, mas aconchegante saber que o mundo tinha uma porção de mistérios que iam muito além de sua rotina de ovelha.

Gostava dos ventos, especialmente nas noites quentes que antecediam dias de frio. Nessas noites, o céu ficava limpo, sem nuvens para segurar o calor no dia seguinte. Dava pra ver o céu brilhar em mil luzes e mil cores, ali, no lugar entre o deserto e o não deserto, onde pouca coisa viva vivia e onde o vento vinha e acalmava o calor que sua própria lã lhe dava.

Seu gosto pela noite havia lhe cobrado um preço ao longo dos anos. Aquelas noites, aquelas boas e inesquecíveis noites, olhando as estrelas e o horizonte, pensando e imaginando o que mais poderia existir no mundo, além do rebanho, além do pastor, além da linha amarela do deserto e da linha verde da floresta, lhe forçaram os olhos. Hoje, já não enxergava tão bem. Da mesma forma, hoje, na manhã seguinte, já não conseguia ficar acordada com a mesma energia que tinha antes. O sono lhe abraçava durante todo o dia, vinha, e ela andava mais lenta e mais devagar que as outras ovelhas, que lhe julgavam e criticavam por saberem bem de seus hábitos noturnos.

“Tem que dormir, irmããããããã”

“É pro seu beeeeem, irmãããããã”

Ela não ligava. As noites valiam a dificuldade de ser como os outros no dia seguinte. Andar como os outros, ser como os outros, balir, comer, beber e esperar pela tosa. Ela não tentava convencer o resto do rebanho que a noite era algo bom, que era divertido ver o mundo que só acontecia depois que o sol se punha, que, além das estrelas e do vento, havia um silêncio que permitia que ela ouvisse seus próprios pensamentos e lhe fizesse pensar e ter ideias que ela nunca conseguiria ter se não estivesse lá.

O pastor era experiente e observador. Um dia depois do outro, foi notando que aquela certa ovelha parecia sempre estar mais lenta que as outras. Especialmente logo pela manhã. Notou também que isso não era um real problema, já que tudo que era esperado de uma ovelha, aquela certa ovelha fazia.

Os fios brancos na barba lhe traziam memórias que lhe serviam como apoio. O pastor sabia que nenhum animal era igual ao outro e que sempre haviam personalidades e variações de jeitos e humores. Ele se lembrava de um coelho que gostava de lhe dar sustos, o esperando escondido, quando via que ele se aproximava. Lembrava também de ouvir falar de um papagaio que não comia sementes de girassol e de um leão que dormia sempre de barriga pra cima. O pasto algumas vezes pensava que, de alguma forma, talvez os animais fossem só um outro tipo de pessoas.

No dia em questão, o pastor em questão, com o rebanho em questão, com a ovelha em questão, saíram para pastar — e sim— o fizeram ali perto de onde ficava o pé da montanha e o conjunto de árvores com frutas vermelhas.

O pastor nunca tinha se aproximado tanto do pé da montanha e daquelas árvores, mas naquele dia o vento estava mais forte e por bater no pé da montanha, se acumulava e criava um corredor mais fresco e indo por ele foi que o rebanho acabou mais perto daquelas árvores do que jamais estivera. Foi aí que o mesmo vento derrubou um galho de uma das árvores, deixando no chão um punhado das tais frutas vermelhas.

As ovelhas pastando em volta, olharam para as frutas vermelhas e não as reconheceram como algo que podia comer. Porém, aquela certa ovelha, a que ficava nas noites acordada, que durante o dia estava sempre cansada, por não enxergar tão bem, ao ver as frutas vermelhas, imaginou serem uvas. Aí, as lambeu e comeu.

O pastor estava distraído e levou um tempo até que percebesse o que ocorria. Quando se deu conta, foi até lá sem correr, pra não assustar as outras ovelhas. Viu que aquela certa ovelha já tinha comido uma boa quantidade das frutas. Ele sabia que aquela era a ovelha lenta e caso fosse preciso buscar algum remédio, levou algumas das frutas para mostrar a quem pudesse ajudá-lo, talvez alguém conhecesse aquela fruta.

No caminho de volta e pelo resto do dia ficou observando como a ovelha se comportava. Pensou no melhor, lembrou que as frutas venenosas eram famosas, que desde muito tempo as pessoas ensinavam umas para as outras o que fazia mal e aquela fruta ele não conhecia. Com certo alívio pode ver que ovelha estava bem e parecia inclusive mais animada e acelerada do que o normal.

Cortou a fruta ao meio e viu que ela era quase que toda apenas semente. Tinha um cheiro bom, uma espécie de amargo encorpado, misturado com madeira escura e algo mais que ele não soube definir.

No dia seguinte, a ovelha estava novamente lenta e o pastor deixou que fosse assim, ainda observando pra ter certeza se ela estava bem. No dia depois desse, ao ver que ela ainda estava lenta, deixou que ela comesse duas ou três daquelas frutas vermelhas e viu algum tempo depois como a ovelha parecia outra vez animada.

Na manhã seguinte, tendo levado algumas frutas pra casa, tentou comê-las para que ele ficasse também mais cheio de vida em seu dia. A fruta era amarga e a semente muito dura. Decidiu então tostar as sementes, como faziam com algumas castanhas, mas elas continuaram duras. Foi aí que decidiu tentar fazer um chá e esse chá escuro, num tom marrom, um com espuma clara, mudou sua vida e depois o mundo.

Ainda hoje, se confunde o segredo da energia do café com o real resultado de sua descoberta. O feito não foi apenas dar mais energia para as pessoas normais irem pro mundo com mais disposição. O feito que mudou tudo foi permitir às pessoas que, como a ovelha, ficavam até altas horas da noite, sem dormir, olhando pro mundo e pensando nas coisas, estarem ativas e presentes na sociedade nas manhãs seguintes de suas descobertas, teorias e raciocínios.

O café serve para ajudar as ideias que mudam o mundo a sair e circular por aí.

Não que eu queira me colocar como especialista de alguma coisa, mas não é muito difícil ver que vivemos numa época em que tudo que acontece é registrado como nunca foi em toda história (conhecida) desta humanidade. De tudo que é registrado, registramos também produções artísticas e no meio delas acabamos guardando para posteridade o que uma geração achava engraçado.

Nesse contexto, tirinhas, esses quadrinhos curtos que podem ser lidos em menos de 1 minuto são sempre um registro muito bom desse tipo de coisa. Os quadrinhos de Sarah Andersen fazem parte desse tipo de coisa, eles carregam um humor dos tempos de hoje, misturando os medos, anseios e incômodos dessa geração “jovem” dos dias e hoje.

Os quadrinhos dela falam sobre internet, sobre feminismo, sobre as decepções e dificuldades com o mundo adulto, sobre ser retraído num momento em que a internet uniu tantos retraídos e introvertidos que criou um mundo de piadas internas. Os quadrinhos falam sobre o choque de gerações, milenials contra babyboomers, além de medos e receios simples que muita gente tem.

Não acho que os quadrinhos dela sejam pra todo mundo, mas para as pessoas que acharem graça no que ela faz, acredito mesmo que a identificação vai ser bem grande. E apesar de ter muita piada que é do universo feminino, mesmo eu não sendo mulher dá pra entender (dentro do possível, claro), gostar e ter uma visão de como as coisas podem ser.

Aqui na terra Brasil saíram até agora duas coletâneas com os trabalhos dela. O primeiro chama “Ninguém vira adulto de verdade” e o segundo chama “Uma bolota molenga e feliz”. Lá em baixo tem os links, se você se interessar por comprar para si ou quem sabe assim dar de presente pra alguém.

A autora publica também tirinhas no seu twitter oficial em inglês e como eu acho que a melhor forma de divulgar trabalho dela e ver se você é o ou não o público, segue abaixo algumas tirinhas.

E aí se interessou? Segue o link pro twitter dela, onde ela posta novos quadrinhos 2 vezes por semana, aqui e pros livros lá na amazon, clicando nas imagens abaixo.