A indicação de hoje é um episódio de um podcast que discute segurança digital. Esse episódio em especial fala sobre campanha política e as ferramentas/truques/sacanagens/1984 que já estão sendo usadas hoje aqui no Brasil para convencer você e todos que você conhece a apoiar um candidato ou ideia.

É muito interessante ver como a coisa toda é muito grande, muito elaborada e muito poderosa.

Segue abaixo o link para download do episódio, mas se você preferir ele está também no seu aplicativo de podcast favorito.

Podcast: Segurança Legal (em português)
| Episódio: 153 – Eleições, tecnologia e fake news

“Pessoas” é quando eu escrevo e posto por aqui um conto sobre uma pessoa que não existe.

Pessoas: 19 — Ele que tinha certeza que merecia mais

A sala de reunião é oval e sem janelas. O teto é bem alto e inteiro de uma cor branca leitosa que ilumina a sala toda. Não dá pra ver onde estão as lâmpadas ou se há lâmpadas. As paredes são lisas, de metal fosco, e, à meia altura, há quadros exageradamente grandes, retangulares, com molduras de vidro, pintados inteiros com cores sólidas. No centro de cada quadro, mensagens de ordem estão escritas em letras pequenas, duras e em contraste com a cor sólida do fundo.

Um deles diz “Venha, faça e viva”, em vermelho, com um fundo cinza esverdeado. Outro diz “Se você não é capaz de pensar na solução, o problema é você”, com letras azuis claro em um fundo azul escuro.

No centro da sala e ocupando grande parte dela há uma mesa grande, de madeira escura, em um formato triangular. Não dá pra ver os pés da mesa e ela não é de madeira de verdade, apenas tem a aparência de madeira de verdade. Em volta da mesa há cadeiras de tecido escuro e encosto curvo de vidro. São quarenta e nove cadeiras.

Ele sabe que são quarenta e nove porque cada cadeira tem um número e todas as cadeiras são iguais, exceto a cadeira número 1, que é vermelha, maior e não tem encosto de vidro. A cadeira 1 fica numa das pontas da mesa triangular, nela senta a líder que fala dos números e balanços dos últimos meses e do que é esperado para os futuros próximos e distantes.

Ele se incomoda com aquela sala de reuniões. O teto. A mesa. O encosto curvo de vidro. As paredes. As mensagens de ordem. De onde está sentado ele pode ler um quadro de fundo verde, escrito em preto “O sonho é real para os que vivem acordados”. A frase o deprime, algumas vezes a realidade simplesmente lhe incomoda.

As cinquenta cadeiras estão ocupadas. Quarenta e nove pessoas estão em silêncio, olhando para a cadeira número 1. A reunião é enfadonha e ele tem dificuldade para se manter acordado. É assim até que a líder anuncia algo novo. Algo que o acorda. Ela anuncia a chegada de uma nova pessoa ao reino.

Ele percebe uma mudança no ar, mas não tem certeza se a mudança é real ou se é só sua percepção distorcendo tudo, como volta e meia ela costuma fazer. Não seria a primeira vez. Para ele, o silêncio de agora é diferente do silêncio de antes, é como se antes as pessoas estivessem presentes, mas pensando em outras coisas e seus pensamentos fossem capazes de gerar som. Agora não pensam em nada, apenas ouvem mais atentas que antes, por isso o silêncio é mais real.

Ele imagina que um dos quadros com mensagens de ordem poderia ter escrito “Silêncio é quando você não diz e não pensa em nada.”.

Ele se foca novamente no anúncio da nova pessoa, tentando conter expressões faciais que deixem transpassar suas preocupações e dúvidas. Ele sente gotas de suor se formarem. Ele as sente no alto das costas, na nuca e na testa.

A nova pessoa vem de outro reino, um que a sabedoria popular diz ser melhor que o dele. É o que contam as vozes. É o que ele e os outros sentem vivendo em seu próprio reino.

Porque alguém trocaria um reino melhor pelo reino dele?

A dona da cadeira número 1 para de falar. Chama a nova pessoa. A nova pessoa entra na sala e fica em pé, ao lado da cadeira número 1. Aplausos e sorrisos. Ele também aplaude e sorri. Seu sorriso é tão verdadeiro quanto a madeira da mesa triangular.

A líder explica que no outro reino a nova pessoa ocupava um cargo e prestígio, confortos e acessos, mas que agora neste novo reino terá que começar do zero e que espera contar com a ajuda de todos para que a nova pessoa possa aprender e crescer. Ele fica confuso. Ele fica irritado. Ele segue tentando esconder o que realmente pensa e sente, mas sua tentativa de esconder seu sentimento real é tão transparente e frágil quanto os encostos de vidro das quarenta e nova cadeiras.

Ele observa os olhos da líder na cadeira número 1. Ele imagina que ela está avaliando todos, lendo a todos, buscando exatamente o olhar dele, pra descobrir que ele está mentindo em sem aplauso e seu sorriso.

Ele tem certeza que, quando ela pergunta se alguém tem alguma dúvida, o faz porque sabe que ele tem dúvidas e que ele quer falar. Ele tem certeza que ela quer ouvir a opinião dele. Ele tem certeza que ela não perguntou diretamente porque não quis colocá-lo numa posição difícil. Ele tem certeza que ela acha que ele é especial.

Uma mulher duas cadeira ao lado dele. Uma mulher que ele não conhece realmente, apenas de vista, fica em pé e grita. Seus olhos abrem grandes, sua boca solta palavras de raiva e gotas de saliva voam e caem na mesa falsa de madeira. Ele ouve os gritos dela dizendo que não tem espaço pra mais nenhuma pessoa, que não se tem mais cadeiras.

Ele apenas ouve assustado enquanto a mulher continua gritando que não entende porque alguém aceitaria vir de outro reino melhor para aquele reino tão cheio de problemas. Ela não entende como alguém pode querer começar de novo o caminho, depois de ter estado lá em cima, de ter tido o que muitos durante uma vida toda não poderão ter.

Ele sente identificação, mas sente também inveja. Queria ele ser a voz dizendo aquilo. Queria ele aquele protagonismo. Queria ele ser o protagonista da história da reunião que anunciou uma nova pessoa. Mas ele não foi.

A mulher ainda gritando é levada embora e a nova pessoa se sente agora no lugar que era dela. Ele sente o ar pesado e o tempo mais lento que o normal ao se dar conta que aquele foi só mais um dia normal e ele continua especial e salvo, em seu reino que não gosta, sentado em silêncio como se deve, encostado em seu pedaço curvo de vidro.

Além de escrever opiniões idiotas, contos, mentiras, desabafos dignos de vergonha alheia por aqui e de postar desenhos e rabiscos por ali, eu também cuido do site everyday1music. Lá, eu posto uma música por dia e todo dia 10 de cada mês eu posto por lá (e também aqui) uma lista com as músicas do último mês.

Segue abaixo a lista deste mês. Pra escutar, é só clicar.

| 01.abr – ♫ Naguetta – Salve a quebrada
| 02.abr – ♫ The Growlers – City Club
| 03.abr – ♫ Peach Pit – Being So Normal
| 04.abr – ♬ Dope Lemon – Uptown Folks  3ª mais ouvida 
| 05.abr – ♫ The Jungle Giants – Creepy Cool
| 06.abr – ♬ The Strypes – Hard To Say No  4ª mais ouvida 
| 07.abr – ♫ Ruby Cube – Lobsters & Cherries
| 08.abr – ♫ MOXINE – About Us  5ª mais ouvida 
| 09.abr – ♪♪ Pillowfight – Lonely City  2ª mais ouvida 
| 11.abr – ♬ Motorama – Alps
| 12.abr – ♬ VANT – Peace and Love
| 13.abr – ♫ The Academic – Sometimes
| 14.abr – ♫ Drgn King – St. Toms
| 15.abr – ♫ Pascal Pinon – Somewhere
| 16.abr – ♫ Johnny Marr – The Tracers
| 17.abr – ♫ Woodpigeon – Now You Like Me How
| 18.abr – ♫ Garbage – Empty
| 19.abr – ♫ Jarvis Cocker – I Never Said I Was Deep
| 20.abr – ♫ Hollis Brown – Wait For Me Virginia
| 21.abr – ♬ My Chemical Romance – Desolation row
| 22.abr – ♫ The Traveling Wilburys – Not Alone Any More
| 23.abr – ♫ tUnE-yArDs – Water Fountain
| 24.abr – ♫ The Mary Onettes – Your Place
| 25.abr – ♫ OutKast – Ms. Jackson
| 26.abr – ♪ Wild Nothing – Only Heather
| 27.abr – ♫ Joe 90 – Blurred
| 28.abr – ♫ The Revivalists – Amber  A mais ouvida 
| 29.abr – ♬ Silver Sun – There Goes Summer
| 30.abr – ♫ The Spinners – Rubberband Man

“Mentiras explicativas” é quando venho aqui pra contar mentiras que importam, explicam e revelam os mistérios do, abre aspas, universo, fecha aspas. Hoje, por exemplo…

Pra que serve o café?

Motivo 1 – O curto
Pra tirar o sono, temos sono, não podemos ter, não podemos, não pode, não é permitido, e, e, e zzzz zzzz zzz…

Motivo 2 – A história
Por volta do ano 1400 DC, o mundo era um lugar muito louco. Muito. Os barcos evoluindo, as armas evoluindo, a descoberta da importância de se tomar banho e — é claro — a descoberta de que é mais vantajoso vender coisas pra quem não fala sua língua do que simplesmente ir lá e matá-los.

Foi neste tempo, bem ali no pedaço do pálido ponto azul conhecido hoje como Yemen, que algo importante aconteceu. A seleção natural deu cor vermelha para as pequenas frutas de um conjunto de árvores não muito altas que crescia tímida e desimportante ao pé de uma montanha.

Por aqueles lados viva um certo pastor ovelhas e na noite anterior ao ocorrido uma certa ovelha de seu rebanho estava mais uma vez acordada. Ela era também vítima da tal seleção natural, tendo nascido diferente de suas demais irmãs e irmãos ovelhas.

Acontecia que durante a noite ela tinha problemas pra dormir. Ficava olhando o céu, as estrelas, sentindo o vento que vinha sabe-se lá de onde, passar por sua lã, lhe tocar como se fosse algo, como se fosse alguém, mas era apenas o próprio ar.

A ovelha achava isso muito curioso, o próprio ar vir, se movendo acelerado até se tornar algo que a podia tocar. Pensava quais outras forças invisíveis a podiam tocar. Achava confuso, mas aconchegante saber que o mundo tinha uma porção de mistérios que iam muito além de sua rotina de ovelha.

Gostava dos ventos, especialmente nas noites quentes que antecediam dias de frio. Nessas noites, o céu ficava limpo, sem nuvens para segurar o calor no dia seguinte. Dava pra ver o céu brilhar em mil luzes e mil cores, ali, no lugar entre o deserto e o não deserto, onde pouca coisa viva vivia e onde o vento vinha e acalmava o calor que sua própria lã lhe dava.

Seu gosto pela noite havia lhe cobrado um preço ao longo dos anos. Aquelas noites, aquelas boas e inesquecíveis noites, olhando as estrelas e o horizonte, pensando e imaginando o que mais poderia existir no mundo, além do rebanho, além do pastor, além da linha amarela do deserto e da linha verde da floresta, lhe forçaram os olhos. Hoje, já não enxergava tão bem. Da mesma forma, hoje, na manhã seguinte, já não conseguia ficar acordada com a mesma energia que tinha antes. O sono lhe abraçava durante todo o dia, vinha, e ela andava mais lenta e mais devagar que as outras ovelhas, que lhe julgavam e criticavam por saberem bem de seus hábitos noturnos.

“Tem que dormir, irmããããããã”

“É pro seu beeeeem, irmãããããã”

Ela não ligava. As noites valiam a dificuldade de ser como os outros no dia seguinte. Andar como os outros, ser como os outros, balir, comer, beber e esperar pela tosa. Ela não tentava convencer o resto do rebanho que a noite era algo bom, que era divertido ver o mundo que só acontecia depois que o sol se punha, que, além das estrelas e do vento, havia um silêncio que permitia que ela ouvisse seus próprios pensamentos e lhe fizesse pensar e ter ideias que ela nunca conseguiria ter se não estivesse lá.

O pastor era experiente e observador. Um dia depois do outro, foi notando que aquela certa ovelha parecia sempre estar mais lenta que as outras. Especialmente logo pela manhã. Notou também que isso não era um real problema, já que tudo que era esperado de uma ovelha, aquela certa ovelha fazia.

Os fios brancos na barba lhe traziam memórias que lhe serviam como apoio. O pastor sabia que nenhum animal era igual ao outro e que sempre haviam personalidades e variações de jeitos e humores. Ele se lembrava de um coelho que gostava de lhe dar sustos, o esperando escondido, quando via que ele se aproximava. Lembrava também de ouvir falar de um papagaio que não comia sementes de girassol e de um leão que dormia sempre de barriga pra cima. O pasto algumas vezes pensava que, de alguma forma, talvez os animais fossem só um outro tipo de pessoas.

No dia em questão, o pastor em questão, com o rebanho em questão, com a ovelha em questão, saíram para pastar — e sim— o fizeram ali perto de onde ficava o pé da montanha e o conjunto de árvores com frutas vermelhas.

O pastor nunca tinha se aproximado tanto do pé da montanha e daquelas árvores, mas naquele dia o vento estava mais forte e por bater no pé da montanha, se acumulava e criava um corredor mais fresco e indo por ele foi que o rebanho acabou mais perto daquelas árvores do que jamais estivera. Foi aí que o mesmo vento derrubou um galho de uma das árvores, deixando no chão um punhado das tais frutas vermelhas.

As ovelhas pastando em volta, olharam para as frutas vermelhas e não as reconheceram como algo que podia comer. Porém, aquela certa ovelha, a que ficava nas noites acordada, que durante o dia estava sempre cansada, por não enxergar tão bem, ao ver as frutas vermelhas, imaginou serem uvas. Aí, as lambeu e comeu.

O pastor estava distraído e levou um tempo até que percebesse o que ocorria. Quando se deu conta, foi até lá sem correr, pra não assustar as outras ovelhas. Viu que aquela certa ovelha já tinha comido uma boa quantidade das frutas. Ele sabia que aquela era a ovelha lenta e caso fosse preciso buscar algum remédio, levou algumas das frutas para mostrar a quem pudesse ajudá-lo, talvez alguém conhecesse aquela fruta.

No caminho de volta e pelo resto do dia ficou observando como a ovelha se comportava. Pensou no melhor, lembrou que as frutas venenosas eram famosas, que desde muito tempo as pessoas ensinavam umas para as outras o que fazia mal e aquela fruta ele não conhecia. Com certo alívio pode ver que ovelha estava bem e parecia inclusive mais animada e acelerada do que o normal.

Cortou a fruta ao meio e viu que ela era quase que toda apenas semente. Tinha um cheiro bom, uma espécie de amargo encorpado, misturado com madeira escura e algo mais que ele não soube definir.

No dia seguinte, a ovelha estava novamente lenta e o pastor deixou que fosse assim, ainda observando pra ter certeza se ela estava bem. No dia depois desse, ao ver que ela ainda estava lenta, deixou que ela comesse duas ou três daquelas frutas vermelhas e viu algum tempo depois como a ovelha parecia outra vez animada.

Na manhã seguinte, tendo levado algumas frutas pra casa, tentou comê-las para que ele ficasse também mais cheio de vida em seu dia. A fruta era amarga e a semente muito dura. Decidiu então tostar as sementes, como faziam com algumas castanhas, mas elas continuaram duras. Foi aí que decidiu tentar fazer um chá e esse chá escuro, num tom marrom, um com espuma clara, mudou sua vida e depois o mundo.

Ainda hoje, se confunde o segredo da energia do café com o real resultado de sua descoberta. O feito não foi apenas dar mais energia para as pessoas normais irem pro mundo com mais disposição. O feito que mudou tudo foi permitir às pessoas que, como a ovelha, ficavam até altas horas da noite, sem dormir, olhando pro mundo e pensando nas coisas, estarem ativas e presentes na sociedade nas manhãs seguintes de suas descobertas, teorias e raciocínios.

O café serve para ajudar as ideias que mudam o mundo a sair e circular por aí.

Não que eu queira me colocar como especialista de alguma coisa, mas não é muito difícil ver que vivemos numa época em que tudo que acontece é registrado como nunca foi em toda história (conhecida) desta humanidade. De tudo que é registrado, registramos também produções artísticas e no meio delas acabamos guardando para posteridade o que uma geração achava engraçado.

Nesse contexto, tirinhas, esses quadrinhos curtos que podem ser lidos em menos de 1 minuto são sempre um registro muito bom desse tipo de coisa. Os quadrinhos de Sarah Andersen fazem parte desse tipo de coisa, eles carregam um humor dos tempos de hoje, misturando os medos, anseios e incômodos dessa geração “jovem” dos dias e hoje.

Os quadrinhos dela falam sobre internet, sobre feminismo, sobre as decepções e dificuldades com o mundo adulto, sobre ser retraído num momento em que a internet uniu tantos retraídos e introvertidos que criou um mundo de piadas internas. Os quadrinhos falam sobre o choque de gerações, milenials contra babyboomers, além de medos e receios simples que muita gente tem.

Não acho que os quadrinhos dela sejam pra todo mundo, mas para as pessoas que acharem graça no que ela faz, acredito mesmo que a identificação vai ser bem grande. E apesar de ter muita piada que é do universo feminino, mesmo eu não sendo mulher dá pra entender (dentro do possível, claro), gostar e ter uma visão de como as coisas podem ser.

Aqui na terra Brasil saíram até agora duas coletâneas com os trabalhos dela. O primeiro chama “Ninguém vira adulto de verdade” e o segundo chama “Uma bolota molenga e feliz”. Lá em baixo tem os links, se você se interessar por comprar para si ou quem sabe assim dar de presente pra alguém.

A autora publica também tirinhas no seu twitter oficial em inglês e como eu acho que a melhor forma de divulgar trabalho dela e ver se você é o ou não o público, segue abaixo algumas tirinhas.

E aí se interessou? Segue o link pro twitter dela, onde ela posta novos quadrinhos 2 vezes por semana, aqui e pros livros lá na amazon, clicando nas imagens abaixo.



Os desenhos abaixo são da pessoa (falhei em descobrir se é um homem, mulher ou árvore) Choi Keun Hoon, lá da Coréia do Sul.

Pra ver mais desenhos desta criatura clique aqui.

O podcast indicado dessa vez é uma espécie de documentário investigativo. O que ele documenta e investiga é o desaparecimento para o mundo de Richard Simmons.

Dependendo da sua idade é possível que você não tenha a menor ideia de quem é esse cara, inclusive apenas pelo nome talvez você não lembre de ninguém, mas com certeza você já deve ter visto ele por aí fazendo pequenas aparições em filmes, sempre que tinha algum contexto o personagem fazer exercícios vendo um certo programa de TV com pessoas fazendo ginástica. Seja como for, saber quem ele é não vai afetar sua experiência de ouvir o o podcast.

O podcast tem 6 episódios de mais ou menos meia hora. Cada episódio constrói a história dele e especula quais seriam os motivos para ele um dia simplesmente parar de fazer as coisas que fazia e sumir pro mundo.

Acho bem legal como esse podcast é mais um desse exemplos de como essa mídia é versátil e pode ser usada pra vários tipos de histórias e coisas, combinando entrevistas, fluxos de pensamentos, criando uma narrativa que oferece uma experiência que é diferente de ler um livro ou ver um documentário na forma de filme.

Com relação ao conteúdo, é uma história interessante ver o recorte na personalidade e os motivos e inspirações dele pra fazer o que fez. acho que vale dizer que não concordo totalmente com algumas das posições que o “host” do podcast coloca, especialmente quando ele acha que existe uma espécie de responsabilidade perene quando alguém acaba sendo um pilar de motivação na vida de alguém.

Se você gosta de documentários que exploram os detalhes e mistérios de pessoas que fazem coisas que a maior parte das pessoas não faz e que conseguem tocar muitos com seu trabalho e ainda ganhar uns bons milhões de dólares no meio do caminho, possivelmente o podcast vai te interessar.

Segue abaixo o link para a página do podcast, mas se você preferir o podcast está também em seu aplicativo favorito.

Podcast: Missing Richard Simmons (em inglês)
| Link para os seis episódios

“Pessoas” é quando eu escrevo e posto por aqui um conto sobre uma pessoa que existe, ou que não existe, ou que eu não sei.

Pessoas: 18 — Ela que foi embora mais cedo

Ela dirige de volta pra casa. Os olhos estão quentes e a respiração pesada. É madrugada na cidade grande. Os vidros do carro estão abertos o suficiente pra que entre um vento gelado trazendo uma memória, um sentimento, algo que a coloque num outro dia. Ela tem vontade de chorar, mas não chora. Apenas dirige pela cidade quase vazia, indo embora cedo de uma festa que ainda ia durar até o dia amanhecer.

Ela pensa nas palavras das pessoas, nos comentários, no que vão dizer sobre como ela foi embora cedo, como ela já não faz mais parte da família, sobre como ela isso e aquilo.

Ela não se importa ao mesmo tempo em que se importa. Não é uma questão de ser bem vinda, é um desejo de poder ser ela mesma sem que isso magoe os outros.

A festa era o casamento de uma prima. A relação das duas não encaixa na classificação simples de quando as pessoas contam as coisas, não é só dizer que são próximas ou não. O tempo modifica as relações, altera os pesos e as importâncias. É mais complexo do que o que as pessoas estão dispostas a contar quando se colocam pra falar sobre suas relações com os outros.

Ela está feliz pela prima, fica contente que ela possa celebrar as conquistas e alegrias dela. Aqueles anos de infância e começo de adolescência criaram um laço de afeto que perdura mesmo hoje quando ela não sabia nem ao certo qual era mesmo o nome do noivo da prima até ler o convite. Não há um sentimento falso ou ruim, mas durante todo o tempo em que esteve lá, ela só queria ir embora.

O vento gelado faz ela se acalmar por alguns segundos, até sua memória associar algo que ela vê nas ruas que passam com algo que estava na festa e o fluxo de pensamentos voltar e levar ela de volta pra lá.

Havia algo bom em reencontrar pessoas que há muito tempo não via. Muitas pessoas da família. Alguns amigos em comum. Existe uma certa chama de intenção, de desejo de querer saber como estão aquelas pessoas que — da mesma forma que a prima — durante um tempo foram tão presentes e tão importantes em sua vida.

Ela cumprimenta, fala e sorri. Faz o que tem que ser feito. Finge sorrisos e risadas ensaiadas. Ela acredita que ninguém perceba e a verdade é que a maioria das pessoas realmente não percebe. O reencontro depois de tanto tempo não refaz as ligações e basta trocar duas ou três frases pra entender porque as pessoas se afastam, seguindo seus próprios caminhos. A ligação tentada é genuína, mas não é possível forçar uma identificação, ou uma ligação, ou esse algo que ela sente que a alma humana pede a medida que o tempo passava e ela envelhece.

Fazia tempo que não reencontrava todas aquelas pessoas e, ali, agora, do alto dos seus trinta anos, solteira e preocupada com contas e outras idiotices, o evento lhe trazia um sentimento ruim. Ela tinha visto cada uma daquelas pessoas crescerem nos últimos trinta anos. Tinha visto desde quando as pessoas eram promessas e possibilidades até se tornarem o que hoje eram. Pensava nos espertos, nos engraçados, nos de pouca vergonha, nos tímidos e como isso serviu e não serviu pra nada na história de cada um.

Era meio pesado ver a realidade das histórias depois dos anos. Ver as rugas nos rostos, os quilos a mais, saber dos divórcios, dos namoros, dos problemas, das escolhas. Não era tudo ruim e ela não era cega pra isso. Haviam coisas boas, haviam aqueles que tinham ido e feito e realizado e sido. Mas lhe chamava muito mais a atenção as coisas ruins, os que não foram, os que ficaram pelo caminho, os que como ela ainda não tinham se achado, sendo eles mais velhos ou mais novos. Havia luz, mas era inegável que os não eram maiores que os sim. A vida é foda, as coisas são foda, o mesmo papo besta repetitivo e derrotista de sempre. O país, o azar, a economia, as heranças hereditárias e psicológicas, o marco zero de onde cada um teve que partir pra estar onde estava, carregando o que teve que carregar pra chegar onde conseguiu chegar.

No farol vermelho ela olha pro dedo, pro anel de pedra azul, que escolheu combinando com o vestido. Ela lembra da aliança, do seu dedo sem ela e lembra de como doeu ver o ritual religioso mais uma vez. Ela não tem religião, mas não julga os que tem, seu conflito é outro. A conversa do pai, da mãe, do legado, do pai que entrega a filha, do marido que busca e promete cuidar. Pensou em seus pais, em seus valores, em como talvez, mesmo que achasse um príncipe encantado, que uma cerimônia como aquela não era algo pra ela. Alívio e culpa lhe pintavam o coração. Uma camada sombria de pensamentos lhe fazia desacreditar nas promessas, nas juras de amor, na necessidade de perante tanta gente, diante de uma festa tão grande e tão cheia de símbolos e promessas, jurar que se amavam e que ficariam juntos. Na doença e da saúde, na alegria e na tristeza.

Um ar talvez de maturidade, ela argumentava consigo mesma, era o que a fazia ver pela primeira vez o valor dessas duas frases. Ter de fato alguém do lado que fosse mesmo uma companhia, uma escolha, um compromisso, alguém que iria estar na doença e na saúde, na alegria e na tristeza, essa era mesmo uma necessidade da alma humana, uma necessidade que ela mesma tinha e, justamente por ter, achava tola e incomoda qualquer outra relação e conexão forçada que tivesse como objetivo entreter e distrair os verdadeiros anseios da alma, pra ver o tempo passar logo.

Quando chegou em ser apartamento, viu em seu celular uma mensagem de seu pai, dizendo que todos estavam perguntando por ela. Ela responde em uma mensagem, que teve até ser enviada cinco versões. A primeira dizia a verdade, a segunda, dizia a verdade de forma mais simples, a terceira misturava a verdade com o que era socialmente aceitável, a quarta era socialmente aceitável com pontas de verdade ocultas e indiretas, a quinta, a enviada, dava uma desculpa aceitável, que a livrava dos julgamentos, causava compaixão e lhe permitia simplesmente ir embora, porque ir embora era o que ela precisava. Ironicamente, a frase tinha em parte uma verdade.

“Alguma coisa me deu dor de barriga :P”

Além de escrever opiniões idiotas, contos, mentiras, desabafos dignos de vergonha alheia por aqui e de postar desenhos e rabiscos por ali, eu também cuido do site everyday1music. Lá, eu posto uma música por dia e todo dia 10 de cada mês eu posto por lá (e também aqui) uma lista com as músicas do último mês.

Segue abaixo a lista deste mês. Pra escutar, é só clicar na canção da sua escolha.

\01 – ♫ The Bohicas – I Do It For Your Love
\02 – ♫ Supergrass – Grace
\03 – ♫ Toro y Moi – Still Sound
\04 – ♫ Sløtface – Magazine  2ª mais ouvida 
\05 – ♫ Oh Wonder – Dazzle
\06 – ♫ Peach Pit – Drop The Guillotine  3ª mais ouvida 
\07 – ♫ Feldberg – Dreamin’
\08 – ♫ MOXINE – Electric Kiss
\09 – ♬ Hercules & Love Affair – Blind
\11 – ♫ Peter McConnell – Mog Chothra (Broken Age OST)
\12 – ♫ Said The Whale – This City’s A Mess
\13 – ♫ The Jungle Giants – Feel The Way I Do
\14 – ♫ Weezer – Say It Ain’t So
\15 – ♫ Klaxons – It’s Not Over Yet  4ª mais ouvida 
\16 – ♬ The Night Marchers – Closed For Inventory
\17 – ♬ FIDLAR – No Waves
\18 – ♫ Drgn King – Undertow
\19 – ♫ The Beatles – Help!
\20 – ♫ The Cure – Boys Don’t Cry
\21 – ♬ blink–182 – Down
\22 – ♫ Motorama – Northern Seaside  A mais ouvida 
\23 – ♫ Red Hot Chili Peppers – Breaking The Girl
\24 – ♫ Staind – Its Been A While
\25 – ♫ Chevelle – The Red
\26 – ♫ Leon Else feat. Oliver – The City Don’t Care
\27 – ♫ Eels – The Deconstruction
\28 – ♫ Dingo Bells – Dinossauros
\29 – ♫ Blossoms – At Most A Kiss
\30 – ♬ Drenge – We Can Do What We Want  5ª mais ouvida 
\31 – ♫ VANT – Parking lot

“Mentiras explicativas” é quando venho aqui pra contar mentiras que importam, explicam e revelam os mistérios “dos universo”. Hoje, por exemplo…

Porque quanto mais velha a pessoa menos ela precisa dormir?

Motivo 1 – O curto
Porque aprendem a dormir melhor com a prática dos anos.

Motivo 2 – A história
Nascer é um processo bastante complicado e cheio de possíveis repercussões e desdobramentos que vão muito além da vida do indivíduo que nasce ou daqueles ali em volta dele, batendo palma e comendo bolo. Qualquer vida tem o potencial de canalizar ideias, de sair por aí falando coisas, convencendo os outros de absurdos e despropósitos, que podem colocar em risco o projeto planeta Terra como um todo.

Por esse motivo, criou-se o mecanismo do espalhamento da centelha de vida. Funciona assim, cada vida que nasce não nasce só como um ser humano cabeçudo. Sinto se isso lhe ofende, mas é um fato matemático que, analisadas, de forma isenta de paixão, as proporções de um bebê deixam claro que ele é cabeçudo. Prosseguindo, cada vida que nasce, nasce também espelhada pelo mundo em vários pontos, em diversas formas.

Cada vida inserida no Sistema Planeta Terra é dividida de forma igual e depositada em todos que estiverem nascendo naquele mesmo momento, com uma precisão que tende ao infinito. Assim sendo, a mesma centelha de vida habitará criaturas da floresta, peixes no fundo do mar, aves, bodes selvagens, plantas, insetos, bactérias e seres humanos.

Cada criatura é única em sua forma de ser e nas experiências que vai ter entre o dia que nasce e o dia em que morre. A morte é um fator importante porque ela é um elemento variável em cada uma das criaturas. Descontando as mortes por acidentes e os acasos, é um fato que certas criaturas vivem mais tempo do que outras e isso trás uma série de efeitos colaterais de alta importância. Ter a mesma vida espalhada por todo planeta e em diversas criaturas que vão morrendo aqui e ali afetam o processo como um todo.

Por exemplo, é por isso que crianças são dotadas de uma alegria e uma energia que se perde com os anos. Elas são de fato mais cheias de vida. São também conectadas de uma forma diferente com o mundo, muitas vezes dotadas de uma capacidade de espontaneidade, sabedoria e paz de espírito, que a maioria dos seres humanos nunca mais vai ser capaz de alcançar na vida.

Existem pontos de flutuação no sistema. Algumas vezes pode acontecer de um número muito pouco de nascimentos acontecer em um dado instante, isso faz com que uma determinada vida seja espalhada menos em cada uma das formas de vida que a recebem. Você talvez já teve a oportunidade de cruzar com pessoas que tem essa vida extra por aí, certas criaturas dotadas de uma jovialidade e uma energia pra fazer, diferente de todo o resto. Peço que coloque de lado seu egocentrismo humano e veja que isso vale para gatos, orquídeas e até aquele passarinho que canta mais alto quando amanhece o dia. Nesses casos, para evitar que uma criatura com poderes divinos nasça, o mundo foi projetado para ter uma quantidade imensa de criaturas minúsculas que vivem muito pouco. Por isso temos por aí tantas bactérias, algas unicelulares e insetos.

Quando tiver tempo, repare nesses insetos que vivem uma semana e veja como se movem depressa, como saltam e andam e voam.

Voltando ao exemplo do bebe, já que o egocentrismo é boa estratégia para prender a atenção e extender a conversa. Bebes, especialmente recém nascidos, dormem muito e precisam dormir o tanto que dormem porque dormir está relacionado a processar tudo o que as outras partes daquela vida enviam para aquela vida que dorme. Enquanto ele dorme, ele literalmente está aprendendo sobre o mundo.

Os velhos, por outro lado, são o oposto. As partes da vida dele já morreram quase todas. Algumas vezes até todas. Você já deve ter conhecido por aí algum velho completamente desconectado com o mundo. Por isso eles dormem menos, porque não precisam, porque o aprender sobre o mundo e a vida passa a estar mais focado nas próprias experiências dele, nas coisas que ele carregou e viveu até chegar onde está.

Algumas vezes, num desses casos ritmados no improviso das regras, um mesmo velho, ou velha — por favor, não se ofenda — consegue ter sua vida ainda espalhada pelo mundo em formas de vida que vivem mais que um ser humano. Encontrar uma dessas pessoas é sempre uma experiência fascinante, ver os olhos iluminados, a lucidez, a sabedoria, alguém que é, como dizem “apesar da idade”, assim “tão cheio de vida”.

Às vezes, fico pensando nas árvores de quase mil anos de idade e o que elas teriam pra dizer se pudessem falar.